A coisificação dos atletas é um dos preços a pagar pela mercantilização do desporto.
No desporto negócio os atletas são, muito mais do que assalariados dependentes da prática eficaz e reconhecida, bem transaccionáveis e mercadorias com valor de mercado precário e mais ou menos efémero. Esta circunstância condiciona fortemente a percepção que os adeptos - os fãs - têm sobre a sua dimensão atlética e, para além desta, sobre a sua realidade de homem/mulher para lá da prática desportiva mediaticamente enquadrada.
O atleta de alta-competição é hoje um género de personagem numa narrativa construída em torno de si e que não raras vezes tem pouca relação directa com a verdade da sua vida quotidiana; esta contradição é explorada com sucesso no documentário
"The hurt business" [2016] de Vlad Yudin, uma reflexão sobre a realidade do "MMA" antes de Connor McGregor [o filme não o refere de todo...] e do negócio de milhares de milhões construído em torno dos novos gladiadores do século XXI.
O adepto do MMA raramente parece concentrar a sua atenção e interesse na dimensão técnica e atlética dos combates e o negócio percebe e explora esta fragilidade da relação desporto-fã com grande sucesso.
É precisamente o surgimento em massa de um fã fundamentalmente ignorante relativamente à dimensão técnica da modalidade que força o negócio - os promotores - a introduzirem no contexto específico do MMA todo o conjunto de eventos paralelos aos combates que conduzem à desumanização e desqualificação do atleta perante os olhos do mundo. Refiro-me por exemplo às conferências de imprensa simultâneas de adversários, marcadas quase sempre por um nível de desrespeito [efectivo ou simulado] e provocação sem paralelo noutros contextos desportivos.
O filme é interessante, vale bem a pena procurá-lo.
[
imagem]