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13/05/2019

O mito de Europa

Diz o mito grego que Europa, filha de Agenor, foi raptada por Zeus que disfarçado de touro a levou para Creta. O rapto continua por desfazer e o mito talvez encontre, para os mais atentos e propensos para estabelecer relações simbólicas, assinalável ligação à actual situação do espaço a que alguns chamam "Europa" mas que na verdade é apenas parte dela. Refiro-me à chamada "União Europeia" [EU]. As eleições para o "Parlamento Europeu", que na verdade é apenas um parlamento comunitário, do qual estão ausentes representantes dos países europeus que não são membros da UE, estão aí. E o que observo, leio e ouço parece-me uma absoluta mistificação sobre o que verdadeiramente "está em causa" nos próximos anos. A narrativa oficial é simples: trava-se uma luta decisiva entre "forças europeístas", empenhadas no reforço da "União", e "forças populistas", empenhadas na sua destruição. A visão é simplista e é a sua simplicidade que serve os interesses das forças mais interessadas em capitalizar esta polarização artificial. Vejamos: apresentam-nos as eleições como sendo no âmbito de uma "Europa" que é afinal apenas parte dela, para um "Parlamento Europeu" que na verdade não inclui representantes de toda a Europa, entre facções que não representam de forma alguma todo o universo de propostas políticas e forças partidárias participantes no sufrágio. E depois queixam-se da baixa participação... Pela minha parte estou à vontade. Leio o suficiente sobre política nacional e internacional para formar a minha própria visão do tema, sem simplificações nem caricaturas tão ao gosto daqueles que confundem eleições com competições desportivas. Mas sei que em Portugal haverá um número não negligenciável de pessoas incapaz de identificar um único "deputado europeu", ou de identificar a cidade onde o dito parlamento se encontra, muito menos de relacionar o que se passa em Estrasburgo e Bruxelas com o seu próprio dia-a-dia aqui ao longe, no cantinho sudoeste do continente. O resultado tem sido desastroso eleição após eleição, que não apenas para o "Parlamento Europeu". Não creio que existam razões substantivas para supor que o quadro geral - independentemente do aparecimento episódico de um novo Marinho Pinto - se vá alterar de forma significativa. A "Europa" sabe que tem em Portugal um membro acrítico e submisso. É uma pena mas é o que é.

Eu voto na CDU e na lista encabeçada pelo João Ferreira, o homem que mete o Sr.Juncker a suar.

09/05/2019

Dia "da Europa"

9 de Maio é, no calendário litúrgico do status quo, o Dia da Europa. Tanto quanto sei existem dois dias "da Europa", a 5 e 9 de Maio, mas para o caso tanto dá, porque o que me interessa nesta prosa é a própria designação da data ["da Europa"] quando o que está em causa não é a Europa enquanto espaço físico mas a Europa institucionalizada enquanto realidade económica, política, militar, diplomática e cultural, sob a capa da União Europeia e dos seus mecanismos de absorção ["de integração", como se fiz em "europês"], com destaque para a moeda única ou marco europeu, comummente designada como "euro". Existe naturalmente uma diferença óbvia, inquestionável, entre a Europa e a União Europeia. A Europa é uma realidade que antecede, que supera e que sobreviverá à União tal como a conhecemos. Em todo o caso, num mundo com memória de galinha, parece cada vez mais difícil conceptualizar e sobretudo vivenciar Europa e União Europeia como realidades e ideias autónomas, ainda que naturalmente relacionadas. A 24 de Abril de 1974 dizia-se em Portugal "não questionamos Deus, a Pátria e a Família". Hoje, a 9 de Maio de 2019, os dogmas ainda fazem escola, ainda que redireccionados para outros objectos de culto. Não questionamos o crescimento económico, a economia de mercado e, claro está, "a Europa" [propositadamente confundida com a União Europeia] em todas as suas múltiplas e cada vez mais vincadas injustiças e contradições. E é precisamente a postura acrítica dominante relativamente aos referidos dogmas que os torna particularmente nocivos para a vida diária e concreta daqueles que por circunstâncias que não lhes foram e são alheias nasceram do lado de cá ou do lado de lá das apertadas e cada vez mais blindadas fronteiras de Schengen. A Europa idealizada só vive na cabeça daqueles que se demitiram de a pensar ou então daqueles que metidos dentro da sua burocracia vivem longe das dificuldades dos "europeus" de segunda.

12/08/2016

"The russians are coming!"

A ministra esperava, mas já não espera, caso contrário o melhor é sentar-se. A "Europa" gosta muito de nós para fazer número, alargar mercados e evitar ovelhas tresmalhadas no rebanho que os alemães vão comandando de acordo com as suas conveniências. Portugal pode arder de ponta-a-ponta, que não serão os nossos "parceiros europeus" - com a honrosa excepção italiana e espanhola, "PIG" portanto - a vir em nosso socorro.

De resto, se a proximidade com o Reino de Marrocos pode explicar a cooperação que já levou aviões de combate a incêndios para a muito martirizada zona de Arouca, a disponibilidade russa para mobilizar meios seus em proveito da protecção civil portuguesa é coisa que terá surpreendido muito comum cidadão habituado à desinformação oficial sobre a maldade estrutural das hordas asiáticas de Moscovo.

Será bom lembrar que em 2014 se falava em "bombardeiros russos intercetados" junto à Costa nacional, notícia que causou grande agitação mediática e uma oportunidade de ouro para os comentadores do costume virem bolsar ácido sobre a Rússia, tendo como pretexto Putin. O contexto, pós-"Euromaidan", alimentava uma russofobia doentia, que aliás se vai mantendo e reproduzindo em contextos que deveria ficar imunes ao preconceito nacionalista (refiro-me por exemplo a comentários que já ouvi e li, no âmbito dos Jogos Olímpicos de 2016).

Os incêndios do Verão de 2016, em Portugal, ficarão como mais um momento de desvelação relativamente à forma como a "Europa" olha para Portugal.

09/07/2016

A paciência dos pobres

"(...) Num proveitoso livro, O cerco protector, em que Heinrich Böll 
descreve 'os anos de chumbo' na Alemanha, Blurtmehl, 
o mordomo, responde à seguinte pergunta do patrão: 
- O que mais o surpreende neste mundo esquisito? -
- O que mais me surpreende é a paciência dos pobres!
É esse de facto o verdadeiro mistério e o autêntico 
espanto, a docilidade que faz os Homens tudo suportar"

Manuel Ricardo de Sousa
em "Guerrilha no Asfalto: As FP-25 e o tempo português"
pág. 41


Recordo com frequência as palavras de Manuel Ricardo de Sousa e e de Heinrich Böll. É surpreendente a paciência que a esmagadora maioria de nós vai não apenas manifestando mas também alimentando relativamente às palavras e sobretudo à acção daqueles que vêem neste mundo o cenário das suas vidas opulentas, estruturadas em cima da miséria, do sofrimento e da falta de esperança daqueles que são as verdadeiras formiguinhas obreiras de um sistema que na verdade não as serve. Também me surge com frequência uma conclusão mais ou menos empírica e especulativa: o principal mérito dos ricos foi terem conseguido quase sempre, ao longo da história, fazer dos pobres a sua muralha de protecção contra outros humildes menos pacientes e disponíveis para tolerar ad eternum os regimes de pornográfica desigualdade que lhes foram sendo servidos ao longo da história.

O ingresso de Durão Barroso na estrutura dirigente do polvo-bancário norte americano Goldman Sachs é nova prova à resistência da muralha de humildes que em torno de si erigiu o capitalismo e as suas instituições, entre as quais se contra o entreposto político a que muitos chamam "União Europeia".

Para ser absolutamente franco é-me mais ou menos indiferente que seja Barroso ou outro qualquer lacaio do sistema, recém saído de um alto cargo político e com uma lista de contactos bem recheada, a assumir o posto que lhe estava prometido no sistema financeiro internacional. O problema é que o que para mim é indiferente não o é para a Democracia. E a entrada de Barroso para o Goldman Sachs é mais um punhal espetado e torcido no coração daquilo que vai restando do sistema democrático na nossa sociedade.

Que uma União Europeia, que mais não é do que um corpo institucional de fachada que permite ao sistema financeiro internacional operar a seu bel-prazer dentro e fora da "zona euro", venha depois chorar cínicas lágrimas acerca do "afastamento entre eleitores e eleitos" ou relativamente ao reforço do movimento fascista no pós-1991 é todavia intolerável e merece denúncia e combate. A União Europeia é parte integrante do problema.

Barroso protagonizou uma presidência patética da Comissão. Tal como antes havia protagonizado um papel patético à frente do governo português. Que muitos (sobretudo na imprensa) o tenham visto como uma forte possibilidade para suceder a Cavaco Silva na presidência da República é coisa bem reveladora do grau de sabujismo imperante neste país. E que o actual presidente da República venha louvar esta intolerável demonstração da absoluta promiscuidade entre o poder político na cúpula não eleita da União Europeia e as grandes sanguessugas financeiras que se alimentam da miséria dos povos é elemento que não apenas não pode ser ignorado como deve ser alvo da mais frontal e firme censura.

Blurtmehl, o mordomo, espantava-se com a paciência dos pobres, mas eu creio que esta se vai esgotando.

Que os humildes deste mundo tenham a capacidade de compreender que muito mais do que Barroso é o sistema capitalismo e as suas diversas expressões nacionais e multinacionais que devem ir parar ao caixote do lixo da história é aspecto fundamental para que deste imenso monte de merda em que se transformou o mundo possa sair, mais cedo que tarde, outra forma de viver.

Que os humildes deste mundo tenham a capacidade de compreender que muito mais do que "reformas" (esse eufemismo que pretende tudo mudar para que tudo fique na mesma) o que se impõe é Revolução e um novo tipo de organização política, económica, social, cultural e ecológica é também condição fundamental para que o mundo dê, por fim, o salto qualitativo que o comum dos mortais merece desde que as sociedades se estruturaram num regime de segregações várias, de entre as quais se destaca a económica e social.

29/06/2016

Era uma vez um palerma

Quando em 2014 existiu uma perspectiva real para a vitória da opção independentista no referendo escocês sobre o fim da ocupação britânica (que leva longos séculos) a União Europeia não regateou esforços e foi um dos participantes externos mais empenhados na vitória do "Não" que derrotou a ideia de uma Escócia por fim livre e soberana, separada da coroa britânica e da sua natureza imperial. Nas semanas anteriores ao referendo a propaganda do medo foi utilizada sem contenção. O Público noticiava por exemplo que "ao longo das últimas semanas, a imprensa britânica tem citado vários altos funcionários europeus não identificados a garantir que é consensual na Comissão o entendimento de que uma Escócia independente teria de voltar a pedir a integração na União Europeia, processo que calculam poder demorar cinco ou seis anos".

Menos de dois anos depois o quadro alterou-se, e perante a decisão da maioria dos votantes do Reino Unido de deixar a União Europeia, Juncker veio estender a mão aos mesmíssimos escoceses que em 2014 via como uma ameaça à estabilidade da "União": "A Escócia ganhou o direito de ser ouvida". A hipocrisia não tem limites.

Muitos escoceses, agradecidos, aproveitarão a condescendência "europeia" e tudo farão para que uma Escócia soberana, livre da tutela dos vizinhos do sul, possa ver finalmente a luz do dia. Eu, que não sou escocês, olho para esta oportunidade como a triste prova de que os mecanismos de "integração europeia" não passam de expedientes ao serviço dos interesses do momento. A "Europa" (leia-se, a União Europeia) não tem princípios, como este caso particular demonstra de forma cristalina. Os escoceses poderão saltar da frigideira britânica para o caldeirão comunitário. Mas ficarão cientes de que sem "Brexit" os burocratas de Bruxelas jamais lhes concederiam "o direito de ser ouvida". A eventual (e desejável) independência da Escócia terá sido, nestas circunstâncias, muito mais do que o desfecho de um longo processo de luta dos escoceses, um esquema contorcionista da "Europa" franco-alemã. A mesma que há dois anos contribuiu activamente para que "o direito a ser ouvida" fosse espezinhado.

28/06/2016

Eram bestiais e agora são bestas. Fora com eles. Já. Não vão os outros perceber que afinal é possível mandar à merda os burocratas não eleitos que mandam na UE.

Era uma vez uma Inglaterra "europeísta", toda ela convicta da sua pertença à União que a Alemanha criou para tentar uma vez mais afirmar a sua hegemonia continental. Nesta Inglaterra idílica não existia racismo, xenofobia nem islamofobia. Ao contrário do que muitos afirmavam, a Inglaterra não foi uma das quatro nações participantes na Cimeira das Lajes, aquela que apresentou o 11 de Setembro de 2001 como o pretexto perfeito, todo embebido em islamofobia, para atacar o Iraque e transformar aquele país num género de Síria do início do milénio. Blair não esteve antes no ataque à Federação Jugoslava, desmembrada à força de urânio empobrecido, e não foi protagonista principal da retórica da "war on terror", a mentira que deu o pontapé de saída na visão de todo o árabe (e de alguns persas também) como uma bomba com pernas, capaz de cortar a cabeça ao mais inocente dos ocidentais.

A verdade é que até há dias atrás o racismo inglês não era mais do que uma ideia sem expressão, com presença reduzida e delimitada aos bairros mais pobres das cidades mais pobres do Reino Unido. O colonialismo britânico, centenas de anos de serviço aos povos selvagens de outras paragens, não foi exploração, violência, submissão e saque. Pelo contrário: a violência britânica no "ultramar" foi sobretudo serviço aos próprios violentados, ingratos que nunca reconheceram a dificuldade do processo de descolonização levado a cabo por políticos com muita imaginação para desenhar em mapas fronteiras sem sentido.