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09/09/2016

Sobre o "Manifesto do Unabomber", intitulado "O futuro da sociedade industrial" [parte 2]

A releitura de "O futuro da sociedade industrial", documento mais conhecido como o "Manifesto do Unabomber", constituiu para mim uma profunda desilusão. Não sendo adepto do tipo de acção levada a cabo por Theodore Kaczynski julgava por outro lado poder vir a encontrar no seu manifesto uma abordagem científica-filosófica profunda sobre o tema da tecnologia e do seu impacto na vida dos Homens e das comunidades humanas. Vários anos depois da primeira leitura do documento encontrei no "Manifesto" formulações generalistas, generalizações desprovidas de sentido, conclusões empíricas sem fundamentação e, por várias vezes, a confissão por parte do próprio autor de que tal ou tal ideia são na verdade simplificações grosseiras de uma realidade bem mais complexa do que a visão esquemática que "O futuro da sociedade industrial" acaba por utilizar.

Em boa verdade "O futuro da sociedade industrial" não é um documento sobre tecnologia. A questão fundamental, que o autor efectivamente relaciona de forma directa à tecnologia e à civilização tecnológica-industrial, é a da Liberdade individual e a ligação desta com o chamado "processo de aquisição de poder".

No seu manifesto, Kaczynski apresenta-nos a sua visão de uma liberdade amputada das suas mais relevantes e fundamentais características, com destaque para a autonomia, profundamente afectada pela tecnologia e por uma civilização industrial que transforma seres humanos em autómatos "socializados" (domesticados e rendidos às suas convenções essenciais). O autor refere, nalguns casos com desconcertante acerto e perspicácia, a forma como a tecnologia agride a relação do homem com a natureza, com os espaços, com os outros seres humanos e, principalmente, consigo mesmo.

Para Kaczynskia tecnologia não é neutra nem reformável. Em "O futuro da sociedade industrial" é aliás abordado o tema das reformas e as dificuldades - não raras vezes irresolúveis - ligadas ao gradualismo reformista. Este será, temo bem, a parte mais interessante do livro.

De resto não creio que o autor apresente argumentos originais nem de peso suficiente para justificar a sua ânsia pela publicação do seu "Manifesto". A obra é relevante no âmbito da história de uma certa linhagem particular de ludismo. Mas não fosse dar-se o caso de ter sido o seu autor um dos mais procurados assassinos das últimas duas décadas do século XX, nos Estados Unidos da América, "O futuro da sociedade industrial" não passaria de mais um longo artigo escrito por um outro universitário radicalizado, a passar ao lado da esmagadora maioria dos seres humanos à superfície do planeta.

01/09/2016

Sobre o "Manifesto do Unabomber", intitulado "O futuro da sociedade industrial" [parte 1]

A releitura do "Manifesto do Unabomber" tem-se revelado muito proveitosa relativamente o estudo que venho realizando sobre as várias perspectivas e facções (não raras vezes fortemente sectárias) do movimento ludita e neoludita moderno.

O texto, que conheceu em meados dos anos 90 enorme projecção e debate - sobretudo e compreensivelmente nos Estados Unidos da América - caiu no esquecimento e poucos serão aqueles que, tendo atingido a idade adulto após a detenção de Theodore John "Ted" Kaczynski, em 1996, saberão quem foi, o que fez e aquilo que escreveu um dos mais conhecidos opositores da sociedade industrial actual. Curiosamente, parte das teses de Theodore Kaczynski são hoje mais actuais e pertinentes do que era quando conheceram divulgação pública.

A divulgação do Manifesto

A primeira acção violenta do homem que viria a ficar conhecido como "Unabomber" teve lugar em 1978, o ano do meu nascimento, e teve como alvo o professor Buckley Crist, da Northwestern University. A bomba destinada a Crist acabou por rebentar quando um polícia a observava, causando-lhe ferimentos ligeiros.

A acção de "Ted" Kaczynski assumiria então, daí em diante, uma crescente radicalização, e uma maior procura de eficácia e impacto. Quando em 1996 foi finalmente capturado, após quase 20 anos de vida clandestina, o "Unabomber" havia já provocado 3 vítimas mortais e vários feridos.


Theodore Kaczynski em 1967, quando ensinava matemática em Berkeley.
 
É relativamente difícil compreender as razões objectivas que  motivaram Kaczynski para a via que escolheu para a afirmação do seu ideário. As suas vítimas são de uma forma geral gente mais ou menos insignificante dentro da hierarquia do poder político, económico, financeiro e industrial dos Estados Unidos (talvez com a excepção de Percy Wood, presidente da American Airlines, ferido em Junho de 1980), pelo que para além da dimensão de terror associada à arbitrariedade da escolha dos alvos não seria expectável que a acção violenta de Kaczynski alcançasse outros resultados que não fossem uma vida de isolamento e fuga constante à perseguição policial.

Por outro lado parece relativamente claro que o objectivo central da ameaça violenta do "Unabomber" passou a ser, em determinado momento, a reivindicação de atenção mediática para o seu pensamento sobre o complexo industrial e respectivos efeitos na vida das comunidades humanas. A publicação do seu "Manifesto", em 1995, resulta precisamente do compromisso que assumiu com jornais de grande tiragem nos EUA, segundo o qual a publicação integral de "O futuro da sociedade industrial" significaria o fim das suas acções contra violentas contra indivíduos cuja acção associava à progressão da ameaça tecnológico-industrial [mensagem enviada no início de 1995 ao The New York Times: "This is a message from FC…we are getting tired of making bombs. It’s no fun having to spend all your evenings and weekends preparing dangerous mixtures, filing trigger mechanisms out of scraps of metal or searching the sierras for a place isolated enough to test a bomb. So we offer a bargain."].

A última vítima (que neste caso foi mortal) das suas acções foi Gilbert Brent Murray, lobbista do sector madeireiro, assassinado em Abril de 1995 em Sacramento, Califórnia. A 19 de Setembro do mesmo ano, o The New York Times e o The Washington Post publicam finalmente o texto de Theodore Kaczynski, alcançando nesse dia recordes de vendas. O Unabomber via finalmente a expressão sistematizada do seu pensamento ganhar divulgação universal; simultaneamente, daria o passo decisivo para a sua detenção, já que ao ler "O futuro da sociedade industrial", o seu irmão David associaria o tipo de escrita e as temáticas nele contidas a outros escritos anteriores de Kaczynski. David seria o elemento chave para a identificação de "Ted" Kaczynski como o "Unabomber", bem como para a sua posterior detenção na zona de Lincoln, Montana.


Cabana do "Unabomber", perto de Lincoln, Montana.

A captura de "Ted" Kaczynski permitiu à polícia confirmar que o autor dos atentados assinados pelo FC ["Freedom Club"] era na verdade um único homem.