Em boa verdade "O futuro da sociedade industrial" não é um documento sobre tecnologia. A questão fundamental, que o autor efectivamente relaciona de forma directa à tecnologia e à civilização tecnológica-industrial, é a da Liberdade individual e a ligação desta com o chamado "processo de aquisição de poder".
No seu manifesto, Kaczynski apresenta-nos a sua visão de uma liberdade amputada das suas mais relevantes e fundamentais características, com destaque para a autonomia, profundamente afectada pela tecnologia e por uma civilização industrial que transforma seres humanos em autómatos "socializados" (domesticados e rendidos às suas convenções essenciais). O autor refere, nalguns casos com desconcertante acerto e perspicácia, a forma como a tecnologia agride a relação do homem com a natureza, com os espaços, com os outros seres humanos e, principalmente, consigo mesmo.
Para Kaczynskia tecnologia não é neutra nem reformável. Em "O futuro da sociedade industrial" é aliás abordado o tema das reformas e as dificuldades - não raras vezes irresolúveis - ligadas ao gradualismo reformista. Este será, temo bem, a parte mais interessante do livro.
De resto não creio que o autor apresente argumentos originais nem de peso suficiente para justificar a sua ânsia pela publicação do seu "Manifesto". A obra é relevante no âmbito da história de uma certa linhagem particular de ludismo. Mas não fosse dar-se o caso de ter sido o seu autor um dos mais procurados assassinos das últimas duas décadas do século XX, nos Estados Unidos da América, "O futuro da sociedade industrial" não passaria de mais um longo artigo escrito por um outro universitário radicalizado, a passar ao lado da esmagadora maioria dos seres humanos à superfície do planeta.

