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06/08/2016

Karoshi

Pelo menos 189 pessoas morreram no Japão em 2015 por excesso de trabalho | Trabalham quase sem parar e acabam por morrer na sequência de ataques cardíacos ou devido a suicídios. No ano passado houve 189 casos confirmadas, mas os especialistas estimam que o número real ande na ordem dos milhares, segundo dados avançados num artigo do 'The Washington Post' sobre o assunto. Só nos primeiros três meses deste ano já tinham sido apresentados para avaliação 2310 casos de mortes eventualmente devidas a Karoshi. [Expresso, 04.08.2016]

"(...) Oh I had a dream I was dreaming
And I feel I'm losing the feeling
Makes me feel like
Like something don't feel right"
 de "Modern Man", Arcade Fire [disco: The suburbs]

Conhecia a realidade mas desconhecia a expressão japonesa a ela associada. "Karoshi" [過労死], ou seja, morte por exaustão no trabalho. Hoje li-a no Expresso e fui pesquisar. Vi um pequeno documentário, li notícias relativas a estatísticas dos últimos anos e descobri, com tristeza mas sem surpresa, que uma empresa europeia desenvolveu um jogo para computador e dispositivos móveis precisamente chamado "Karoshi", no qual o jogador tem como objectivo fundamental levar o personagem principal, o Sr.Karoshi, a cometer suicídio. Quando desliguei o computador, ao final da manhã, recordei as palavras de Saramago em "Ensaio sobre a cegueira": "Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem".

Cega está boa parte dos explorados e o ditado esclarece que em terra de cegos quem tem olho é Rei. A monarquia a que me refiro, absolutista, é a do capital com o seu mito unificador em torno dos dogmas fundamentais do sistema: propriedade, liberdades que não conflituem com o direito de propriedade e de acumulação privada de capital, visão instrumental e utilitária do Homem, hoje reduzido à condição de "recurso".

A notícia do Expresso é assustadora, e quem a ler terá dificuldade em compreender onde se situam, na estrutura política, económica e social do Japão imperial, no seio do qual o Imperador permanece como "sua Alteza Celestial" e as antigas castas feudais deram lugar a uma burguesia pós-senhorial que manteve boa parte dos privilégios antigos (aos quais de resto associou outros novos), os elementos que permitem caracterizar o regime político japonês como uma "democracia". Transcrevo:
"(...) As longas horas extraordinárias, efetuadas de modo voluntário e sem direito a remuneração extra, fazem parte da cultura de trabalho dominante no Japão (ao ponto de quem não o fizer sentir que facilmente ficará numa posição de ser questionado o seu empenho profissional), assim como o hábito de os trabalhadores não gozarem do período de férias a que têm direito.

O problema está longe de ser novo naquele país mas tem vindo a agravar-se, levando a que há 18 meses tenha sido aprovada legislação para o combater. Foram estipuladas metas de diminuição do número de pessoas que trabalham mais de 60 horas semanais para 5% em 2020 (atualmente são cerca de 8% a 9%). Relativamente às férias, poucos são os que atualmente chegam a gozar sequer metade dos 20 dias a que têm direito. O objetivo é levá-los a gozarem pelo menos 70% desse tempo."

A morte por exaustão, ou a exaustão que não mata fisicamente mas destrói vidas, não é um exclusivo japonês. Na verdade, o trabalho escravo que não é explicitamente forçado ganha cada vez mais espaço nas economias capitalistas, hoje largamente dominantes no panorama internacional. Assim, num quadro histórico em que o trabalho é muito provavelmente o mais central elemento das vidas de cada um de nós - mesmo daqueles que afirmam o contrário -, a tendência de aproximação ao padrão japonês não é assunto que nos deve deixar descansados, bem pelo contrário.

A velocidade das nossas vidas, a implosão do tempo real e a sua substituição por um novo conceito de tempo universal (imposto por um absurdo, errado e doentio conceito de conectividade global), a dispersão da atenção (não raras vezes expressa por uma cegueira específica, a que os estudiosos chamam "cegueira por desatenção") e a sua causa fundamental (a natureza multitarefa dos regimes de trabalho actuais) são aspectos profundamente implicados num sentimento predominante de vazio, exaustão e permanente necessidade de fuga (nunca estruturalmente concretizada, sobretudo devido a uma cultura de medo complementar a esta que refiro).

O absurdo define o capitalismo. O fenómeno "Karoshi" é 'apenas' uma das suas faces mais dramáticas.

25/05/2016

O momento "maggie" da ministra do mar

Oiço dizer-se que a greve dos estivadores tem que ter um fim independentemente destes terem razões para a fazer. Presumo que quem o afirma acredite que os patrões do sector têm, inversamente, o direito de forçar os trabalhadores a abandonar a greve (às horas extraordinárias, note-se bem...) independentemente de não terem razão nenhuma. A coisa fica mais grave quando a ministra do mar aparece nas televisões a defender um despedimento colectivo que visa punir uma greve e criar as condições para que novas contratações de estivadores façam descer os custos - salariais e não só - do trabalho portuário. Ao ouvir a ministra não pude deixar de recordar a argumentação da direita inglesa, quando nos anos 80 destruiu por completo o sector do carvão no norte de Inglaterra, condenando comunidades inteiras a vidas miseráveis com consequências duradouras. Também a senhora Thatcher usava o argumento do interesse público para fazer vergar muitos milhares de mineiros e, com eles, o movimento sindical britânico. O momento "maggie" da ministra do mar não pode ficar politicamente impune. Até porque a retórica mediática em torno dos prejuízos provocados pela greve é treta que um governo que pretende manter-se em funções com o apoio "da esquerda" não pode deixar de desmistificar e combater. De que lado está o governo?

20/05/2016

O negócio da Novilíngua

Num tempo em que as pessoas comuns se distanciaram da participação cívica e política clássica - as razões desse afastamento são relevantes mas, no caso concreto, laterais - as empresas (onde de resto passam a esmagadora maioria do tempo útil das suas vidas) assumiram o papel de doutrinação - através de treino técnico e formas de doutrinação ideológica não raras vezes manipuladora - que outrora pertenceu aos homens e às mulheres dedicados à intervenção política e social. O Grande Irmão do século XXI já não é um líder político; ele é o CEO "de referência" num plano macro e o conselho de administração da organização em que cada um de nós trabalho, num plano mais local. É neste contexto que surgem fenómenos de reformulação de linguagem, com impacto directo nas super-estruturas ideológicas da sociedade. Os "empreendedores" são exemplos, mesmo quando o empreendedorismo que empreendem representa elevadíssimos custos sociais, económicos, políticos, ambientais e humanos. Um novo dicionário da economia capitalismo do século XXI varreu do discurso normalizado dos "colaboradores" e chefias expressões ou palavras menos rentáveis, subversivas, perigosas, expansivas, incongruentes com os processos de normalização em curso. Nas organizações modernas não existem problemas, "apenas desafios e soluções"; a linguagem foi limpa de expressão "negativas", todas reformuladas "pela positiva"; os estrangeirismos roubaram uso e significado à inimaginável riqueza da língua materna. O patrão deixou de ser patrão e o trabalhador não trabalha: colabora. A (de)formação ideológica da sociedade capitalista do século XXI é feita 8 a 12 horas por dia, nos locais de trabalho. E curiosamente é precisamente nos locais de trabalho que reside a semente da esperança de uma mudança radical, em direcção não a novas formas de chegar ao mesmo viver, mas antes a novas formas de construir um novo viver.


17/05/2016

1984 é 2016.

1984 é um grande romance. Inicialmente apontado como crítica directa ao socialismo soviético, enganam-se aqueles que teimam em datar o livro. Orwell não escreveu sobre um contexto específico, descreveu de forma brilhante os riscos associados a formas totalitárias de viver colectiva e individualmente. 1984 é hoje, e hoje não há socialismo soviético. 1984 é o regime de vigilância estatal e corporativa que damos como circunstância adquirida nas nossas vidas. 1984 é a novilíngua empresarial que tomou de assalto a economia, o desporto, a política, a cultura, as relações humanas em sentido lato. 1984 é o Grande Irmão CEO que poucos questionam nesse renovado contexto totalitário que são as empresas, onde a regra é obedecer de acordo com a norma ("da qualidade"), lugar que fez florescer um dialecto próprio que não apenas contaminou o falar - e naturalmente o pensar - dos "colaboradores" como é diligentemente patrocinado e controlado por uma nova polícia do pensamento, em regra corporizada por chefias intermédias mais irmanadas do que o Grande Irmão, ele mesmo. A novilíngua é "positiva" e "empreendedora", estrangeirada e superficial. Como o pensamento dominante. A novilíngua é a transposição discursiva de um estilo de pensamento que não é simples, é simplista. Ela é igualmente o correspondente verbal - e não verbal - ao movimento espasmático e compulsivo do pulgar fazendo correr icones e menús num smartphone maior do que a própria mão. A novilíngua é o capitalismo estético e o lugar instrumental que o ser humano utilizador-pagador ocupa no novo sistema. 1984 é 2016.