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10/05/2019

Transumanismo

Na primeira página de "Last child in the Woods" [Richard Louv] o autor escreve que a natureza, ao contrário da televisão, não rouba tempo, amplifica-o. Li a referência à televisão e procurei a ficha editorial do livro, confirmando que nunca poderia ser uma obra com menos de 10 anos; "Last child in the wood" é de 2005, já bem dentro da era da internet mas ainda fora do tempo dos smartphones e da internet 4G. Em 2005 muitos poderiam já antever mas quase ninguém teria visto ainda crianças pequenas - e por vezes muito pequenas - agarradas a ecrãs de dimensões inferiores a um palmo e fazendo a televisão parecer o mais inofensivo dos "pré-gadget" arcaícos. Não me interpretem mal; eu sou um neoludita que despreza a televisão [o objecto e a programação a que dá acesso] mas não me lembro de alguma vez ter olhado para um televisor como extensão do corpo - ou da consciência - de alguém. Sim, a televisão roubou e rouba tempo na medida em que milhões e milhões de pessoas continuam a despender boa parte do seu pouco "tempo-livre" olhando para ela; sim, a programação televisiva [em particular a informação, transformada em entretenimento-informativo] continua a influenciar de forma decisiva a percepção de uma parte relevante das comunidades sobre temas chave do debate público [desde logo seleccionando o que é ou não passível de debate, e em que termos...]. Em todo o caso creio que serão raras as pessoas que confundem a televisão objecto - e a televisão-conteúdo - com o seu próprio "eu". Esta suposição muda radicalmente de sentido se em vez da televisão considerarmos os nossos "smartphones". Em 2016, num artigo publicado no The Guardian, Michael Lynch reflectiu sobre o telefone como extensão da identidade dos seus utilizadores. Em certo sentido, esta confusão entre o nosso eu-físico e esse apêndice tecnológico com usamos não menos de 18 horas por dia é já o início de um transumanismo efectivo ["whether or not we actually are our phones, we increasingly identify with them. We increasingly see them and the digital life we lead on them as partly constituting who we psychologically are"]. O assunto parece-me suficientemente sério para não ser ignorado. De resto, é precisamente à luz desta constatação mais ou menos evidente que percebemos que não existe de facto grande relação entre a relação entre a forma como nos relacionávamos [e relacionamos] com a televisão e, por outro lado, a forma como vivemos - intensa e sofregamente - o smartphone como parte de nós. A crescente percepção desta relação doentia entre o ser humano e o seu telefone tem motivado um movimento involutivo no plano meramente tecnológico, e que consiste na opção por dispositivos que regressam às funções básicas do antigo telefone móvel - fazer e receber chamadas, enviar e receber "sms". Não sei se este "movimento" terá a expressão suficiente para se transformar em moda e, por essa via, em "tendência de consumo". O futuro o dirá.

08/09/2016

Truman Show, ou o conforto cognitivo que se alapou à "civilização" que temos.

É curioso que, sendo eu profundamente interessado por todo o fundo psicológico e filosófico associado ao "Truman Show", nunca lhe tenha dedicado neste blogue a atenção devida. Como o tempo nesta fase é um bem escasso no meu dia-a-dia, aproveito este belíssimo post do Daniel Carrapa (no muito aconselhado "A barriga de um arquitecto"), cuja ligação faz parte da lista de blogues e afins disponível nesta tasca) para aconselhar um filme e uma reflexão que fez luz sobre uma realidade pouco clara no momento da sua estreia. "Truman Show" foi uma candeia demasiado à frente, num tempo em que dois, três anos parecem uma eternidade.

Aos mais interessados deixo uma dica adicional: a leitura do conto "What's It Like Out There?", de Edmond Hamilton, publicado na colectânea "Mensagens do futuro", organizada por Isaac Asimov, e publicada em português no âmbito da colecção Argonauta (n.º320).

28/06/2016

Quando o racismo chega às tv's

Há uma diferença grande, enorme, entre erupção súbita de actos racistas na ressaca de um referendo e erupção súbita de notícias relativamente a actos racistas que no entanto têm um histórico de longos anos, para tentar encaixá-los numa determinada narrativa, na ressaca de um referendo.

O racismo made in UK chegou finalmente aos noticiários portugueses. As notícias chegam com séculos de atraso. Os mais optimistas dirão que mais vale tarde do que nunca. Os menos optimistas, como eu, dirão que a ocasião não é inocente.

Janeiro de 2016:
"Asylum seekers in Cardiff are being issued with brightly coloured wristbands that they must wear at all times, in a move which echoes the “red door” controversy in Middlesbrough and has resulted in their harassment and abuse by members of the public."


13/06/2016

futebol mod€rno

Tenho a ideia de que não é compatível louvar a luta contra o futebol moderno e, ao mesmo tempo, enfardar quantidade industriais de futebol FIFA e UEFA, da "Champions League" ao Euro2016. São coisas que não casam. O homem, por outro lado, é o bicho da contradição, sendo que esta vive em todos nós - e nos colectivos que formamos -, o que não é bom nem mau, é como é. Eu resolvi mandar o futebol mod€rno à merda. Não me interessa, não me motiva, não me desperta paixão alguma. Futebol mod€rno é sinómino de tudo aquilo que deploro na sociedade humana. Puta que o pariu, portanto.

[foto: ruínas do mítico Estádio Eng.º Vidal Pinheiro, o do Salgueiros, Paranhos, Cidade do Porto]

11/06/2016

a revolução não será televisionada (com o patrocínio de uma marca qualquer...) [eu quero que o Euro2016 ça foda...]

É mais ou menos possível passar ao lado do europeu de futebol. na verdade basta desligar a droga - a televisão, leia-se. sem televisão o mundo aparece-nos de novo a cores, ou pelo menos com as cores que tem e não com as cores que o ecrã nos "oferece". sem televisão, aquilo que nos dizem ser o assunto que faz girar o mundo deixa de o fazer girar, ainda que o dito cujo gire na mesma.

18/05/2016

Núticias.

Tornar complexo o simples e simplificar artificialmente o complexo: resultados de futebol são debatidos durante horas a fio, em simultâneo, em tudo o que é canal "informativo" indígena, enquanto assuntos como por exemplo a situação política no Brasil ou na Venezuela são arrumados em poucos segundos nos noticiários, com base em meia-dúzia de ideias repetidas, exageros descontextualizados, selecção pouco criteriosa (ou melhor seria escrever, ideologicamente criteriosa...) dos aspectos a incluir nas peças jornalísticas. Maduro é mau, a "oposição" é boa. Nas núticias.

17/05/2016

1984 é 2016.

1984 é um grande romance. Inicialmente apontado como crítica directa ao socialismo soviético, enganam-se aqueles que teimam em datar o livro. Orwell não escreveu sobre um contexto específico, descreveu de forma brilhante os riscos associados a formas totalitárias de viver colectiva e individualmente. 1984 é hoje, e hoje não há socialismo soviético. 1984 é o regime de vigilância estatal e corporativa que damos como circunstância adquirida nas nossas vidas. 1984 é a novilíngua empresarial que tomou de assalto a economia, o desporto, a política, a cultura, as relações humanas em sentido lato. 1984 é o Grande Irmão CEO que poucos questionam nesse renovado contexto totalitário que são as empresas, onde a regra é obedecer de acordo com a norma ("da qualidade"), lugar que fez florescer um dialecto próprio que não apenas contaminou o falar - e naturalmente o pensar - dos "colaboradores" como é diligentemente patrocinado e controlado por uma nova polícia do pensamento, em regra corporizada por chefias intermédias mais irmanadas do que o Grande Irmão, ele mesmo. A novilíngua é "positiva" e "empreendedora", estrangeirada e superficial. Como o pensamento dominante. A novilíngua é a transposição discursiva de um estilo de pensamento que não é simples, é simplista. Ela é igualmente o correspondente verbal - e não verbal - ao movimento espasmático e compulsivo do pulgar fazendo correr icones e menús num smartphone maior do que a própria mão. A novilíngua é o capitalismo estético e o lugar instrumental que o ser humano utilizador-pagador ocupa no novo sistema. 1984 é 2016.


25/02/2016

O "olho do furacão"

A notícia é do Público e tem data de ontem, 24.02.2016 [1]. No título a metáfora do "olho do furacão", normalmente associada a grande agitação. De forma errada, como sabe qualquer leitor com conhecimentos básicos sobre a realidade dos "furacões"; é que o "olho do furacão", a zona central da tempestade, é em regra caracterizado por condições amenas, contrastantes com aquelas que se verificam na chamada "parede do olho", onde imperam condições severas.

29/01/2016

Terapia


Num panorama televisivo nacional fundamentalmente dominado pela falta de qualidade, de imaginação e de originalidade, "Terapia" é uma lufada de ar fresco que muito honra o serviço público. É certo que a série é uma adaptação nacional de "In Treatment", série norte-americana da HBO inspirada numa outra israelita ("BeTipul"). Acontece que "Terapia" não é um decalque nem uma cópia traduzida do modelo original. A equipa de "Terapia" deu à série uma identidade própria, uma linguagem peculiar, um ambiente adaptado ao público português.

02/11/2015

"Portugalmente"

O "Portugalmente" foi uma lufada de ar fresco na televisão portuguesa da segunda metade da década de 90, período marcado pelo surgimento dos primeiros canais privados em Portugal (1992/1993) e pela imposição de conteúdos de pobre qualidade que arrastaram a própria RTP1 um estilo de programação totalmente afastado de qualquer conceito minimamente coerente de serviço público.

17/10/2015

"Pântano mediático" [1]

Em "A Sociedade do Espectáculo" [2], Guy Debord apresenta ao leitor a sua visão de uma sociedade em que a mercantilização de todas as experiências, a mediatização de todos os discursos e a simplificação de todas as mensagens deformam a realidade, reduzindo-a a puro produto de consumo.

Este fenómeno, que hoje se apresenta perante todos nós praticamente desvelado, determina em boa parte a relação dos seres humanos com o real. Esta relação, que já foi predominantemente directa, transfere-se de forma acelerada para um formato mediado por meios e discursos uniformizados. A sociedade do espectáculo assume a aparência de diversa e plural, mas na verdade é normalizada e superficial.

13/10/2015

A caixa colorida [*]

Sendo certo que redes sociais e a programação "on demand" são desafios que a televisão ainda não foi capaz de resolver completamente, não é menos certo que em países como Portugal esta mantém uma importância esmagadora como meio de difusão e promoção massificada de mensagens diversas, incluindo comerciais e/ou políticas.