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07/09/2016

Propriedade intelectual

Com Pierre-Joseph Proudhon terei muito pouco em comum. Em todo o caso creio que é sua a célebre expressão "a propriedade é um roubo", com a qual estou genericamente de acordo, pese embora considere muito avisadas, justas e certeiras as palavra que a ela dedicou Karl Marx, e que se resumem mais ou menos na seguinte observação: "o 'roubo', enquanto violenta transgressão da propriedade, pressupõe a existência da própria propriedade", legitimando-a.

Seja como for recordei-me das palavras de Proudhon quando pesquisando acerca do disco "Single factor", dos Camel, encontrei numa entrevista de 2013 a seguinte resposta de Andy Latimer a uma questão que se lhe foi colocada sobre a possibilidade de Steven Wilson poder vir a trabalhar sobre gravações antigas dos clássicos dos Camel:

"Yes! I don’t see why not. He’s very good. He did the King Crimson stuff and he does his own stuff too. He’s very talented so.. yeah, I wouldn’t mind. I think the problem is that I don’t own almost all the classic albums, then he has to go to Universal and make sure that they would say “yes” to do it. The older stuff has some problems. I don’t mind if he wants to do it. I didn’t know it!" 

Quer isto dizer que Latimer não se opõe mas que na verdade a propriedade dos clássicos dos Camel não é sua (nem dos restantes membros da banda) mas antes da Universal, um gigante da "indústria" musical que agrega em si várias empresas do ramo, incluindo dezenas "labels" (editoras) dedicadas aos mais diversos géneros. O autor separa-se assim da obra que criou, com base em contratos há muito assinados, e que tendo metido pão na mesa se revelam a prazo ruinosos para a própria obra, cuja divulgação e comercialização ficam totalmente na dependência da corporação que a detém.

A propriedade intelectual - com outras formas de propriedade, ou seja, de posse sobre determinado bem, físico ou intelectual - revela-se assim um engano, um logro, na medida em que gerando em muitos a ilusão de posse acaba por se revelar uma realidade política, económica, social, jurídica e cultural que serve apenas às grandes corporações cuja verdadeira vocação - a acumulação, por vias diversas - pouco ou nada se relaciona com criação.

05/08/2016

"Radio edits"

Uma das vantagens de se ser fã a sério dos Porcupine Tree e de Steven Wilson (SW) diz respeito à considerável dimensão da obra editada e disponível. Os álbuns são muitos, e os discos de versões (demos e "radio edits") também. A música do sr. Wilson é um universo e viajar por ela abre novas perspectivas sobre os temas que aborda, os sons que utiliza, as inspirações - evidentes ou não - que revela e, claro está, a postura relativamente aos conceitos de composição, produção, interpretação e promoção que lhes estão subjacentes.

Steven Wilson não é um músico particularmente preocupado com os tops de vendas. Se fosse estaria em perfeitas condições de compor, produzir e interpretar hits e baladas ao pior estilo dos Coldplay. Em todo o caso tem-se revelado de forma a crescente a sua necessidade de ver a música que compõe e as letras que escreve chegarem a mais gente, abrindo novas janelas na sua relação com públicos cada vez mais alargados, nomeadamente através do streaming oficial e das chamadas redes sociais: o facebook e o instagram. [a abertura de um blogue "oficial" do último álbum "Hand.Cannot.Erase" faz parte de um esforço de divulgação da obra mas é, em si mesma, uma componente do próprio disco, na medida em que durante o período anterior ao lançamento do disco foi revelando a história/conceito que inspirou toda a música]

É por isso particularmente intrigante a insistência de SW em versões para rádio (mais curtas e com menos secções instrumentais) de algumas das suas canções mais bonitas. Creio que SW alimenta um desejo genuíno de divulgação da sua música, estando para isso disponível para a simplificar, preservando no entanto as versões finais que inclui nos discos/álbuns principais. SW é a personificação de um notável (e saudável, diria eu) paradoxo, marcado pela convivência de atitudes ambivalentes face às exigências do sucesso comercial.

Eu sou cada vez mais fã. Da música e do comportamento. Farto-me de aprender com um músico que não é apenas um músico também na esfera pública. Para os leitores do blogue não será propriamente uma novidade...

08/01/2016

Collecting space

Não vou repetir o argumentário e por isso chego directo à conclusão final: o sr. Steven Wilson é, para mim, o músico. Por outras palavras, a música que faz sabe-me a perfeição sonora, abre-me uma janela para as paisagens mais belas que a arte pode proporcionar a um ser humano neste mundo.

Este "Collecting space" pertence à lista de faixas suplementares da edição especial do disco "Insurgentes", o primeiro LP a solo de Steven Wilson. É uma faixa sublime, que foi originalmente criada durante a gravação de um disco do projecto Porcupine Tree. Triste, como são todas as faixas criadas por Steven Wilson. Nela chamou-me a atenção o solo que se pode ouvir a partir dos 2 minutos e 30 segundos. Não me restam grandes dúvidas de que se trata da guitarra do sr. Wilson, embora soe a erhu, o violino tradicional chinês [1], instrumento símbolo da música tradicional daquele país. De resto a sonoridade asiática em "Collecting space" é assegurada pela utilização de um koto japonês, tocado no álbum por Michiyo Yagi [2]. Uma faixa do outro mundo, digo eu. Um mistério que não quero resolver.



Notas:
[1] Erhu [Wikipédia].
[2] Michiyo Yagi, Youtube.

05/11/2015

"Routine"

É coisa rara, um casamento tão perfeito entre música e animação quando a música não é feita para o filme. Trabalhar com Steven Wilson é tarefa para poucos mas Jesse Cope [1] teve o mérito de interpretar na perfeição os temas que trabalhou e interpretou na sua linguagem artística própria. A coisa correu tão bem que hoje não consigo ouvir "The raven that refused to sing" sem visualizar de imediato o velho e o corvo, no vídeo oficial da canção; tão pouco consigo separar "Drive Home" da animação de construiu. Canção, história, melodia e filme tornam-se uma só obra. Sem querer, Wilson transformou alguns dos seus temas - perfeitos - num trabalho em conjunto que os engrandece enormemente.

A última colaboração de Jesse Cope com o sr. Wilson resultou nesta obra prima que vos deixo.