A minha memória é um lugar estranho. Como a remexo muito tende a desarrumar-se o que me cria não raras vezes problemas no dia-a-dia. Bem sei que a memória não é um registo de acontecimentos, uma cronologia de factos. Pelo contrário, trata-se de um registo de experiências, de sentimentos e de percepções que podem ser interpretados pelo próprio de forma diversa ao longo do tempo. Nós mudamos, e a nossa memória muda connosco.
Tenho algumas memórias de infância, embora não me lembre de coisas que a maior parte das pessoas recorda com facilidade. Por exemplo: não me lembro dos nomes dos meus amigos da escola primária (com meia-dúzia de excepções) e recordo mal episódios supostamente marcantes. Por outro lado guardo com total clareza a minha visão de alguns acontecimentos ou experiências, sociais ou familiares (sobretudo estes últimos). Assim, é com base em poucas mas muito marcantes memórias que estruturo a minha identidade.