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06/06/2019

State of Love and Trust



Em certo sentido nenhum verdadeiro movimento - e aqui movimento tem duplo sentido, referindo-se como imagem a uma dinâmica e, em sentido literal, a uma modificação da posição física de algo no espaço-tempo - é reproduzível fora do seu contexto. O metal de 2019 relaciona-se com o metal de 1980, tem elementos artísticos, musicais, estéticos e até ideológicos que se intercepção e asseguram alguma continuidade. Mas o metal de 2019 não é o metal de 1980. A mesma conclusão aplica-se a uma série de outras "etiquetas" musicais mais antigas e/ou mais recentes, com a excepção do "grunge", que é um movimento sem definição composto por bandas e projectos musicais que sempre desprezaram a expressão e o seu significado comercial. E na verdade, se praticamente 30 anos depois dos acontecimentos de Seattle é genuinamente impossível atirar para dentro de uma gaveta bandas claramente identificadas com uma definição comum do que foi o "grunge", parece-me ainda mais evidente que o que quer que seja que se passou no início dos anos 90 naquela pedaço de costa oeste dos Estados Unidos da América ficou naquela espaço e naquele tempo, sem continuidade nem continuadores, incluindo por parte daqueles que sobreviveram aos terríveis anos da fama desproporcionada. O "grunge", se de facto existiu, é filho de um tempo verdadeiramente singular e irrepetível, marcado pelo fim da chamada "Guerra Fria", pelo advento do cinismo unipolar e pelos últimos segundos de um mundo sem internet massificada. Felizes daqueles que viveram - e viver não é apenas "experimentar" - com 14 ou 15 anos aquela mensagem híbrida de niilismo-punk em resposta ao triunfalismo bacoco da "fim da história" de Francis Fukuyama. O "grunge" não volta porque o contexto do "grunge" não existe, os miúdos do "grunge" cresceram e o que resta do "grunge" está embalado e disponível em prateleiras semelhantes àquelas que nas livrarias têm a meia-dúzia de títulos de ficção-científica que alguns desenraizados ainda procuram. Douglas Coupland explica num dos últimos romances pré-internet que merece a pena ser lido. Não fiquem à espera do filme, porque na história não idealizada dos jovens adultos dos anos 90 nem o Cameron Crowe vai pegar.

[imagem]

09/09/2016

The Veil

Divulgada ontem, e hoje disponível nas principais plataformas de streaming, The Veil é a canção criada por Peter Gabriel para o filme "Snowden", de Oliver Stone [trailer].

07/09/2016

Propriedade intelectual

Com Pierre-Joseph Proudhon terei muito pouco em comum. Em todo o caso creio que é sua a célebre expressão "a propriedade é um roubo", com a qual estou genericamente de acordo, pese embora considere muito avisadas, justas e certeiras as palavra que a ela dedicou Karl Marx, e que se resumem mais ou menos na seguinte observação: "o 'roubo', enquanto violenta transgressão da propriedade, pressupõe a existência da própria propriedade", legitimando-a.

Seja como for recordei-me das palavras de Proudhon quando pesquisando acerca do disco "Single factor", dos Camel, encontrei numa entrevista de 2013 a seguinte resposta de Andy Latimer a uma questão que se lhe foi colocada sobre a possibilidade de Steven Wilson poder vir a trabalhar sobre gravações antigas dos clássicos dos Camel:

"Yes! I don’t see why not. He’s very good. He did the King Crimson stuff and he does his own stuff too. He’s very talented so.. yeah, I wouldn’t mind. I think the problem is that I don’t own almost all the classic albums, then he has to go to Universal and make sure that they would say “yes” to do it. The older stuff has some problems. I don’t mind if he wants to do it. I didn’t know it!" 

Quer isto dizer que Latimer não se opõe mas que na verdade a propriedade dos clássicos dos Camel não é sua (nem dos restantes membros da banda) mas antes da Universal, um gigante da "indústria" musical que agrega em si várias empresas do ramo, incluindo dezenas "labels" (editoras) dedicadas aos mais diversos géneros. O autor separa-se assim da obra que criou, com base em contratos há muito assinados, e que tendo metido pão na mesa se revelam a prazo ruinosos para a própria obra, cuja divulgação e comercialização ficam totalmente na dependência da corporação que a detém.

A propriedade intelectual - com outras formas de propriedade, ou seja, de posse sobre determinado bem, físico ou intelectual - revela-se assim um engano, um logro, na medida em que gerando em muitos a ilusão de posse acaba por se revelar uma realidade política, económica, social, jurídica e cultural que serve apenas às grandes corporações cuja verdadeira vocação - a acumulação, por vias diversas - pouco ou nada se relaciona com criação.

05/08/2016

"Radio edits"

Uma das vantagens de se ser fã a sério dos Porcupine Tree e de Steven Wilson (SW) diz respeito à considerável dimensão da obra editada e disponível. Os álbuns são muitos, e os discos de versões (demos e "radio edits") também. A música do sr. Wilson é um universo e viajar por ela abre novas perspectivas sobre os temas que aborda, os sons que utiliza, as inspirações - evidentes ou não - que revela e, claro está, a postura relativamente aos conceitos de composição, produção, interpretação e promoção que lhes estão subjacentes.

Steven Wilson não é um músico particularmente preocupado com os tops de vendas. Se fosse estaria em perfeitas condições de compor, produzir e interpretar hits e baladas ao pior estilo dos Coldplay. Em todo o caso tem-se revelado de forma a crescente a sua necessidade de ver a música que compõe e as letras que escreve chegarem a mais gente, abrindo novas janelas na sua relação com públicos cada vez mais alargados, nomeadamente através do streaming oficial e das chamadas redes sociais: o facebook e o instagram. [a abertura de um blogue "oficial" do último álbum "Hand.Cannot.Erase" faz parte de um esforço de divulgação da obra mas é, em si mesma, uma componente do próprio disco, na medida em que durante o período anterior ao lançamento do disco foi revelando a história/conceito que inspirou toda a música]

É por isso particularmente intrigante a insistência de SW em versões para rádio (mais curtas e com menos secções instrumentais) de algumas das suas canções mais bonitas. Creio que SW alimenta um desejo genuíno de divulgação da sua música, estando para isso disponível para a simplificar, preservando no entanto as versões finais que inclui nos discos/álbuns principais. SW é a personificação de um notável (e saudável, diria eu) paradoxo, marcado pela convivência de atitudes ambivalentes face às exigências do sucesso comercial.

Eu sou cada vez mais fã. Da música e do comportamento. Farto-me de aprender com um músico que não é apenas um músico também na esfera pública. Para os leitores do blogue não será propriamente uma novidade...

22/07/2016

Signify [20 anos]

"We invite you, wherever you are – whether you are at home or whatever – 
to kick your shoes off and put your feet up and lean back and 
get yourself a cup of coffee or something and just relax and join us in enjoying 
some very quietened, romantic and relaxed music for a couple of hours.
Live.
Die.
Signify."
BornLiveDie


"Signify", o quarto disco do portfolio dos Porcupine Tree, cumpre em 2016 os seus 20 anos a girar em boas e más aparelhagens, em formato como deve ser mas também em formatos de alta compressão armazenados em telefones móveis.  Em certo sentido, "Signify" é o primeiro disco dos Porcupine Tree já que os anteriores foram na verdade discos solo do senhor Steven Wilson, gravados e apresentados com a sua banda. O que lhe terá custado prescindir do controlo absoluto sobre a mais ínfima parte da composição e produção não sei. Mas imagino.

O disco é uma brutalidade. Cinco em cinco, dez em dez, cem em cem, da primeira à última faixa, "Dark Matter", que não sou capaz de imaginar sem recorrer à ideia que faço daquilo que será a imensa sala subterrânea de Lombrives, nos Pirinéus, conhecida como "a Catedral".

Não sendo propriamente um álbum conceptual, como foram outros do trabalho de Steven Wilson dentro e fora dos Porcupine Tree ("Fear of a blank planet" ou "Hand.Cannot.Erase"), "Signify" é um disco que aborda o tema do efémero ("Dark Matter"), da superficialidade nas relações humanas ("Sever") e da ruptura evidente que já então se admitia poder vir a representar a massificação do uso da internet ("Every home is wired").

Em 2011 apaixonei-me profundamente por este disco. Ouvi-o todos os dias, entre casa e o trabalho, durante uns 6 meses. Posso sem hesitar elevá-lo, no meu panteão musical, à condição de disco da minha vida, e por isso ainda hoje o oiço com a frequência com que devem ser ouvidos os discos que nos falam ao coração. De cada vez que o oiço, sempre em formato que deixaria o senhor Steven Wilson à beira de um ataque de nervos, descubro-lhe novos pormenores, na voz, na linha do baixo, em riffs entre o macabro e o épico. "Signify" torna-me uma pessoa mais feliz.



De resto os anos não lhe pesaram e o "post-prog" de "Signify" é hoje tão brutalmente novo como foi quando em 1996 rasgou o panorama de um neo-prog meio perdido entre a "popização" das suas referências antigas e a emergência de novos estilos "indie" rapidamente catapultada para as posições mais comerciais da indústria das estrelas precárias.

Aconselho-o, naturalmente.


Título Composição Duração
1. "Bornlivedie"   Wilson/Barbieri 1:41
2. "Signify"   Wilson 3:26
3. "Sleep of No Dreaming"   Wilson 5:24
4. "Pagan"   Wilson 1:34
5. "Waiting (Phase One)"   Wilson 4:24
6. "Waiting (Phase Two)"   Wilson 6:15
7. "Sever"   Wilson 5:30
8. "Idiot Prayer"   Wilson/Edwin 7:37
9. "Every Home Is Wired"   Wilson 5:08
10. "Intermediate Jesus"   Wilson/Barbieri/Edwin/Maitland 7:29
11. "Light Mass Prayers"   Maitland 4:28
12. "Dark Matter"   Wilson 8:57
Duração total:
61:56

02/07/2016

Etiquetas

"Hear the sound of music
Drifting in the aisles
Elevator Prozac
Stretching on for miles
The music of the future
Will not entertain
It's only meant to repress
And neutralise your brain
Soul gets squeezed out
Edges get blunt
...
Now the sound of music
Comes in silver pills
Engineered to suit you
Building cheaper thrills
The music of rebellion
Makes you wanna rage
But it's made by millionaires
Who are nearly twice your age" [*]


A música pode ser organizada por etiquetas, como de resto muitas outras coisas na vida. A taxonomia da arte sonora é uma das ciências menos ocultas a que se pode dedicar o comum dos mortais. E por isso é usual ver, ouvir e ler o tipo de arrumação de gostos e tendências que, parecendo definir tudo, na verdade não quer dizer nada.

A "cena indie", que há 20 anos era de facto "indie" ["independente" dos grandes predadores da "indústria"], hoje é do mais superficial, normalizado e radiofónico que se pode ouvir por aí. Quase nada na etiqueta "indie" é hoje "indie"pendente. As bandas "indie" são produtos de consumo rápido, cabeças de cartaz dos festivais da moda, ligeiras variações de um modelo original mimetizado nas vozes, guitarras e, não menos importante, ritmo das baterias e baixos.

A história das etiquetas tornou-se particularmente evidente para mim depois de "ouver" uma sucessão de entrevistas dos senhor Steven Wilson, nas quais procura definir "progressivo" não como um som datado e facilmente identificável em melodias sinfónicas intermináveis, divididas em secções temáticas e invadidas pelos sons quase-metafísicos de mellotrons e guitarras afinadasmas antes como aquilo que progride. Prog é o sempre-novo que não se contenta com a cópia do já feito.

É precisamente isso que me atrai num conjunto de bandas que, numa atitude genuinamente "indie", mandam a etiqueta "indie" para as cucuias, e procuram avançar para lá da estagnação de criatividade-zero associada às cópias (pouco) piratas dos sons de Manchester. No fundo interessa-me muito mais a essência do som do que a roupagem do estilo.


[*]

16/06/2016

"To find poetry and beauty in sadness is a wonderful thing I think."



"Amongst the hundreds of songs I have written over the years, 'Routine' has a very special place. It's a deeply sad story of loss and denial, but at its conclusion the clouds lift and there is acceptance at least. Having worked with her on 3 previous videos, I knew as soon as I wrote it that it was perfect for Jess to do something amazing with. Even then nothing prepared me for the organic beauty and power of the film she made, a painstaking labour of love that took her months to produce. When we play the song live I look out into the audience and see people swept away with emotion at the combination of music and animation. To find poetry and beauty in sadness is a wonderful thing I think" - Steven Wilson 

[obrigado, Nêspera!] 

15/06/2016

I'm a collector, I collect anything I find / I never throw anything away that's mine

"O nosso dia-a-dia consiste de padrões de conduta que nos mantêm intactos. O meu lugar numa sociedade civilizada, o meu lugar enquanto cidadão, deriva de um arranjo de acordos e rotinas. O meu dia-a-dia encontra-se fortemente padrozinado: acordo, mijo, como, (...). Tenho uma casa, um abrigo. Deixo-a de manhã e regresso ao fim da tarde: e ali está o meu abrigo, um dado material que não se limita a proporcionar-me tranquilidade; o facto de ser um espaço familiar reforça o meu eu. (...) Sou um coleccionador, um coleccionador básico e não um coleccionador refinado: as minhas fotografias, as minhas roupas, os meus móveis (dispostos de uma determinado maneira), a minha biblioteca (organizada de uma determinada maneira), os meus amigos e os meus entes queridos (organizados de uma determinada maneira), a ideia que tenho da minha vida, de uma vida que se foi tornando amena e confortável devido a hábitos regulares, os meus jornais, o meu trabalho, a ideia que tenho de mim. Rodeio-me de coisas, apoio-me em adereços, encho o meu espaço de coisas: personalizo o meu espaço; torno-o íntimo; torno-o meu."

"Entre os vândalos: o futebol e a violência", de Bill Buford

14/06/2016

blackfield V

o Blackfield V está a caminho. o Steven Wilson V está a caminho.
há esperança.