1. Hoje na TSF ouvi um jornalista referir-se repetidamente ao resultado do referendo como algo que está a chocar a Europa e o Mundo. Na mesma frase duas ideias questionáveis e muito pouco objectivas: em primeiro lugar a ideia de que existe "na Europa e no Mundo" uma unanimidade em torno da avaliação sobre o resultado do referendo; em segundo lugar a ideia de que essa unanimidade se refere a uma avaliação negativa. Foi assim antes do referendo e será assim depois dele: dramatização e análise selectiva da informação;
2. Sou comunista há 20 anos. Anti-fascista, anti-racista convicto. Defendo para Portugal uma política de recepção de imigrantes e refugiados muito mais aberta do que aquela que hoje existe. Combato por exemplo a vergonhosa expulsão de imigrantes e refugiados que se encontra em curso, ao abrigo do triste acordo EU-Turquia. Não admito que me confundam, nem que confundam aqueles que comigo partilham a ideia de que a UE e o Euro são trágicos instrumentos de submissão das pessoas comuns aos interesses dos mercados financeiros e afins, com nazi e fascistas da estirpe da senhora Le Pen ou do senhor Farage.
3. Não compreender que existem várias perspectivas sobre a necessidade de colocar um ponto final na submissão dos povos dos países membros da EU ao directório das grandes potências (das quais aliás a GB tem feito parte...), não compreender que um comunista e um fascista podem apelar ao mesmo sentido de voto com base em premissas não apenas diferentes mas profundamente conflituantes (o que de resto se passou também no campo do "sim" no recente referendo) é na verdade compreender muito pouco sobre o que se passou esta 5ª feira no Reino Unido...
4. A democracia não é apenas boa quando o resultado nos interessa. Eu votei em todas as eleições realizadas em Portugal desde os meus 18 anos e tirando o Referendo da IVG nunca “ganhei” em nenhuma delas. Estaria tramado se não tivesse a capacidade de encaixar resultados que não desejo. Já a UE, o seu directório de burocratas não eleitos, os governos que lhes dão suporte e o próprio PE parecem muito pouco disponíveis para ouvir os povos, razão pela qual o resultado de ontem era mais ou menos evidente faz muito tempo. Isso explica também as pressões sobre vários países para que não se realizem referendos semelhantes, ou a inacreditável estratégia levada a cabo para trucidar o resultado de referendos do passado.
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24/06/2016
22/06/2016
25/05/2016
O momento "maggie" da ministra do mar
Oiço dizer-se que a greve dos estivadores tem que ter um fim independentemente destes terem razões para a fazer. Presumo que quem o afirma acredite que os patrões do sector têm, inversamente, o direito de forçar os trabalhadores a abandonar a greve (às horas extraordinárias, note-se bem...) independentemente de não terem razão nenhuma. A coisa fica mais grave quando a ministra do mar aparece nas televisões a defender um despedimento colectivo que visa punir uma greve e criar as condições para que novas contratações de estivadores façam descer os custos - salariais e não só - do trabalho portuário. Ao ouvir a ministra não pude deixar de recordar a argumentação da direita inglesa, quando nos anos 80 destruiu por completo o sector do carvão no norte de Inglaterra, condenando comunidades inteiras a vidas miseráveis com consequências duradouras. Também a senhora Thatcher usava o argumento do interesse público para fazer vergar muitos milhares de mineiros e, com eles, o movimento sindical britânico. O momento "maggie" da ministra do mar não pode ficar politicamente impune. Até porque a retórica mediática em torno dos prejuízos provocados pela greve é treta que um governo que pretende manter-se em funções com o apoio "da esquerda" não pode deixar de desmistificar e combater. De que lado está o governo?
24/05/2016
O paradoxo da luta política
"Não se revoltarão enquanto não se tornarem conscientes, e só se tornarão conscientes quando se revoltarem"
em "1984", G.Orwell
[foto]
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