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25/06/2019

Tubarões Voadores



Se um miúdo fascinado por futebol e pelas estrelas do meio um dia tiver a oportunidade de se encontrar com o Cristiano Ronaldo, de lhe apertar a mão e de trocar com o ídolo dois dedos de conversa estou certo de que, trinta anos depois, se vai lembrar do encontro e de pelo menos algumas das circunstâncias em que o mesmo ocorreu. Eu nunca fui fascinado por futebol, embora tenha sido desde sempre fascinado pelo futebol do Belenenses. O meu fascínio de infância é azul e feito de água. Chama-se "mar". Não se trata daquele fascínio por muitos confessado e descrito sobre um mar companheiro e vizinho da sua vida quotidiana. O "meu" mar é o das grandes extensões marinhas para lá da linha de costa, é a casa das mais incríveis espécies não humanas que existem neste planeta. Por isso sempre fui um enorme admirador dos grandes divulgadores da ciência marinha e da ecologia do mar. Gente como o incontornável Jacques-Yves Cousteau, a quem dediquei um trabalho universitário de Etologia sobre a relação simbiótica do peixe-palhaço e da anémona do mar, ou como Stan Waterman, passando por John Ford [o estudioso das Orcas da "British Columbia"]. Acontece porém que quando ainda era miúdo, quando o sonho de me poder dedicar ao mar sem fim ainda não tinha à sua frente uma parede de betão, tive a oportunidade de conhecer em pessoa "o meu Cristiano Ronaldo". Naquela altura um grupo de gente ligada ao estudo das espécies marinhas fundou uma coisa chamada APECE, uma associação destinada a estudar elasmobrânquios, ou seja, tubarões e raias. Eu li sobre a APECE em qualquer parte - terá sido no "Notícias do Mar"? - e naquele tempo creio que "pré-internet" lá cheguei à fala com um biólogo marinho que andava de facto a fazer aquilo que eu desejava fazer depois de terminar os meus estudos: o João Correia. A APECE realizaria pouco tempo depois a sua primeira ou segunda Assembleia Geral e eu, que morava a dez minutos a pé do IPIMAR, lá fui não apenas inscrever-me [eventualmente fui, naquela circunstância, o associado mais jovem da APECE] mas participar na histórica AG que institucionalizou [se bem me lembro] uma associação dedicada a tubarões aqui mesmo em Portugal. Não me lembro de ter estado com o João Correia noutras circunstâncias embora nunca o tenha perdido de vista durante muito tempo. Muitos anos depois daquela tarde no IPIMAR conversei com ele pelo telefone e tive a oportunidade de confirmar a minha impressão acerca da sua evidente afabilidade, humor e sentido prático. O João é, em certo sentido, aquilo que não sou e que gostaria de ter sido, ou de vir a ser. A vida afastou-me do mar e parece-me evidente que nesta fase já não há grande coisa a fazer, não sei. Em todo o caso ler "Tubarões Voadores", o livro autobiográfico do João Correia lançado creio que durante o presente ano de 2019, faz-me sentir um pouco mais próximo da água salgada, dos bichos com quem cheguei a pensar que me iria "casar", dos camarotes apertados dos navios em que nunca viajei e da vida louca que de facto não é para todos e que o João soube - e sabe - viver e contar. Eu tenho alguma inveja do João, não há volta a dar. Mas ao mesmo tempo sinto-me profundamente grato por saber que a vida - e a sua capacidade, resiliência e coragem - nos ter "dado" um português como este.


06/06/2019

State of Love and Trust



Em certo sentido nenhum verdadeiro movimento - e aqui movimento tem duplo sentido, referindo-se como imagem a uma dinâmica e, em sentido literal, a uma modificação da posição física de algo no espaço-tempo - é reproduzível fora do seu contexto. O metal de 2019 relaciona-se com o metal de 1980, tem elementos artísticos, musicais, estéticos e até ideológicos que se intercepção e asseguram alguma continuidade. Mas o metal de 2019 não é o metal de 1980. A mesma conclusão aplica-se a uma série de outras "etiquetas" musicais mais antigas e/ou mais recentes, com a excepção do "grunge", que é um movimento sem definição composto por bandas e projectos musicais que sempre desprezaram a expressão e o seu significado comercial. E na verdade, se praticamente 30 anos depois dos acontecimentos de Seattle é genuinamente impossível atirar para dentro de uma gaveta bandas claramente identificadas com uma definição comum do que foi o "grunge", parece-me ainda mais evidente que o que quer que seja que se passou no início dos anos 90 naquela pedaço de costa oeste dos Estados Unidos da América ficou naquela espaço e naquele tempo, sem continuidade nem continuadores, incluindo por parte daqueles que sobreviveram aos terríveis anos da fama desproporcionada. O "grunge", se de facto existiu, é filho de um tempo verdadeiramente singular e irrepetível, marcado pelo fim da chamada "Guerra Fria", pelo advento do cinismo unipolar e pelos últimos segundos de um mundo sem internet massificada. Felizes daqueles que viveram - e viver não é apenas "experimentar" - com 14 ou 15 anos aquela mensagem híbrida de niilismo-punk em resposta ao triunfalismo bacoco da "fim da história" de Francis Fukuyama. O "grunge" não volta porque o contexto do "grunge" não existe, os miúdos do "grunge" cresceram e o que resta do "grunge" está embalado e disponível em prateleiras semelhantes àquelas que nas livrarias têm a meia-dúzia de títulos de ficção-científica que alguns desenraizados ainda procuram. Douglas Coupland explica num dos últimos romances pré-internet que merece a pena ser lido. Não fiquem à espera do filme, porque na história não idealizada dos jovens adultos dos anos 90 nem o Cameron Crowe vai pegar.

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31/05/2019

Gary Snyder



[Ecologia profunda, ecologia que vem de dentro, da íntima relação com o espaço, com a realidade material e com a dimensão imaterial que é parte da consciência de cada lugar, ecossistema, bioregião]

24/05/2019

Árvores apressadas

Não sou fã da correlação de factores mais ou menos aleatórios na tentativa de comprovar relações de causalidade que sirvam a uma determinada narrativa sobre um assunto. Em todo o caso, quando um tema nos interessa e quando sobre ele andamos a fazer leituras cruzadas é bem possível que num espaço relativamente curto de tempo nos cruzemos com textos que, escritos por pessoas, em lugares e em tempos absolutamente distintos, se relacionem -directa ou indirectamente - de forma mais ou menos evidente. O "El Pais" publicava no passado dia 20 um pequeno texto sobre um estudo que sugere que em algumas partes do mundo, e devido à subida das temperaturas, as árvores estão a crescer mais rápido e a morrer mais depressa, o que entre outras implicações influencia a capacidade das massas florestais para reterem [para "armazenarem"] carbono. O estudo, relativo às espécies Pinus unicinata e Lariz sibirica, sugere igualmente que plantar árvores é uma boa prática, mas que melhor será gerir correctamente as massas florestais já existentes, evitando a desflorestação. Poucas horas depois de ler esta peça sobre árvores apressadas, árvores demasiado ansiosas por crescer e morrer, cruzei-me com um parágrafo de "A prática da natureza selvagem", de Gary Snider, que se refere à atenção e ao tempo [dois elementos da vida natural em acelerada extinção], e que não consegui deixar de relacionar com a imagem de pinheiros negros crescendo mais depressa para morrerem ainda jovens: "com tempo e atenção, voltaremos a ser capazes de os sentir e descobrir de novo" [refere-se aos lugares sagrados dos povos indígenas e "primitivos"]. E aqui o ponto chave parece ser o tempo imposto pela vida moderna - e pelas alterações climáticas - que vai entrando em contradição cada vez mais evidente com variáveis aparentemente imutáveis da vida para lá de nós, humanos.

16/05/2019

Paradoxo*



[em "Odeio a internet", de Jarett Kobek] * "Blogger, uma palavra criada pela Pyra Labs, é um serviço do Google [...]"

10/05/2019

Transumanismo

Na primeira página de "Last child in the Woods" [Richard Louv] o autor escreve que a natureza, ao contrário da televisão, não rouba tempo, amplifica-o. Li a referência à televisão e procurei a ficha editorial do livro, confirmando que nunca poderia ser uma obra com menos de 10 anos; "Last child in the wood" é de 2005, já bem dentro da era da internet mas ainda fora do tempo dos smartphones e da internet 4G. Em 2005 muitos poderiam já antever mas quase ninguém teria visto ainda crianças pequenas - e por vezes muito pequenas - agarradas a ecrãs de dimensões inferiores a um palmo e fazendo a televisão parecer o mais inofensivo dos "pré-gadget" arcaícos. Não me interpretem mal; eu sou um neoludita que despreza a televisão [o objecto e a programação a que dá acesso] mas não me lembro de alguma vez ter olhado para um televisor como extensão do corpo - ou da consciência - de alguém. Sim, a televisão roubou e rouba tempo na medida em que milhões e milhões de pessoas continuam a despender boa parte do seu pouco "tempo-livre" olhando para ela; sim, a programação televisiva [em particular a informação, transformada em entretenimento-informativo] continua a influenciar de forma decisiva a percepção de uma parte relevante das comunidades sobre temas chave do debate público [desde logo seleccionando o que é ou não passível de debate, e em que termos...]. Em todo o caso creio que serão raras as pessoas que confundem a televisão objecto - e a televisão-conteúdo - com o seu próprio "eu". Esta suposição muda radicalmente de sentido se em vez da televisão considerarmos os nossos "smartphones". Em 2016, num artigo publicado no The Guardian, Michael Lynch reflectiu sobre o telefone como extensão da identidade dos seus utilizadores. Em certo sentido, esta confusão entre o nosso eu-físico e esse apêndice tecnológico com usamos não menos de 18 horas por dia é já o início de um transumanismo efectivo ["whether or not we actually are our phones, we increasingly identify with them. We increasingly see them and the digital life we lead on them as partly constituting who we psychologically are"]. O assunto parece-me suficientemente sério para não ser ignorado. De resto, é precisamente à luz desta constatação mais ou menos evidente que percebemos que não existe de facto grande relação entre a relação entre a forma como nos relacionávamos [e relacionamos] com a televisão e, por outro lado, a forma como vivemos - intensa e sofregamente - o smartphone como parte de nós. A crescente percepção desta relação doentia entre o ser humano e o seu telefone tem motivado um movimento involutivo no plano meramente tecnológico, e que consiste na opção por dispositivos que regressam às funções básicas do antigo telefone móvel - fazer e receber chamadas, enviar e receber "sms". Não sei se este "movimento" terá a expressão suficiente para se transformar em moda e, por essa via, em "tendência de consumo". O futuro o dirá.

Last child in the woods



[em "Last child in the woods", de Richard Louv]

26/04/2019

A prática da vida selvagem [i]*

Dou por mim com um carrinho de compras digital cheio de livros [que não existem fisicamente no carrinho, ele mesmo uma inexistência real] que racionalizam e explicam o desejo que já existe em muitos - sobretudo naqueles que viveram o mundo pré-Internet - de ter o seu cérebro desprogramado de volta. A oferta é farta e, naturalmente, inclui um pouco de tudo: ciência, auto-ajuda, testemunhos de desintoxicação, receitas para a libertação, manifestos e panfletos propagandistas. Não creio que nenhum dos títulos venha a chegar à minha caixa do correio [real]. Já não está em causa se existe um problema, de que sou parte, de verdadeira dependência da internet. Quase todos sofremos dela, uns mais, outros menos. Acontece que a generalização dessa dependência, que é um problema real, na medida em que condiciona e modifica - poucas vezes para melhor... - as nossas vidas, passou a ser a norma e não, como acontece com a dependência de drogas ilegais ou do álcool, um comportamento minoritário e desviante. Esta normalização do absurdo que é a dependência "digital" transformou a autonomia e a independência face à digitalização da vida em forma de vida estranha e objectivamente ostracizante. A coisa é tão evidente que não são precisos livros, TED Talks e expertos na televisão alertando para os malefícios da crescente digitalização da vida; quem não os sente? Os cérebros pré-internet rareiam. O meu foi-se e eu sinto a falta do tempo em que o telefone portátil - o chamado "telemóvel" - só fazia chamadas e enviava sms. Creio que regressarei a esse registo logo que o meu smartphone entregue a alma ao criador. Até lá a tendência será para a desinstalação. A questão todavia mantém-se: será esse o caminho para a recuperação da minha autonomia?


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* "A prática da vida selvagem" é o título de uma obra, colecção de textos, de Gary Snyder, poeta e ensaísta norte-americano. O livro encontra-se traduzido para português e disponível nas livrarias, sendo uma edição da Antígona.

17/04/2019

O mistério das Catedrais

Creio que fui a Paris duas vezes, mas não tenho a certeza. Uma pelo menos fui, e nessa primeira - que se calhar foi a única - viajei de comboio até Chartres, muito provavelmente o lugar mais esmagador que visitei fora de Portugal, talvez a par de Compostela e do Vaticano. Eu, que nem baptizado sou, vejam bem. Em Paris visitei a Notre-Dame, claro está, e de lá passei ao Quartier Latin, onde quase à vista da Catedral existe uma outra igrejinha gótica erigida em homenagem a Severin de Paris, um homem que de acordo com a lenda ali se havia dedicado à oração e à contemplação das coisas do mundo dos outros e do seu mundo também. Foi um tempo de grande aplicação no estudo dos aspectos simbólicos das pedras falantes, anos saltitando de Igreja em Igreja, fotografando, lendo, contemplando e procurando interpretar o que para mim foi quase sempre "chinês". Em Notre-Dame senti-me todavia em casa. E em Saint-Severin, claro. E depois disso na Santa Maria Maggiore, na cidade eterna, homónima do meu lugar preferido na cidade de Lisboa, Santa Maria Maior, que é o outro nome da Sé Patriarcal da capital portuguesa. Quando fui a Notre-Dame, em visita turística arrumado em dia de descanso durante uma deslocação em trabalho, trazia na ponta da língua os textos de Fulcanelli - o alquimista francês de identidade desconhecida - escritos para "O mistério das Catedrais". E se a memória não me falha, Fulcanelli apresenta nessa sua obra magna a imagem colorida de uma Notre-Dame cheia de pinturas murais entretanto desaparecidas. Lembro-me pois de, em frente ao pórtico principal da Catedral, tentar imaginá-la com menos meio século, esforço inglório que todavia não dei por mal empregue. Na Île de la Cité deixei duas pedrinhas que trazia no bolso, e que havia recolhido dias antes no Parque da Pena, no coração da Serra de Sintra. Outra ainda deixei-a num dos pórticos laterais de Chartres, bem escondida e protegida, para ali ficar tanto tempo quanto possível. O mistério das Catedrais dava-me que pensar, horas e horas de dias e dias a fio, nesse tempo. Nunca pensei que voltasse a Fulcanelli pela mais triste das razões, no que à "sua" catedral diz respeito.



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16/04/2019

Bill e a curvatura da Terra



Às vezes penso que será mérito do escritor (da escritora), outras vezes acho que é maldição minha. Acontece-me, com assinalável frequência, abrir o livro na página em que me encontro, ler meia-dúzia de parágrafos e encalhar num deles, sem conseguir prosseguir, saltar para o próximo período e continuar história fora, como âncoras que forçam paragens e obrigam a uma reflexão um pouco mais profunda sobre as palavras lidas. Destaco três livrinhos que me demoraram muitíssimo mais tempo do que justificava o seu tamanho: "O ano da morte de Ricardo Reis", de José Saramago; "O leitor", de Bernhard Schlink; e "Stoner", de Jonh Williams. Este último, lido já durante 2019, a conquistar o estatuto de leitura preferida nos 41 anos de vida que vou levando. E quase todos os livros de Afonso Cruz, naturalmente. O fenómeno tem-se repetido à medida que avanço em "A coisa - Livro I", de Stephen King, e esta manhã - dez minutos a pé entre o estacionamento e o escritório, livro em frente aos olhos e fé na divina providência para me escapar de buracos, cacos e merda que abundam na calçada portuguesa - encalhei no momento em que William "Bill" Denbrough, viajando de avião entre a Europa e o seu Maine natal, observa a curvatura da terra a partir o seu lugar no avião. Li o parágrafo e parei; voltei a lê-lo e não tive vontade de prosseguir; à terceira fechei o livro e conclui que aquele ponto final seria muito provavelmente um sinal com função, força e significado superior ao convencionado. Não sei se os estudiosos da escrita têm nome para parágrafos assim; para momentos da narrativa que, apesar de serem apenas parte desta, são ao mesmo tempo toda a narrativa condensada em cento e cinquenta caracteres.

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02/04/2019

Pensamentos nocturnos

O capítulo 7 do romance "The Shining" [1977], do autor norte-americano Stephen King, chama-se "Pensamentos nocturnos" e começa com Wendy deitada na sua cama, sentindo ainda o sémen de Jack a escorrer-lhe pelas coxas, enquanto se lembra de um verso de Billie Hollyday que canta assim: "Lovin' you baby, is just like rollin' off a log, But if I can't be your woman, I sure ain't gonna be your dog.". O capítulo é basicamente uma revisitação do passado de Wendy e Jack, a partir de um momento de grandes decisões relativas à sua vida em comum; um exercício de visualização de memórias - e de formas de elaboração das mesmas - que ajuda Wendy a tomar a decisão de acompanhar Jack no famoso inverno no Hotel Overlook, nas inacessíveis montanhas do Colorado. Meia dúzia de páginas que começam e terminam com referência explícita ao sémen de Jack e ao estado de aparente letargia de Wendy, que sonha acordada. Já li muitas páginas de ficção, já li textos que trabalham com mestria o delicado assunto da relação sexual [esse incompreensível tabu pós-moderno], mas nunca tinha lido nenhum que o fizesse com a crua e delicada sensibilidade de Stephen King em "The Shining". Poucos autores nesta vida me prendem a um texto como o senhor King. "The Shining" está a ser na verdade uma leitura absolutamente singular.


02/03/2019

A vida de Samara no grande ecrã

Há momentos em que uma obra de arte deixa de ser "apenas" arte e passa à categoria de produto de consumo. Nos casos de maior sucesso comercial, a obra torna-se num género de marca e a marca pode dar origem a licenças de utilização da ideia original, sob a forma de "franchise".

O "franchise" é uma invenção do mercado para fazer render o peixe. No fundo todos parecem ganhar com esta extensão da ideia original a cópias de menor valor. O criador ganha ao vender direitos. O franchisado ganha ao utilizar uma ideia/marca de sucesso que não criou. E o consumidor prolonga - multiplica - a hipótese de continuar a desfrutar do conceito original por via de derivações mais ou menos parecidas da ideia que o atraiu e fidelizou num primeiro momento. Só que nem sempre é assim.

Tomemos como exemplo a saga "The ring", série de filmes baseados na ideia original do romancista japonês Koji Suzuki. "The Ring", o primeiro filme da série norte-americana, baseado em "O aviso", fez justiça ao livro. Daí para a frente a coisa foi caindo e o último filme ["Rings"] é confrangedor na sua superficialidade, assumindo uma ambição muito mais próxima de uma saga de fantasia dirigida a adolescentes à procura de sustos.

Koji Suzuki enriqueceu com os filmes, mas a sua obra foi envolvida por um cenário cada vez menos verosímil e cada vez mais risível, com "Rings" a constituir-se como um apelo desesperado a um ponto final na vida cinematográfica de Samara Morgan. Dito isto, é bem possível que "Rings 2" venha a caminho, não sei. Espero sinceramente que não.

09/09/2016

Sobre o "Manifesto do Unabomber", intitulado "O futuro da sociedade industrial" [parte 2]

A releitura de "O futuro da sociedade industrial", documento mais conhecido como o "Manifesto do Unabomber", constituiu para mim uma profunda desilusão. Não sendo adepto do tipo de acção levada a cabo por Theodore Kaczynski julgava por outro lado poder vir a encontrar no seu manifesto uma abordagem científica-filosófica profunda sobre o tema da tecnologia e do seu impacto na vida dos Homens e das comunidades humanas. Vários anos depois da primeira leitura do documento encontrei no "Manifesto" formulações generalistas, generalizações desprovidas de sentido, conclusões empíricas sem fundamentação e, por várias vezes, a confissão por parte do próprio autor de que tal ou tal ideia são na verdade simplificações grosseiras de uma realidade bem mais complexa do que a visão esquemática que "O futuro da sociedade industrial" acaba por utilizar.

Em boa verdade "O futuro da sociedade industrial" não é um documento sobre tecnologia. A questão fundamental, que o autor efectivamente relaciona de forma directa à tecnologia e à civilização tecnológica-industrial, é a da Liberdade individual e a ligação desta com o chamado "processo de aquisição de poder".

No seu manifesto, Kaczynski apresenta-nos a sua visão de uma liberdade amputada das suas mais relevantes e fundamentais características, com destaque para a autonomia, profundamente afectada pela tecnologia e por uma civilização industrial que transforma seres humanos em autómatos "socializados" (domesticados e rendidos às suas convenções essenciais). O autor refere, nalguns casos com desconcertante acerto e perspicácia, a forma como a tecnologia agride a relação do homem com a natureza, com os espaços, com os outros seres humanos e, principalmente, consigo mesmo.

Para Kaczynskia tecnologia não é neutra nem reformável. Em "O futuro da sociedade industrial" é aliás abordado o tema das reformas e as dificuldades - não raras vezes irresolúveis - ligadas ao gradualismo reformista. Este será, temo bem, a parte mais interessante do livro.

De resto não creio que o autor apresente argumentos originais nem de peso suficiente para justificar a sua ânsia pela publicação do seu "Manifesto". A obra é relevante no âmbito da história de uma certa linhagem particular de ludismo. Mas não fosse dar-se o caso de ter sido o seu autor um dos mais procurados assassinos das últimas duas décadas do século XX, nos Estados Unidos da América, "O futuro da sociedade industrial" não passaria de mais um longo artigo escrito por um outro universitário radicalizado, a passar ao lado da esmagadora maioria dos seres humanos à superfície do planeta.

08/09/2016

Truman Show, ou o conforto cognitivo que se alapou à "civilização" que temos.

É curioso que, sendo eu profundamente interessado por todo o fundo psicológico e filosófico associado ao "Truman Show", nunca lhe tenha dedicado neste blogue a atenção devida. Como o tempo nesta fase é um bem escasso no meu dia-a-dia, aproveito este belíssimo post do Daniel Carrapa (no muito aconselhado "A barriga de um arquitecto"), cuja ligação faz parte da lista de blogues e afins disponível nesta tasca) para aconselhar um filme e uma reflexão que fez luz sobre uma realidade pouco clara no momento da sua estreia. "Truman Show" foi uma candeia demasiado à frente, num tempo em que dois, três anos parecem uma eternidade.

Aos mais interessados deixo uma dica adicional: a leitura do conto "What's It Like Out There?", de Edmond Hamilton, publicado na colectânea "Mensagens do futuro", organizada por Isaac Asimov, e publicada em português no âmbito da colecção Argonauta (n.º320).

01/09/2016

Sobre o "Manifesto do Unabomber", intitulado "O futuro da sociedade industrial" [parte 1]

A releitura do "Manifesto do Unabomber" tem-se revelado muito proveitosa relativamente o estudo que venho realizando sobre as várias perspectivas e facções (não raras vezes fortemente sectárias) do movimento ludita e neoludita moderno.

O texto, que conheceu em meados dos anos 90 enorme projecção e debate - sobretudo e compreensivelmente nos Estados Unidos da América - caiu no esquecimento e poucos serão aqueles que, tendo atingido a idade adulto após a detenção de Theodore John "Ted" Kaczynski, em 1996, saberão quem foi, o que fez e aquilo que escreveu um dos mais conhecidos opositores da sociedade industrial actual. Curiosamente, parte das teses de Theodore Kaczynski são hoje mais actuais e pertinentes do que era quando conheceram divulgação pública.

A divulgação do Manifesto

A primeira acção violenta do homem que viria a ficar conhecido como "Unabomber" teve lugar em 1978, o ano do meu nascimento, e teve como alvo o professor Buckley Crist, da Northwestern University. A bomba destinada a Crist acabou por rebentar quando um polícia a observava, causando-lhe ferimentos ligeiros.

A acção de "Ted" Kaczynski assumiria então, daí em diante, uma crescente radicalização, e uma maior procura de eficácia e impacto. Quando em 1996 foi finalmente capturado, após quase 20 anos de vida clandestina, o "Unabomber" havia já provocado 3 vítimas mortais e vários feridos.


Theodore Kaczynski em 1967, quando ensinava matemática em Berkeley.
 
É relativamente difícil compreender as razões objectivas que  motivaram Kaczynski para a via que escolheu para a afirmação do seu ideário. As suas vítimas são de uma forma geral gente mais ou menos insignificante dentro da hierarquia do poder político, económico, financeiro e industrial dos Estados Unidos (talvez com a excepção de Percy Wood, presidente da American Airlines, ferido em Junho de 1980), pelo que para além da dimensão de terror associada à arbitrariedade da escolha dos alvos não seria expectável que a acção violenta de Kaczynski alcançasse outros resultados que não fossem uma vida de isolamento e fuga constante à perseguição policial.

Por outro lado parece relativamente claro que o objectivo central da ameaça violenta do "Unabomber" passou a ser, em determinado momento, a reivindicação de atenção mediática para o seu pensamento sobre o complexo industrial e respectivos efeitos na vida das comunidades humanas. A publicação do seu "Manifesto", em 1995, resulta precisamente do compromisso que assumiu com jornais de grande tiragem nos EUA, segundo o qual a publicação integral de "O futuro da sociedade industrial" significaria o fim das suas acções contra violentas contra indivíduos cuja acção associava à progressão da ameaça tecnológico-industrial [mensagem enviada no início de 1995 ao The New York Times: "This is a message from FC…we are getting tired of making bombs. It’s no fun having to spend all your evenings and weekends preparing dangerous mixtures, filing trigger mechanisms out of scraps of metal or searching the sierras for a place isolated enough to test a bomb. So we offer a bargain."].

A última vítima (que neste caso foi mortal) das suas acções foi Gilbert Brent Murray, lobbista do sector madeireiro, assassinado em Abril de 1995 em Sacramento, Califórnia. A 19 de Setembro do mesmo ano, o The New York Times e o The Washington Post publicam finalmente o texto de Theodore Kaczynski, alcançando nesse dia recordes de vendas. O Unabomber via finalmente a expressão sistematizada do seu pensamento ganhar divulgação universal; simultaneamente, daria o passo decisivo para a sua detenção, já que ao ler "O futuro da sociedade industrial", o seu irmão David associaria o tipo de escrita e as temáticas nele contidas a outros escritos anteriores de Kaczynski. David seria o elemento chave para a identificação de "Ted" Kaczynski como o "Unabomber", bem como para a sua posterior detenção na zona de Lincoln, Montana.


Cabana do "Unabomber", perto de Lincoln, Montana.

A captura de "Ted" Kaczynski permitiu à polícia confirmar que o autor dos atentados assinados pelo FC ["Freedom Club"] era na verdade um único homem.

29/08/2016

Affluenza, o livro de auto-ajuda que recusa ser de auto-ajuda.

Em "Affluenza" o autor Oliver James pinta-nos um quadro arrepiante da relação entre o capitalismo (o "capitalismo egoísta", como lhe chama), o consumo compulsivo e diferentes formas de perturbação e doença mental, com destaque para a depressão clínica.


O livro divide-se em duas partes fundamentais: uma primeira que procura caracterizar a situação da "Affluenza" nos países economicamente mais pujantes e uma segunda na qual o autor sugere-se "vacinas" (respostas) para a epidemia.

Não posso afirmar que ler "Affluenza" tenha sido uma perda de tempo (porque na verdade não foi), mas creio que existem na obra três problemas fundamentais, que não pude ignorar:

1. O autor faz o retrato da "Affluenza" através do exemplo de seres humanos que vivem num contexto económico e social atípico, caracterizado por conforto económico muito acima da média dos seus países; ora, a fundamentação do problema à luz da experiência de vida dos ricos ou dos super-ricos pode criar no leitor a impressão de que a relação entre capitalismo e doença mental, consumo e esvaziamento da vida, são elementos específicos da condição das pessoas do topo da pirâmide económica das sociedades. Como bem sabemos, não é assim.

2. O livro, que aborda o interessante conceito da "Personagem de Marketing", de Erich Fromm, ainda deixa de fora da reflexão que propõe o espectacular - e triste - efeito das chamadas redes sociais na criação de auto-imagens e de imagens promovidas pelos próprios junto dos outros que são na verdade desfasadas face à realidade das vidas fora da "rede".

3. Sendo um livro que parece recusar a sua pertença ao domínio dos livros de auto-ajuda, "Affluenza" não deixa de cair na tentação de sugerir mais respostas do que motivar perguntas. E é uma pena. A obra coloca em cima da mesa um conjunto de preocupações centrais do nosso tempo, relacionando o modelo económico, político, social, cultural e ambiental em que nos encontramos imersos com a espectacular explosão das mais diversas formas de perturbação mental; porém, não parece resistir à disponibilização de receitas, quando essa lógica de "pronta a consumir" é precisamente uma das características mais negativas e nocivas do capitalismo.

Em suma, "Affluenza" é interessante e merece a pena ser lido. A leitura deverá ser crítica e distanciada, naturalmente. Em todo o caso, crítica e distância é postura que se deve aplicar a qualquer leitura.

15/08/2016

Kurt Gerstein e a ambiguidade do bem, ou do mal.

Em 1969 é publicado um livro do investigador israelo-norte americano Saul Friedländer intitulado "Kurt Gerstein: The Ambiguity of Good". A obra tem tradução portuguesa com o título "Kurt Gerstein: entre o Homem e a Gestapo", opção que na minha perspectiva retira profundidade àquela que me parece ter sido a intenção inicial do autor: fazer reflectir no título do livro a natureza ambígua e contraditória da personalidade, pensamento e acção de Gerstein.

Kurt Gerstein foi um filho da pequena burguesia alemã pós-Versalhes, reaccionário e tendencialmente anti-semita, atraído pela ideia de ordem autoritária da direita alemã e, mais tarde, enredado na teia ditatorial do fascismo hitleriano, com o qual de resto viria a ter problemas resultantes do confronto entre as suas fortes convicções religiosas e a acção do Partido Nacional Socialista e do Estado nazi-fascista. Gerstein foi por duas vezes detido pela Gestapo e, de acordo com escritos seus, sujeito a humilhações e torturas que lhe deixaram uma marca profunda.

Depois de expulso do Partido Nacional Socialista, do qual fez parte na década de 30, e já depois de juntar à sua formação em Engenharia de Minas o curso de Medicina, vê a sua candidatura às SS ser aceite. É o início de um percurso que o levará ao suicídio, durante a sua detenção pelas tropas francesas.

Gerstein era um reaccionário. Seria até fascista, na medida em que nada permite supor que não estaria de acordo com a organização do Estado fascista hitleriano, com a excepção da absorção que foi por este determinada face à Igreja Evangélica alemã e às suas estruturas próprias. Por outro lado, viveu na primeira pessoa a experiência da prisão, da tortura, da intimidação; também viveu, no seio da sua família, a perda da sua cunhada, assassinada pelos nazis no âmbito do programa de "Eutanásia" forçada que fez desaparecer dezenas de milhares de doentes alemães.

Em 1942, já no âmbito das suas funções na estrutura das SS, Gerstein é enviado numa missão secreta aos campos de extermínio localizados na Polónia - Treblinka, Belzec e creio que Majdanek -, onde o gaseamento de prisioneiros (judeus e não judeus) com recurso a óxido de carbono (resultante da introdução de gases resultantes da combustão de um motor automóvel dentro de uma câmara selada) se mostrava um processo "industrial" falível e demorado. Gerstein será responsável pelo transporte de ácido prússico para os campos, onde a sua utilização confere maior eficácia, rapidez e fiabilidade às câmaras de gás nazis. Kurt Gerstein regressará dos campos profundamente perturbado e, simultaneamente, animado pela possibilidade de fazer chegar informação detalhada sobre as fábricas de morte fascistas quer à população alemã, quer a instituições e Estados neutros ou inimigos do Reich nazi. Os seus esforços demonstrar-se-ão fundamentalmente infrutíferos.

Ler a biografia de Gerstein tem-me feito reflectir de forma profunda sobre a natureza humana. O homem é, em boa verdade, um poço de contradições em permanente formação e deformação. Gerstein merece-me condenação e admiração, nojo e gratidão. O mesmo homem que transportou vagões de ácido prússico vital para o extermínio de seres humanos enterrou, por iniciativa própria, sozinho, quantidades relevantes desse mesmo produto, inutilizando-o assim para o fim ao qual se destinava. Reaccionário, membro do Partido Nacional Socialista quando esteve lançava as bases do seu poder absoluto na Alemanha, arriscou a sua vida e a vida dos seus quando cometeu actos considerados como "alta traição" pelos fascistas alemães, ao fazer chegar ao exterior informações detalhadas sobre os campos de extermínio fascistas.

21/07/2016

Primeiro parágrafo.

Até há algumas horas atrás estava sinceramente convencido de que o melhor primeiro parágrafo de um livro de ficção especulativa era o da obra "Neuromante" de William Gibson: "O céu por cima do porto era da cor de um aparelho de TV sintonizado num canal sem emissão.".

Depois li o primeiro parágrafo de "Floresta sem fim", dos soviéticos Arkadi e Boris Strugatsky, que diz assim: "Contemplada daquela altura, a floresta parecia espuma, luxuriante e manchada, um mundo gigantesco - uma esponja porosa, circundante, como um animal escondido e expectante, agora adormecido e coberto de musgo espesso. Uma máscara informe ocultando um rosto, até àquele momento nunca revelado.".

Sublime.


20/07/2016

Floresta é o Nome do Mundo

Em "Floresta é o Nome do Mundo", Ursula K. Le Guin explica que "a palavra ashteana para mundo é a mesma que para floresta". Um pouco à semelhança do que acontece com os esquimós e o gelo, ou entre os polinésios e água do mar, em "Floresta é o Nome do Mundo" a autora define o espaço vital dos ashteanos como o seu próprio conceito de Mundo. Ursula K. Le Guin marca assim uma diferença de princípio, essencial, entre colonizados (os ashteano) e colonizadores (os homens): enquanto os primeiros olham o Mundo como algo de que são parte, os segundos definem-o como aquilo que dominam e manipulam de acordo com as suas necessidades (básicas e supérfluas).

"Floresta é o Nome do Mundo" é um romance panfletário, duro, um dedo apontado a um mundo em que a guerra, o colonialismo, o racismo e a destruição ambiental faziam o seu caminho de rápida afirmação como elementos estruturantes "do paradigma" histórico "pós-histórico" de Fukuyama e afins. Quase meio-século mais tarde tudo parece ter mudado e, simultaneamente, nada de verdadeiramente essencial mudou. "Floresta é o Nome do Mundo" mantém-se como um livro pleno de actualidade.

A história centra-se na relação entre humanos colonizadores de um planeta que baptizaram como Novo Taiti e os seus habitantes humanoides nativos, seres pacíficos profundamente ligados à floresta que cobre integralmente os territórios secos. A Terra destruiu há muito as suas florestas e a madeira que a abastece provém de colónias distantes. No planeta que constitui o cenário da história, Athshe, os humanos não apenas têm planos para a sua completa exploração como submetem os seus habitantes originais a um regime de escravatura "voluntária" abruptamente interrompida por uma revolta inesperada numa das missões madeireiras existentes. Trata-se pois de um romance sobre a resistência de um povo indígena a dois aspectos interligados no seu contexto histórico particular: o colonialismo e a destruição ambiental da sua terra natal.

Para os athsheanos a floresta não é apenas a sua casa; sentem-na como parte da sua identidade individual e colectiva, fonte da sua forma de vida e definição da sua própria noção de existência. Por isso, a "Floresta é o Nome do Mundo", aqui entendido de forma lata e não apenas física.

Esta obra de Ursula K. Le Guin é profundamente militante, impregnada de ecologia profunda, admiração pela luta anticolonial e, de forma particularmente visível em algumas passagens, pela luta dos povos da Indochina contra a agressão americana, que se dava na altura em que a autora trabalhava no livro. "Floresta é o Nome do Mundo" assume-se como uma obra de referência na ecoficção-científica, "ramo" da ficção especulativa bem representado em obras maiores da literatura universal, como são "Duna" ou "A Floresta Sem Fim", de Boris e Arkadi Strugatski. Aconselho a sua leitura sem quaisquer reservas.


post-scriptum: quantos mais romances leio, mais cenas inteiras, ideias inteiras e por vezes histórias inteiras encontro em filmes que crédito nenhum atribuem aos verdadeiros autores originais. "Avatar", dirigido e "escrito" por James Cameron, é um decalque descarado do romance que trago na mochila, "Floresta é o nome do mundo", de Ursula K. LeGuin. Sou totalmente avesso à ideia de "propriedade intelectual", mas penso que ninguém pode decalcar o fruto da imaginação alheia para depois fazer muitos milhões de "Box office" (no caso de "Avatar" qualquer coisa como 2.7 mil milhões de dólares...) sem sequer referir a fonte da sua "inspiração"...