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11/06/2019

Justin Edinburgh



Já me passou a febre de assumir vinculações clubísticas com clubes estrangeiros. Acompanho alguns, sobretudo se neles identificar semelhanças com o Belenenses, e sinto-me identificado com outros, por razões diversas que variam de emblema para emblema, embora não sinta - não possa sentir, por manifesta incapacidade - por nenhum emblema aquilo que sinto pelo Clube da minha vida. Dito isto, se há clube que em Londres vou acompanhando com atenção, jornada a jornada, é o Leyton Orient FC, emblema do bairro com o mesmo nome que, depois de sair dos campeonatos da esfera da Football Association [disputou em 2018/2019 a National League, quarta divisão inglesa], regressou este ano com brilhantismo e alma aos Campeonatos Profissionais, sob o comando de Justin Edinburgh, o treinador que pegou na equipa para a devolver ao seu lugar. Foi aliás em conversa com um consócio belenenses, no Arraial do Centenário que em boa hora o Clube organizou após a jornada final da série 2 do Campeonato da 1ª Divisão da AFL, que fiquei a saber que horas antes Justin Edinburgh havia falecido inesperada e tragicamente aos 49 anos. É uma notícia triste para o Leyton Orient e, naturalmente, para a família de Justin Edinburgh. Pela minha parte reforcei a ligação ao Orient inglês, apoiando-o na sua difícil caminhada que passou recentemente na libertação de um ex-proprietário sem respeito pela história do Clube e pelos seus verdadeiros donos.

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10/05/2019

A história da caixa ou a narrativa da restauração da harmonia

"Pensar fora da caixa". O slogan anda por aí, enfeitando apresentações e dando colorido a conversas - cada vez mais raras, pelo menos fora dos ecrãs. Todos desejamos abrir a caixa e meter o nosso pensamento fora das seis faces do cubo onde aparentemente o temos fechado. E no entanto quase ninguém o consegue fazer. Porquê? Talvez a primeira razão seja precisamente o facto de não nos colocarmos frequentemente a questão "porquê?" ou, cumulativamente, outras questões [outros "porquê?"] que funcionem como desbloqueador do pensamento sobre os assuntos da vida. Não fazemos prolongar a "idade dos porquês" vida-fora e pagamos bem caro esse acesso à maturidade-pragmática, caracterizada pela capacidade de fazer sem perceber muito bem a razão pela qual fazemos o que fazemos. É estúpido, certo? George Monbiot tem pensado e escrito sobre o assunto. A sua perspectiva sobre ele resume-se basicamente numa ideia simples: estamos prisioneiros desde há séculos de uma narrativa maniqueísta, que serve de base para uma série de propostas políticas [entendidas na sua versão programática e não apenas "avulsa"] e que funciona como um género de caixote apertado que contém a criatividade e sobretudo funciona como cerca do pensamento [um género de fronteiras do razoável]. A narrativa de que fala Monbiot é simples mas extremamente poderosa no que se refere à captura da atenção das pessoas comuns: um vilão - pessoa, instituição ou sistema -, gerador de mau estar e bloqueador do progresso, é confrontado por um herói - pessoa, instituição ou sistema - que o derrota e estabelece um novo rumo de prosperidade, felicidade e harmonia. Só que esta versão dos acontecimentos já não serve, é gerador de mais do mesmo. E eu, que passei boa parte da minha vida adulta cheio de certezas sobre o passado, o presente e o futuro, sinto exactamente o mesmo que Monbiot; creio que a sua reflexão sobre a importância das narrativas é chave para a interpretação do presente e sobretudo fundamental para percebermos como vamos sair da monumental borrada em que nos vamos metendo, já não de forma "progressiva" [e "progressiva" aqui tem duplo sentido...] mas desgovernada, acelerada e imprevisível.

29/06/2016

Era uma vez um palerma

Quando em 2014 existiu uma perspectiva real para a vitória da opção independentista no referendo escocês sobre o fim da ocupação britânica (que leva longos séculos) a União Europeia não regateou esforços e foi um dos participantes externos mais empenhados na vitória do "Não" que derrotou a ideia de uma Escócia por fim livre e soberana, separada da coroa britânica e da sua natureza imperial. Nas semanas anteriores ao referendo a propaganda do medo foi utilizada sem contenção. O Público noticiava por exemplo que "ao longo das últimas semanas, a imprensa britânica tem citado vários altos funcionários europeus não identificados a garantir que é consensual na Comissão o entendimento de que uma Escócia independente teria de voltar a pedir a integração na União Europeia, processo que calculam poder demorar cinco ou seis anos".

Menos de dois anos depois o quadro alterou-se, e perante a decisão da maioria dos votantes do Reino Unido de deixar a União Europeia, Juncker veio estender a mão aos mesmíssimos escoceses que em 2014 via como uma ameaça à estabilidade da "União": "A Escócia ganhou o direito de ser ouvida". A hipocrisia não tem limites.

Muitos escoceses, agradecidos, aproveitarão a condescendência "europeia" e tudo farão para que uma Escócia soberana, livre da tutela dos vizinhos do sul, possa ver finalmente a luz do dia. Eu, que não sou escocês, olho para esta oportunidade como a triste prova de que os mecanismos de "integração europeia" não passam de expedientes ao serviço dos interesses do momento. A "Europa" (leia-se, a União Europeia) não tem princípios, como este caso particular demonstra de forma cristalina. Os escoceses poderão saltar da frigideira britânica para o caldeirão comunitário. Mas ficarão cientes de que sem "Brexit" os burocratas de Bruxelas jamais lhes concederiam "o direito de ser ouvida". A eventual (e desejável) independência da Escócia terá sido, nestas circunstâncias, muito mais do que o desfecho de um longo processo de luta dos escoceses, um esquema contorcionista da "Europa" franco-alemã. A mesma que há dois anos contribuiu activamente para que "o direito a ser ouvida" fosse espezinhado.

28/06/2016

Quando o racismo chega às tv's

Há uma diferença grande, enorme, entre erupção súbita de actos racistas na ressaca de um referendo e erupção súbita de notícias relativamente a actos racistas que no entanto têm um histórico de longos anos, para tentar encaixá-los numa determinada narrativa, na ressaca de um referendo.

O racismo made in UK chegou finalmente aos noticiários portugueses. As notícias chegam com séculos de atraso. Os mais optimistas dirão que mais vale tarde do que nunca. Os menos optimistas, como eu, dirão que a ocasião não é inocente.

Janeiro de 2016:
"Asylum seekers in Cardiff are being issued with brightly coloured wristbands that they must wear at all times, in a move which echoes the “red door” controversy in Middlesbrough and has resulted in their harassment and abuse by members of the public."


Eram bestiais e agora são bestas. Fora com eles. Já. Não vão os outros perceber que afinal é possível mandar à merda os burocratas não eleitos que mandam na UE.

Era uma vez uma Inglaterra "europeísta", toda ela convicta da sua pertença à União que a Alemanha criou para tentar uma vez mais afirmar a sua hegemonia continental. Nesta Inglaterra idílica não existia racismo, xenofobia nem islamofobia. Ao contrário do que muitos afirmavam, a Inglaterra não foi uma das quatro nações participantes na Cimeira das Lajes, aquela que apresentou o 11 de Setembro de 2001 como o pretexto perfeito, todo embebido em islamofobia, para atacar o Iraque e transformar aquele país num género de Síria do início do milénio. Blair não esteve antes no ataque à Federação Jugoslava, desmembrada à força de urânio empobrecido, e não foi protagonista principal da retórica da "war on terror", a mentira que deu o pontapé de saída na visão de todo o árabe (e de alguns persas também) como uma bomba com pernas, capaz de cortar a cabeça ao mais inocente dos ocidentais.

A verdade é que até há dias atrás o racismo inglês não era mais do que uma ideia sem expressão, com presença reduzida e delimitada aos bairros mais pobres das cidades mais pobres do Reino Unido. O colonialismo britânico, centenas de anos de serviço aos povos selvagens de outras paragens, não foi exploração, violência, submissão e saque. Pelo contrário: a violência britânica no "ultramar" foi sobretudo serviço aos próprios violentados, ingratos que nunca reconheceram a dificuldade do processo de descolonização levado a cabo por políticos com muita imaginação para desenhar em mapas fronteiras sem sentido.