Depois de expulso do Partido Nacional Socialista, do qual fez parte na década de 30, e já depois de juntar à sua formação em Engenharia de Minas o curso de Medicina, vê a sua candidatura às SS ser aceite. É o início de um percurso que o levará ao suicídio, durante a sua detenção pelas tropas francesas.
Gerstein era um reaccionário. Seria até fascista, na medida em que nada permite supor que não estaria de acordo com a organização do Estado fascista hitleriano, com a excepção da absorção que foi por este determinada face à Igreja Evangélica alemã e às suas estruturas próprias. Por outro lado, viveu na primeira pessoa a experiência da prisão, da tortura, da intimidação; também viveu, no seio da sua família, a perda da sua cunhada, assassinada pelos nazis no âmbito do programa de "Eutanásia" forçada que fez desaparecer dezenas de milhares de doentes alemães.
Em 1942, já no âmbito das suas funções na estrutura das SS, Gerstein é enviado numa missão secreta aos campos de extermínio localizados na Polónia - Treblinka, Belzec e creio que Majdanek -, onde o gaseamento de prisioneiros (judeus e não judeus) com recurso a óxido de carbono (resultante da introdução de gases resultantes da combustão de um motor automóvel dentro de uma câmara selada) se mostrava um processo "industrial" falível e demorado. Gerstein será responsável pelo transporte de ácido prússico para os campos, onde a sua utilização confere maior eficácia, rapidez e fiabilidade às câmaras de gás nazis. Kurt Gerstein regressará dos campos profundamente perturbado e, simultaneamente, animado pela possibilidade de fazer chegar informação detalhada sobre as fábricas de morte fascistas quer à população alemã, quer a instituições e Estados neutros ou inimigos do Reich nazi. Os seus esforços demonstrar-se-ão fundamentalmente infrutíferos.
Ler a biografia de Gerstein tem-me feito reflectir de forma profunda sobre a natureza humana. O homem é, em boa verdade, um poço de contradições em permanente formação e deformação. Gerstein merece-me condenação e admiração, nojo e gratidão. O mesmo homem que transportou vagões de ácido prússico vital para o extermínio de seres humanos enterrou, por iniciativa própria, sozinho, quantidades relevantes desse mesmo produto, inutilizando-o assim para o fim ao qual se destinava. Reaccionário, membro do Partido Nacional Socialista quando esteve lançava as bases do seu poder absoluto na Alemanha, arriscou a sua vida e a vida dos seus quando cometeu actos considerados como "alta traição" pelos fascistas alemães, ao fazer chegar ao exterior informações detalhadas sobre os campos de extermínio fascistas.


