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15/08/2016

Kurt Gerstein e a ambiguidade do bem, ou do mal.

Em 1969 é publicado um livro do investigador israelo-norte americano Saul Friedländer intitulado "Kurt Gerstein: The Ambiguity of Good". A obra tem tradução portuguesa com o título "Kurt Gerstein: entre o Homem e a Gestapo", opção que na minha perspectiva retira profundidade àquela que me parece ter sido a intenção inicial do autor: fazer reflectir no título do livro a natureza ambígua e contraditória da personalidade, pensamento e acção de Gerstein.

Kurt Gerstein foi um filho da pequena burguesia alemã pós-Versalhes, reaccionário e tendencialmente anti-semita, atraído pela ideia de ordem autoritária da direita alemã e, mais tarde, enredado na teia ditatorial do fascismo hitleriano, com o qual de resto viria a ter problemas resultantes do confronto entre as suas fortes convicções religiosas e a acção do Partido Nacional Socialista e do Estado nazi-fascista. Gerstein foi por duas vezes detido pela Gestapo e, de acordo com escritos seus, sujeito a humilhações e torturas que lhe deixaram uma marca profunda.

Depois de expulso do Partido Nacional Socialista, do qual fez parte na década de 30, e já depois de juntar à sua formação em Engenharia de Minas o curso de Medicina, vê a sua candidatura às SS ser aceite. É o início de um percurso que o levará ao suicídio, durante a sua detenção pelas tropas francesas.

Gerstein era um reaccionário. Seria até fascista, na medida em que nada permite supor que não estaria de acordo com a organização do Estado fascista hitleriano, com a excepção da absorção que foi por este determinada face à Igreja Evangélica alemã e às suas estruturas próprias. Por outro lado, viveu na primeira pessoa a experiência da prisão, da tortura, da intimidação; também viveu, no seio da sua família, a perda da sua cunhada, assassinada pelos nazis no âmbito do programa de "Eutanásia" forçada que fez desaparecer dezenas de milhares de doentes alemães.

Em 1942, já no âmbito das suas funções na estrutura das SS, Gerstein é enviado numa missão secreta aos campos de extermínio localizados na Polónia - Treblinka, Belzec e creio que Majdanek -, onde o gaseamento de prisioneiros (judeus e não judeus) com recurso a óxido de carbono (resultante da introdução de gases resultantes da combustão de um motor automóvel dentro de uma câmara selada) se mostrava um processo "industrial" falível e demorado. Gerstein será responsável pelo transporte de ácido prússico para os campos, onde a sua utilização confere maior eficácia, rapidez e fiabilidade às câmaras de gás nazis. Kurt Gerstein regressará dos campos profundamente perturbado e, simultaneamente, animado pela possibilidade de fazer chegar informação detalhada sobre as fábricas de morte fascistas quer à população alemã, quer a instituições e Estados neutros ou inimigos do Reich nazi. Os seus esforços demonstrar-se-ão fundamentalmente infrutíferos.

Ler a biografia de Gerstein tem-me feito reflectir de forma profunda sobre a natureza humana. O homem é, em boa verdade, um poço de contradições em permanente formação e deformação. Gerstein merece-me condenação e admiração, nojo e gratidão. O mesmo homem que transportou vagões de ácido prússico vital para o extermínio de seres humanos enterrou, por iniciativa própria, sozinho, quantidades relevantes desse mesmo produto, inutilizando-o assim para o fim ao qual se destinava. Reaccionário, membro do Partido Nacional Socialista quando esteve lançava as bases do seu poder absoluto na Alemanha, arriscou a sua vida e a vida dos seus quando cometeu actos considerados como "alta traição" pelos fascistas alemães, ao fazer chegar ao exterior informações detalhadas sobre os campos de extermínio fascistas.

28/01/2016

Ainda sobre o Dia Internacional em memória das vítimas do Holocausto

Durante uma homenagem às vítimas do Holocausto, o presidente norte-americano Barack Obama usou a já costumeira expressão "somos todos...", desta vez acrescentando-lhe "judeus". "Somos todos judeus". Ao fazê-lo, aparentemente com a melhor as intenções, Obama acabou por cair no erro daqueles que se opõe à diferença, e que vêem na diferença razão para promover a segregação, a discriminação e, como aconteceu na Alemanha fascista entre 1933 e 1945, a perseguição e extermínio de grupos inteiros da população.

 
Eu não sou etnicamente judeu e é bem provável que nunca me venha a converter ao judaísmo, característica que não tem relação nenhuma com o meu absoluto repúdio face ao Holocausto e activa oposição a todas as formas de discriminação - incluindo religiosa, étnica ou "racial" - face a seres humanos e comunidades diferentes daquela em que as circunstâncias da vida me enquadraram.

22/10/2015

Netanyahu e o revisionismo histórico

As recentes declarações do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, não são apenas mentirosas, lamentáveis e provocatórias [1]. No quadro da legislação em vigor no seu próprio país, o que Netanyahu fez foi violar a lei que criminaliza o revisionismo histórico em torno do Holocausto (Lei 5746-1986), nomeadamente no seu ponto n.º2 [2].

Neste contexto, foi sem surpresa que li as declarações da responsável pela investigação histórica do Centro Internacional do Holocausto – o Yad Vashem de Jerusalém –, Dina Porat, que se referiu à tese defendida por Netanyahu como “absolutamente falsa”. [3]