A "alma nova" de que falam os jornais é na verdade uma superficial máscara que deixou de fora do raio da sua influência aquilo de que na verdade diverge. E é por isso risível a tese segundo a qual o projecto de arte urbana a céu aberto que transformou o gueto na "maior galeria de arte urbana a céu aberto da Europa, com mais de 46 pinturas nas fachadas e nas empenas dos prédios" veio "melhorar a imagem do bairro". Não o afirmo por ser esta tese errada (provavelmente é acertada), mas porque a "imagem do bairro" (no fundo, a sua reputação) é coisa que importa muito mais a quem o observa de longe (ou circunstancialmente in loco) do que a quem nele habita todos os dias.
Estou certo de que os homens e mulheres, velhos e crianças, que moram naquele gueto de Loures preferem um bairro exteriormente cuidado a um espaço abandonado à (pouca) sorte das carteiras vazias. Mas as fachadas bonitas não levaram da Quinta do Mocho as tragédias familiares que ali ganharam raízes, não impediram a brutalidade das rusgas policiais impensáveis na Quinta da Marinha nem resolveram ao comum dos mortais os verdadeiros problemas estruturais das vidas hipotecadas daqueles que a maioria de nós despreza.
A Quinta do Mocho transformada em atracção turística fica bem nos jornais mas não deixa de dar corpo àquilo que em "O capitalismo estético na era da globalização" Lipovetsky e Serroy sintetizam da seguinte forma:
"As estratégias comerciais do capitalismo criativo transestético já não poupam nenhuma esfera. (...) O património reabilitado e encenado à maneira dos cenários cinematoráfico. Os centros urbanos são retocados, encenados, "disneyficados" com o intuito do consumo turístico."
As nossas cidades são, em larga medida, a inspiração bizarra de Banksy para a sua tragicamente poética Dismaland.
p.s.: se fosse munícipe de Loures votaria CDU sem qualquer hesitação.
O bairro onde ninguém queria entrar já "recebe mais visitas que os museus"
Liliana Borges
12/05/2016 - 21:44
Depois do sucesso da intervenção no bairro da Quinta do Mocho, a Câmara Munincipal de Loures prepara um festival de arte com escultura, graffiti, fotografia, workshops e concertos e conta com a participação de artistas internacionais.


