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13/05/2016

A estetização do gueto [i]

As recentes notícias sobre o sucesso turístico de um bairro onde o comum dos mortais portugueses recusa ir poderão ter agradado à massa sempre tão receptiva a aparentes "boas notícias". Uma leitura acrítica da novidade poderá levar alguns a exagerar o aspecto superficialmente positivo das romarias de estranjas à Quinta do Mocho. O problema porém é mais profundo e sintetiza-se em poucas palavras: a estetização do gueto não o transforma num lugar agradável porque o gueto permanece gueto. Não há parada de selfies junto aos morais do bairro que transforme as paredes que escondem pobreza, desemprego, exclusão e tristeza em monumentos à inclusão dos pobrezinhos. Os humildes da Quinta do Mocho não precisam de ver as suas lindas paredes brilhando no efémero mundo digital; é as suas vidas reais que anseiam ver valorizadas.

A "alma nova" de que falam os jornais é na verdade uma superficial máscara que deixou de fora do raio da sua influência aquilo de que na verdade diverge. E é por isso risível a tese segundo a qual o projecto de arte urbana a céu aberto que transformou o gueto na "maior galeria de arte urbana a céu aberto da Europa, com mais de 46 pinturas nas fachadas e nas empenas dos prédios" veio "melhorar a imagem do bairro". Não o afirmo por ser esta tese errada (provavelmente é acertada), mas porque a "imagem do bairro" (no fundo, a sua reputação) é coisa que importa muito mais a quem o observa de longe (ou circunstancialmente in loco) do que a quem nele habita todos os dias.

Estou certo de que os homens e mulheres, velhos e crianças, que moram naquele gueto de Loures preferem um bairro exteriormente cuidado a um espaço abandonado à (pouca) sorte das carteiras vazias. Mas as fachadas bonitas não levaram da Quinta do Mocho as tragédias familiares que ali ganharam raízes, não impediram a brutalidade das rusgas policiais impensáveis na Quinta da Marinha nem resolveram ao comum dos mortais os verdadeiros problemas estruturais das vidas hipotecadas daqueles que a maioria de nós despreza.

A Quinta do Mocho transformada em atracção turística fica bem nos jornais mas não deixa de dar corpo àquilo que em "O capitalismo estético na era da globalização" Lipovetsky e Serroy sintetizam da seguinte forma:

"As estratégias comerciais do capitalismo criativo  transestético já não poupam nenhuma esfera. (...) O património reabilitado e encenado à maneira dos cenários cinematoráfico. Os centros urbanos são retocados, encenados, "disneyficados" com o intuito do consumo turístico."

As nossas cidades são, em larga medida, a inspiração bizarra de Banksy para a sua tragicamente poética Dismaland.


p.s.: se fosse munícipe de Loures votaria CDU sem qualquer hesitação.


O bairro onde ninguém queria entrar já "recebe mais visitas que os museus"
Liliana Borges
12/05/2016 - 21:44
Depois do sucesso da intervenção no bairro da Quinta do Mocho, a Câmara Munincipal de Loures prepara um festival de arte com escultura, graffiti, fotografia, workshops e concertos e conta com a participação de artistas internacionais.