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10/05/2019

A história da caixa ou a narrativa da restauração da harmonia

"Pensar fora da caixa". O slogan anda por aí, enfeitando apresentações e dando colorido a conversas - cada vez mais raras, pelo menos fora dos ecrãs. Todos desejamos abrir a caixa e meter o nosso pensamento fora das seis faces do cubo onde aparentemente o temos fechado. E no entanto quase ninguém o consegue fazer. Porquê? Talvez a primeira razão seja precisamente o facto de não nos colocarmos frequentemente a questão "porquê?" ou, cumulativamente, outras questões [outros "porquê?"] que funcionem como desbloqueador do pensamento sobre os assuntos da vida. Não fazemos prolongar a "idade dos porquês" vida-fora e pagamos bem caro esse acesso à maturidade-pragmática, caracterizada pela capacidade de fazer sem perceber muito bem a razão pela qual fazemos o que fazemos. É estúpido, certo? George Monbiot tem pensado e escrito sobre o assunto. A sua perspectiva sobre ele resume-se basicamente numa ideia simples: estamos prisioneiros desde há séculos de uma narrativa maniqueísta, que serve de base para uma série de propostas políticas [entendidas na sua versão programática e não apenas "avulsa"] e que funciona como um género de caixote apertado que contém a criatividade e sobretudo funciona como cerca do pensamento [um género de fronteiras do razoável]. A narrativa de que fala Monbiot é simples mas extremamente poderosa no que se refere à captura da atenção das pessoas comuns: um vilão - pessoa, instituição ou sistema -, gerador de mau estar e bloqueador do progresso, é confrontado por um herói - pessoa, instituição ou sistema - que o derrota e estabelece um novo rumo de prosperidade, felicidade e harmonia. Só que esta versão dos acontecimentos já não serve, é gerador de mais do mesmo. E eu, que passei boa parte da minha vida adulta cheio de certezas sobre o passado, o presente e o futuro, sinto exactamente o mesmo que Monbiot; creio que a sua reflexão sobre a importância das narrativas é chave para a interpretação do presente e sobretudo fundamental para percebermos como vamos sair da monumental borrada em que nos vamos metendo, já não de forma "progressiva" [e "progressiva" aqui tem duplo sentido...] mas desgovernada, acelerada e imprevisível.