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09/07/2016

A paciência dos pobres

"(...) Num proveitoso livro, O cerco protector, em que Heinrich Böll 
descreve 'os anos de chumbo' na Alemanha, Blurtmehl, 
o mordomo, responde à seguinte pergunta do patrão: 
- O que mais o surpreende neste mundo esquisito? -
- O que mais me surpreende é a paciência dos pobres!
É esse de facto o verdadeiro mistério e o autêntico 
espanto, a docilidade que faz os Homens tudo suportar"

Manuel Ricardo de Sousa
em "Guerrilha no Asfalto: As FP-25 e o tempo português"
pág. 41


Recordo com frequência as palavras de Manuel Ricardo de Sousa e e de Heinrich Böll. É surpreendente a paciência que a esmagadora maioria de nós vai não apenas manifestando mas também alimentando relativamente às palavras e sobretudo à acção daqueles que vêem neste mundo o cenário das suas vidas opulentas, estruturadas em cima da miséria, do sofrimento e da falta de esperança daqueles que são as verdadeiras formiguinhas obreiras de um sistema que na verdade não as serve. Também me surge com frequência uma conclusão mais ou menos empírica e especulativa: o principal mérito dos ricos foi terem conseguido quase sempre, ao longo da história, fazer dos pobres a sua muralha de protecção contra outros humildes menos pacientes e disponíveis para tolerar ad eternum os regimes de pornográfica desigualdade que lhes foram sendo servidos ao longo da história.

O ingresso de Durão Barroso na estrutura dirigente do polvo-bancário norte americano Goldman Sachs é nova prova à resistência da muralha de humildes que em torno de si erigiu o capitalismo e as suas instituições, entre as quais se contra o entreposto político a que muitos chamam "União Europeia".

Para ser absolutamente franco é-me mais ou menos indiferente que seja Barroso ou outro qualquer lacaio do sistema, recém saído de um alto cargo político e com uma lista de contactos bem recheada, a assumir o posto que lhe estava prometido no sistema financeiro internacional. O problema é que o que para mim é indiferente não o é para a Democracia. E a entrada de Barroso para o Goldman Sachs é mais um punhal espetado e torcido no coração daquilo que vai restando do sistema democrático na nossa sociedade.

Que uma União Europeia, que mais não é do que um corpo institucional de fachada que permite ao sistema financeiro internacional operar a seu bel-prazer dentro e fora da "zona euro", venha depois chorar cínicas lágrimas acerca do "afastamento entre eleitores e eleitos" ou relativamente ao reforço do movimento fascista no pós-1991 é todavia intolerável e merece denúncia e combate. A União Europeia é parte integrante do problema.

Barroso protagonizou uma presidência patética da Comissão. Tal como antes havia protagonizado um papel patético à frente do governo português. Que muitos (sobretudo na imprensa) o tenham visto como uma forte possibilidade para suceder a Cavaco Silva na presidência da República é coisa bem reveladora do grau de sabujismo imperante neste país. E que o actual presidente da República venha louvar esta intolerável demonstração da absoluta promiscuidade entre o poder político na cúpula não eleita da União Europeia e as grandes sanguessugas financeiras que se alimentam da miséria dos povos é elemento que não apenas não pode ser ignorado como deve ser alvo da mais frontal e firme censura.

Blurtmehl, o mordomo, espantava-se com a paciência dos pobres, mas eu creio que esta se vai esgotando.

Que os humildes deste mundo tenham a capacidade de compreender que muito mais do que Barroso é o sistema capitalismo e as suas diversas expressões nacionais e multinacionais que devem ir parar ao caixote do lixo da história é aspecto fundamental para que deste imenso monte de merda em que se transformou o mundo possa sair, mais cedo que tarde, outra forma de viver.

Que os humildes deste mundo tenham a capacidade de compreender que muito mais do que "reformas" (esse eufemismo que pretende tudo mudar para que tudo fique na mesma) o que se impõe é Revolução e um novo tipo de organização política, económica, social, cultural e ecológica é também condição fundamental para que o mundo dê, por fim, o salto qualitativo que o comum dos mortais merece desde que as sociedades se estruturaram num regime de segregações várias, de entre as quais se destaca a económica e social.