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08/09/2016

Truman Show, ou o conforto cognitivo que se alapou à "civilização" que temos.

É curioso que, sendo eu profundamente interessado por todo o fundo psicológico e filosófico associado ao "Truman Show", nunca lhe tenha dedicado neste blogue a atenção devida. Como o tempo nesta fase é um bem escasso no meu dia-a-dia, aproveito este belíssimo post do Daniel Carrapa (no muito aconselhado "A barriga de um arquitecto"), cuja ligação faz parte da lista de blogues e afins disponível nesta tasca) para aconselhar um filme e uma reflexão que fez luz sobre uma realidade pouco clara no momento da sua estreia. "Truman Show" foi uma candeia demasiado à frente, num tempo em que dois, três anos parecem uma eternidade.

Aos mais interessados deixo uma dica adicional: a leitura do conto "What's It Like Out There?", de Edmond Hamilton, publicado na colectânea "Mensagens do futuro", organizada por Isaac Asimov, e publicada em português no âmbito da colecção Argonauta (n.º320).

21/07/2016

Primeiro parágrafo.

Até há algumas horas atrás estava sinceramente convencido de que o melhor primeiro parágrafo de um livro de ficção especulativa era o da obra "Neuromante" de William Gibson: "O céu por cima do porto era da cor de um aparelho de TV sintonizado num canal sem emissão.".

Depois li o primeiro parágrafo de "Floresta sem fim", dos soviéticos Arkadi e Boris Strugatsky, que diz assim: "Contemplada daquela altura, a floresta parecia espuma, luxuriante e manchada, um mundo gigantesco - uma esponja porosa, circundante, como um animal escondido e expectante, agora adormecido e coberto de musgo espesso. Uma máscara informe ocultando um rosto, até àquele momento nunca revelado.".

Sublime.


20/07/2016

Floresta é o Nome do Mundo

Em "Floresta é o Nome do Mundo", Ursula K. Le Guin explica que "a palavra ashteana para mundo é a mesma que para floresta". Um pouco à semelhança do que acontece com os esquimós e o gelo, ou entre os polinésios e água do mar, em "Floresta é o Nome do Mundo" a autora define o espaço vital dos ashteanos como o seu próprio conceito de Mundo. Ursula K. Le Guin marca assim uma diferença de princípio, essencial, entre colonizados (os ashteano) e colonizadores (os homens): enquanto os primeiros olham o Mundo como algo de que são parte, os segundos definem-o como aquilo que dominam e manipulam de acordo com as suas necessidades (básicas e supérfluas).

"Floresta é o Nome do Mundo" é um romance panfletário, duro, um dedo apontado a um mundo em que a guerra, o colonialismo, o racismo e a destruição ambiental faziam o seu caminho de rápida afirmação como elementos estruturantes "do paradigma" histórico "pós-histórico" de Fukuyama e afins. Quase meio-século mais tarde tudo parece ter mudado e, simultaneamente, nada de verdadeiramente essencial mudou. "Floresta é o Nome do Mundo" mantém-se como um livro pleno de actualidade.

A história centra-se na relação entre humanos colonizadores de um planeta que baptizaram como Novo Taiti e os seus habitantes humanoides nativos, seres pacíficos profundamente ligados à floresta que cobre integralmente os territórios secos. A Terra destruiu há muito as suas florestas e a madeira que a abastece provém de colónias distantes. No planeta que constitui o cenário da história, Athshe, os humanos não apenas têm planos para a sua completa exploração como submetem os seus habitantes originais a um regime de escravatura "voluntária" abruptamente interrompida por uma revolta inesperada numa das missões madeireiras existentes. Trata-se pois de um romance sobre a resistência de um povo indígena a dois aspectos interligados no seu contexto histórico particular: o colonialismo e a destruição ambiental da sua terra natal.

Para os athsheanos a floresta não é apenas a sua casa; sentem-na como parte da sua identidade individual e colectiva, fonte da sua forma de vida e definição da sua própria noção de existência. Por isso, a "Floresta é o Nome do Mundo", aqui entendido de forma lata e não apenas física.

Esta obra de Ursula K. Le Guin é profundamente militante, impregnada de ecologia profunda, admiração pela luta anticolonial e, de forma particularmente visível em algumas passagens, pela luta dos povos da Indochina contra a agressão americana, que se dava na altura em que a autora trabalhava no livro. "Floresta é o Nome do Mundo" assume-se como uma obra de referência na ecoficção-científica, "ramo" da ficção especulativa bem representado em obras maiores da literatura universal, como são "Duna" ou "A Floresta Sem Fim", de Boris e Arkadi Strugatski. Aconselho a sua leitura sem quaisquer reservas.


post-scriptum: quantos mais romances leio, mais cenas inteiras, ideias inteiras e por vezes histórias inteiras encontro em filmes que crédito nenhum atribuem aos verdadeiros autores originais. "Avatar", dirigido e "escrito" por James Cameron, é um decalque descarado do romance que trago na mochila, "Floresta é o nome do mundo", de Ursula K. LeGuin. Sou totalmente avesso à ideia de "propriedade intelectual", mas penso que ninguém pode decalcar o fruto da imaginação alheia para depois fazer muitos milhões de "Box office" (no caso de "Avatar" qualquer coisa como 2.7 mil milhões de dólares...) sem sequer referir a fonte da sua "inspiração"...

08/05/2016

"10 Cloverfield Lane"

A ficção-científica é um dos mais versáteis, inventivos e cativantes géneros cinematográficos. "10 Cloverfield Lane", aquisição para o género realizada este ano Dan Trachtenberg, não desilude; explorando conceitos que outros filmes apresentaram com mestria, Trachtenberg dobra a história no sentido de lhe retirar a linearidade que o tema poderia facilmente determinar. É precisamente por isso que o lugar comum do "survivalism" norte-americano funciona nesta história como pano de fundo e não como foco principal do filme. Em "10 Cloverfield Lane" é a retenção forçada num espaço confinado que justifica os "oitos" que a narrativa oferece.


Jodorowsky's Dune

Ando há muitos dias a digerir o extraordinário documentário "Jodorowsky's Dune", filme que Frank Pavich dedicou à obra nunca finalizada pelo chileno Alejandro Jodorowsky com base no imortal romance "Duna", de Frank Herbert. O documentário é a todos os níveis inspirador. Nele, Jodorowsky revela com clareza um sonho que levou tão longe quanto possível. O filme que idealizou, e que em larga medida preparou com a ajuda de uma equipa de jovens talentosos que mais tarde acabariam por integrar equipas envolvidas na produção de grandes filmes do cinema universal, nunca chegou à fase de rodagem, mas a storyboard não apenas existe como sobreviverá, concretizada cena a cena, plano a plano, ao próprio Jodorowsk.

O que em "Jodorowsky's Dune" impressiona é por um lado a noção que o próprio Jodorowsky foi capaz de transmitir à sua equipa, com honestidade, convicção e clareza, de que o seu "Dune" seria uma obra de arte profundamente revolucionária, capaz de impactar de forma ímpar todos aqueles que tivessem a oportunidade de a apreciar; por outro lado, impressiona a forma como Jodorowsky foi - e ainda é - afectado pela recusa dos grandes estúdios relativamente à possibilidade de realizar a obra que sonhou e, de certa forma, concretizou até ao ponto que a sua autonomia lhe permitia. Jodorowsky é um homem rico mas, de certa forma, o filme revela que fortuna nenhuma substituirá alguma vez o filme que nunca teve a oportunidade de levar avante.

O documentário é poderoso, divertido, inspirador.

29/04/2016

Livros de 2016 [11]: "Forças do Mercado", por Richard Morgan.

Este "Forças do Mercado", terceiro romance de Richard Morgan, não é brilhante. A história decorre numa Londres distópica e num contexto em que as forças políticas foram substituídas por colossais corporações que dominam o mundo e o processo histórico de acordo com as suas conveniências. Nada disto é particularmente original.

O mérito do livro é a possibilidade de poder despertar em alguns uma reflexão séria sobre a involução de muitas sociedades normalmente tidas como "avançadas" (de acordo com critérios normalizados mas discutíveis, naturalmente...) em direcção a um sistema de castas e de hierarquização social estanque que é, em si mesmo, uma demonstração da falta de democracia que de forma generalizada as afecta no momento presente.

Apenas interessante, na minha perspectiva.

11/03/2016

Livros de 2016 [3]: "Viagens Ijon Tichy", de Stanislaw Lem.

Sobre o que li nesta maravilhosa obra de ficção especulativa escrevi no Bitaites. O livro é esplendoroso, perturbador, hilariante por vezes, aterrador noutros casos. Altamente aconselhado, naturalmente.