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27/08/2016

Um certo regresso à natureza

Pela enésima vez desactivei a minha conta no facebook e apaguei a minha (recente) conta no Instagram. As razões para o ter feito são minhas e minhas ficarão. Em todo o caso creio que não se perderá nada em partilhar sete de entre elas, por me parecerem eventualmente relevantes para outras pessoas que, como eu, sentem diariamente que as redes sociais têm nas suas vidas um impacto profundamente negativo. Um impacto que vai muito além do tempo perdido, ou da irritação passageira relativamente a algo que se lê.

#1 As redes sociais são espaços de violação voluntária (consciente ou inconsciente) de privacidade

Não é segredo para ninguém que toda a actividade das pessoas (também conhecidas como “utilizadores”) nas redes sociais é monitorizada, registada, trabalhada e guardada por entidades com e sem autorização para o efeito. O nível de vigilância a que estamos expostos (todos) é colossal, e os dados que partilhamos voluntariamente (aqueles que se encontram registados em plataformas digitais de partilhas diversas) multiplicam por um número relevante o tamanho da janela pública aberta para a nossa intimidade.

Tenho consciência de que não é fácil, por agora, fugir ao esquema de vigilância política, económica e comercial montada com recurso (mas também sem ele) às chamadas redes sociais. Resta-nos o poder de minimizar, dentro da nossa própria esfera de poder, aquilo que da nossa intimidade (nas suas diversas camadas) oferecemos de forma voluntária ao mundo das bases de dados e dos arquivos digitais.

Pode ser que no futuro se dê um processo de assalto aos arquivos digitais das grandes corporações e agências de vigilância que elimine o longo registo de imagens, opiniões, desabafos e outras intimidades que, sem intenção ou cuidado, deixámos ao dispor do mundo. Uma assalto parecido com aquele protagonizado por Eleazar, Menaem e os Sicários, que durante uma revolta judaíca nos primeiros anos “d.C.” tomaram conta do Templo (em Jerusalém) e depois dele expulsarem agiotas e sacerdotes, lançaram fogo às escrituras de propriedade e registos de dívidas.

Até lá acredito sinceramente que o melhor mesmo é prescindir de oferecer aos sistemas de hipervigilância existentes a informação detalhada com que todos os dias inundamos as suas bases de dados.

#2 As redes sociais tornam-nos mais estúpidos, mais impulsivos, mais clubistas e menos reflexivos

Há quem defenda que as redes sociais não são para levar a sério. Mas muitos desses que o afirmam, colocam-nas no centro da sua relação com boa parte daqueles que os rodeiam, utilizando-as como meio principal de comunicação com a comunidade dos seus amigos, conhecidos e não raras vezes absolutos desconhecidos.

Mesmo aqueles que usam as plataformas digitais de partilha sem uma intenção séria, acabam por nelas registar uma quantidade de informação tão espectacularmente vasta que o assunto pouco sério ganha num ápice um nível de seriedade que impressiona. Não termos disso consciência é ainda mais impactante.

Na verdade quase todos os “utilizadores” das redes deixam nelas provas múltiplas de estupidez circunstancial ou duradoura. A impulsividade e a reactividade imperam, o ruído deixa pouco espaço para a “conversa” e a avalanche de informação impede qualquer tipo de utilização profunda de um meio que todos os dias assume maior peso na estruturação das relações que estabelecemos com pessoas e instituições.

Plataformas digitais como o facebook ou o twitter parecem convidar-nos a opinar sobre tudo, tomar partido sobre assuntos relativamente aos quais pouco ou nada sabemos, amplificam uma certa arrogância inata que devemos – creio eu – refrear ao máximo.

As redes sociais não são apenas um meio. São um meio que está a alterar como nenhum outro a forma como o ser humano se relaciona com o mundo: o estabelecimento e o “cultivo” das relações com pessoas e grupos, a forma como absorvemos e assimilamos informação, o estilo de estruturação do pensamento e a expressão do mesmo sob a forma de palavras.

Eu sinto essa alteração em mim e não gosto dela.

#3 Nas redes sociais digitais falamos sozinho, na ilusão de estarmos falando para uma multidão

Outro aspecto profundamente absurdo do contexto das relações digitais é a sensação de estarmos a ser ouvidos (lidos) quando na realidade poucos são aqueles que verdadeiramente leem a informação que partilhamos.

Sobre o assunto já escrevi antes e não me vou repetir. Os argumentos estão escritos na ligação que deixo aos eventuais leitores deste texto: “A minha relação de amor-ódiocom o Facebook” (21.07.2016).

#4 Ter saudades dos outros

O quarto argumento também não é novo, e sei que já escrevi sobre ele de forma detalhada noutra ocasião: o facebook – as redes digitais de partilha, de uma forma geral – proporcionam-nos um excesso de informação sobre os outros, criando a ilusão – e por vezes não apenas a ilusão... - de que andamos sempre com os amigos, família e conhecidos ao nosso lado. Os momentos de (necessária) solidão são assim não raras vezes invadidos, e por outro lado a sensação de nada saber sobre um amigo, familiar ou conhecido durante um período de tempo relevante está a matar um sentimento salutar e necessário que era comum antes do advento da era digital: as saudades do outro.

Eu gosto de ter saudades das pessoas de quem gosto. O facebook castrou-me de forma violenta a saudade do outro.

#5 As redes sociais são uma lente que medeia em parte a nossa relação com o mundo

… e é na verdade uma lente que desfoca mais do que foca.

A sucessão de entradas na página de “feeds” está a superficializar a forma como lemos, interpretamos e pensamos sobre as coisas da vida. O plural é aqui particularmente correcto porque de facto sinto que a maior parte de nós está mesmo a ser condicionada por uma nova forma de consumo (consumo, mesmo) acelerado e superficial de informação.

Não seria capaz de explicar este processo melhor do que o fez Nicholas Carr em “Os superficiais”, livrinho traduzido para português e publicado pela Gradiva que a todos aconselho. É ler, em papel. De preferência no mesmo período durante o qual habitualmente cada um de nós está (no que à concentração da sua atenção diz respeito) nas redes sociais digitais.

#6 Cada vez mais Personagens de Marketing

Erich Fromm introduziu na literatura o conceito de “personagem de marketing”, aplicado às pessoas comuns. As redes digitais deram a estas personagens, que no fundo somos todos nós (de uma forma ou de outra) um palco inesgotável de auto-promoção, deformação da auto-imagem, amplificação de aspectos e simultâneo encobrimento de outros (tal como se faz em publicidade...). As consequências desta forma de estar ainda não estão totalmente avaliadas, mas parecem-me terríveis.

Sinto que ao longo dos anos me fui aproximando em aspectos decisivos do conceito de Fromm, e isso é naturalmente assustador. Também vi muito persnagens de Fromm à minha volta, e o que impressiona é a total ignorância dos mesmos face ao que lhes está acontecendo.

#7 O novo colonialismo entre pares

José Saramago definia a tentativa de convencer o outro como uma certa forma de colonização. Ora, há no seio das plataformas digitais de “socialização” uma dimensão de colonização alheia que não apenas sofri como sobretudo venho praticando, muito em contradição com aquilo que aparentemente penso (e esrevo aparentemente porque se a prática é o critério da verdade, se calhar não penso que julgo que penso...). Desactivar a minha conta resolve, pelo menos parcialmente, essa tendência para procurar convencer o outro, “vender o meu peixe”.

21/07/2016

A minha relação de amor-ódio com o facebook

Quando era miúdo fui a Londres com o meu pai e com a minha irmã mais nova, que hoje é a do meio. Nesses dias tive a oportunidade de conhecer alguns dos lugares mais emblemáticos da cidade, entre os quais o chamado "speaker's corner" no Hyde Park. Lembro-me de dois ou três cavalheiros em cima de bancos de cozinha, discursando num inglês que era então para mim indecifrável, e em torno deles pequenas multidões que se iam manifestando com palmas ou apupos. Achei tudo aquilo notável, e só anos mais tarde me apercebi da ratoeira psicológica que o "speaker's corner" comporta. Uma ratoeira semelhante àquela inerente à falsa percepção da existência de um auditório associada ao mundo da comunicação e da partilha de informação, ideias e outros conteúdos digitais...

A minha relação de amor-ódio com o facebook tem várias raízes e esta é precisamente uma delas: a partilha de conteúdos dá-nos a falsa percepção de chegarmos a muita gente ao mesmo tempo, gera em nós um sentimento de comunicação efectiva com outros quando a verdade não poderia ser, na generalidade dos casos, mais longínqua.

Na rede social somos não raras vezes um "speaker" que fala e por vezes grita para uma sala cheia de gente entretida ou ocupada com outros assuntos. A disponibilidade alheia é tanto menor quanto mais sério for o assunto que procuramos tratar. E na verdade raros são aqueles que, passados os olhos pelo título, a imagem ou a "boca para a geral" partilhada, se dão ao trabalho de abrir o link associado.

O tempo é de consumo acelerado de informação, já o sabemos. Mais do que três parágrafos é um testamento, mais do que minuto e meio de vídeo é longa-metragem, mais do que quatro minutos de canção é "prog". E perante este cenário resta-nos a persistência para furar a barreira de distracção ou o poder de exercer o direito de permanecer calados. Isto, claro está, quando a lógica de utilização da rede social não se restringe à partilha de conteúdos desprovidos de uma intenção mais profunda do que uma reacção momentânea. "Gosto".

Ando portanto nesta coisa de me apaixonar e desapaixonar pela rede social dia-sim-dia-sim, dando por vezes maior atenção às suas vantagens associadas e noutras circunstâncias ao elefante no centro da sala.


[fotografia]

23/03/2016

Bruxelas, o Expresso e a política de direita.

O Expresso, que foi incapaz de dar destaque à nota de imprensa do PCP sobre os atentados de Bruxelas, compôs uma peça bastante infeliz [2] acerca de um post isolado e descontextualizado do Miguel Tiago no Facebook [3].

O post em questão é este: "Tal como a pobreza, a fome, o desemprego, os baixos salários, a criminalidade, a guerra, a degradação cultural, artística, social e ambiental, também o terrorismo é resultado da acção dos NOSSOS governos. Se queremos resolver o terrorismo, temos de acabar com a política de direita aqui. Se queremos só fingir que resolvemos para que mais tarde o terrorismo caia mais violento ainda sobre nós, basta agitar as bandeiras do ódio. As mesmas que, pintadas com estrelinhas sobre um fundo azul, com ou sem riscas vermelhas, se fizeram passar por bandeiras da democracia." [3]

Curiosamente o primeiro comentário ao post do Miguel Tiago é meu: na circunstância escrevi "nem mais", em jeito de absoluta concordância com aquilo que escreveu o Miguel. Voltaria a fazê-lo, por razões que já explicitei ontem e às quais acrescento novos argumentos hoje. Já lá vamos.

15/02/2016

"Deception"

Existe na língua inglesa uma palavra que resume a coisa de uma forma bastante clara e global. A palavra é "deception" e creio que não tem uma homóloga na língua portuguesa, que é muito mais específica (e talvez por isso muito menos económica) no que à expressão de ideias e sentimentos diz respeito. "Deception" será qualquer coisa como o processo de engano (ou de auto-engano) por meio da difusão de mensagens, ou da adopção de comportamentos, aparentemente verdadeiros que criam no outro (ou no próprio) uma percepção ilusória - e errada - sobre determinado assunto ou objecto.

O facebook - as ferramentas de "social media", aliás - criou nas gentes uma percepção que temo ser errada sobre o potencial de difusão das suas mensagens, ideias, opiniões e "partilhas". Partilhamos e julgamos que o mundo - o nosso ou aquele que está para além do círculo mais ou menos apertado das nossas relações - beneficia da nossa partilha, que lhe presta atenção, que a analisa. Mas na verdade estamos quase sempre "falando" sozinhos, ficamos ilusoriamente convencidos de que falamos para uma sala cheia quando noventa e nove por cento das cadeiras estão vazias. "Deception".

16/11/2015

França, o Facebook e a infantilização do debate político


Os acontecimentos de Paris desencadearam reacções naturais e compreensíveis que, num mundo tomado por formas de individualismo sectário, se expressaram sobretudo através das redes sociais.

As redes sociais são, sabemo-lo bem, espaços cuja estrutura, o ambiente e a lógica muito convidam ao conflito. Elas maximizam a agressividade natural de muitos de nós. São também “lugares” não pensados para debates profundos sobre temas que ultrapassem a superficialidade do penalty duvidoso. Ninguém lê 4000 caracteres publicados num comentário a uma notícia, ou ao “post” de um amigo, mesmo quando não há outra forma de explicar de forma clara uma opinião sem recurso a 4000 caracteres.