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17/05/2019

Coleira

Alexandra David-Néel [ADN] ficou célebre como esoterista e viajante especialmente versada no lamaísmo, que é uma versão tibetana do budismo. De ADN li "Viagem ao Tibete" e "No rasto de místicos e mágicos do Tibete", livros que se vinculam a uma fase da sua vida em que o ideário radical de "Pela vida" ["Pour la vie", de 1898] já não teria a força dos primeiros anos da sua vida adulta. Em "Pela vida", David-Néel escreve sobre a liberdade e a força repressiva da autoridade, distingue obediência circunstancial - forçada pelo chicote - de obediência voluntária - forçada pela resignação e pelo convencimento. E usa a imagem da coleira a fechar um dos capítulos do livro ["Quem é que obriga os homens a contrariarem a sua natureza, a submeterem-se, senão os próprios homens? Caso um só dentre ele houvesse concebido a ideia de fazer-se obedecer, como poderia consegui-lo sem o consentimento das massas sempre prontas a afeiçoar o pescoço à coleira?"]. Nem de propósito li à alguns dias atrás uma notícia do "El País" sobre um estudo comparativo entre o comportamento social dos cães domesticados e os lobos selvagens. A peça jornalística resumia a coisa com o seguinte título: "Os cães perderam o sentido da solidariedade ao domesticarem-se" [a tradução é minha e não é feliz, reconheço, mas o sentido é totalmente perceptível]. No corpo da notícia lê-se que perante um problema apresentado a cães e lobos pelos investigadores, "los lobos tuvieron un comportamiento notablemente solidario hacia sus compañeros de grupo y les proporcionaban comida muy por encima de los escenarios de control establecidos por los científicos". Pelo contrário, os cães civilizados "no mostraron ninguna respuesta prosocial hacia su compañero". Como se a coleira não lhes roubasse apenas a liberdade mas também - e sobretudo - o sentido de pertença a algo maior do que a sua relação com o dono. A frase por ventura mais célebre de "Pela vida" diz que "obedecer é morrer", metaforicamente falando. A obediência é muitas vezes garantia de sobrevivência, ainda que sobrevivência seja apenas uma certa forma de vida. O que parece absolutamente claro é que obedecer é esquecer o outro - o semelhante - e o próprio.



[fotografia: John Marriott / https://wildernessprints.com/]

10/05/2019

A história da caixa ou a narrativa da restauração da harmonia

"Pensar fora da caixa". O slogan anda por aí, enfeitando apresentações e dando colorido a conversas - cada vez mais raras, pelo menos fora dos ecrãs. Todos desejamos abrir a caixa e meter o nosso pensamento fora das seis faces do cubo onde aparentemente o temos fechado. E no entanto quase ninguém o consegue fazer. Porquê? Talvez a primeira razão seja precisamente o facto de não nos colocarmos frequentemente a questão "porquê?" ou, cumulativamente, outras questões [outros "porquê?"] que funcionem como desbloqueador do pensamento sobre os assuntos da vida. Não fazemos prolongar a "idade dos porquês" vida-fora e pagamos bem caro esse acesso à maturidade-pragmática, caracterizada pela capacidade de fazer sem perceber muito bem a razão pela qual fazemos o que fazemos. É estúpido, certo? George Monbiot tem pensado e escrito sobre o assunto. A sua perspectiva sobre ele resume-se basicamente numa ideia simples: estamos prisioneiros desde há séculos de uma narrativa maniqueísta, que serve de base para uma série de propostas políticas [entendidas na sua versão programática e não apenas "avulsa"] e que funciona como um género de caixote apertado que contém a criatividade e sobretudo funciona como cerca do pensamento [um género de fronteiras do razoável]. A narrativa de que fala Monbiot é simples mas extremamente poderosa no que se refere à captura da atenção das pessoas comuns: um vilão - pessoa, instituição ou sistema -, gerador de mau estar e bloqueador do progresso, é confrontado por um herói - pessoa, instituição ou sistema - que o derrota e estabelece um novo rumo de prosperidade, felicidade e harmonia. Só que esta versão dos acontecimentos já não serve, é gerador de mais do mesmo. E eu, que passei boa parte da minha vida adulta cheio de certezas sobre o passado, o presente e o futuro, sinto exactamente o mesmo que Monbiot; creio que a sua reflexão sobre a importância das narrativas é chave para a interpretação do presente e sobretudo fundamental para percebermos como vamos sair da monumental borrada em que nos vamos metendo, já não de forma "progressiva" [e "progressiva" aqui tem duplo sentido...] mas desgovernada, acelerada e imprevisível.

07/06/2016

O maior [e mais cruel] sistema prisional do mundo

[fotografias: Sad Animals in the Zoo]

"eu vivo numa sociedade, que é pior que uma animalidade" *

A minha filha mais velha visitará em breve um parque zoológico. Não o fará comigo; a visita é da responsabilidade da escola. Sou um declarado e radical opositor dos parques zoológicos - com uma ou duas excepções tipológicas - e o assunto deu-me que pensar. A C. irá porque é essa a sua vontade, ponto. Em todo o caso hoje falámos do assunto e a C. está ciente de que encontrará atrás das grades seres com formas de consciência que ainda não compreendemos plenamente, capazes de sentir dor, tristeza e, à sua maneira, saudade. A visita ao parque em questão tem pelo menos uma vantagem: observar in loco animais selvagens cativos sem razão de outros que se declaram não selvagens permitirá aos miúdos compreender que aqueles a quem chamamos selvagens e inferiores não fingem felicidade (desde logo porque não a sentem de facto...) na sua condição de cativos. Os animais selvagens não são servos voluntários no recinto antropológico em que contra a sua vontade foram encerrados. Poderão os "superiores" humanos dizer o mesmo?

[fotografias: Sad Animals in the Zoo]
* "Rastaman", Ena Pá 2000, "Álbum bronco"

20/05/2016

O negócio da Novilíngua

Num tempo em que as pessoas comuns se distanciaram da participação cívica e política clássica - as razões desse afastamento são relevantes mas, no caso concreto, laterais - as empresas (onde de resto passam a esmagadora maioria do tempo útil das suas vidas) assumiram o papel de doutrinação - através de treino técnico e formas de doutrinação ideológica não raras vezes manipuladora - que outrora pertenceu aos homens e às mulheres dedicados à intervenção política e social. O Grande Irmão do século XXI já não é um líder político; ele é o CEO "de referência" num plano macro e o conselho de administração da organização em que cada um de nós trabalho, num plano mais local. É neste contexto que surgem fenómenos de reformulação de linguagem, com impacto directo nas super-estruturas ideológicas da sociedade. Os "empreendedores" são exemplos, mesmo quando o empreendedorismo que empreendem representa elevadíssimos custos sociais, económicos, políticos, ambientais e humanos. Um novo dicionário da economia capitalismo do século XXI varreu do discurso normalizado dos "colaboradores" e chefias expressões ou palavras menos rentáveis, subversivas, perigosas, expansivas, incongruentes com os processos de normalização em curso. Nas organizações modernas não existem problemas, "apenas desafios e soluções"; a linguagem foi limpa de expressão "negativas", todas reformuladas "pela positiva"; os estrangeirismos roubaram uso e significado à inimaginável riqueza da língua materna. O patrão deixou de ser patrão e o trabalhador não trabalha: colabora. A (de)formação ideológica da sociedade capitalista do século XXI é feita 8 a 12 horas por dia, nos locais de trabalho. E curiosamente é precisamente nos locais de trabalho que reside a semente da esperança de uma mudança radical, em direcção não a novas formas de chegar ao mesmo viver, mas antes a novas formas de construir um novo viver.