Mostrar mensagens com a etiqueta escócia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta escócia. Mostrar todas as mensagens

29/06/2016

Era uma vez um palerma

Quando em 2014 existiu uma perspectiva real para a vitória da opção independentista no referendo escocês sobre o fim da ocupação britânica (que leva longos séculos) a União Europeia não regateou esforços e foi um dos participantes externos mais empenhados na vitória do "Não" que derrotou a ideia de uma Escócia por fim livre e soberana, separada da coroa britânica e da sua natureza imperial. Nas semanas anteriores ao referendo a propaganda do medo foi utilizada sem contenção. O Público noticiava por exemplo que "ao longo das últimas semanas, a imprensa britânica tem citado vários altos funcionários europeus não identificados a garantir que é consensual na Comissão o entendimento de que uma Escócia independente teria de voltar a pedir a integração na União Europeia, processo que calculam poder demorar cinco ou seis anos".

Menos de dois anos depois o quadro alterou-se, e perante a decisão da maioria dos votantes do Reino Unido de deixar a União Europeia, Juncker veio estender a mão aos mesmíssimos escoceses que em 2014 via como uma ameaça à estabilidade da "União": "A Escócia ganhou o direito de ser ouvida". A hipocrisia não tem limites.

Muitos escoceses, agradecidos, aproveitarão a condescendência "europeia" e tudo farão para que uma Escócia soberana, livre da tutela dos vizinhos do sul, possa ver finalmente a luz do dia. Eu, que não sou escocês, olho para esta oportunidade como a triste prova de que os mecanismos de "integração europeia" não passam de expedientes ao serviço dos interesses do momento. A "Europa" (leia-se, a União Europeia) não tem princípios, como este caso particular demonstra de forma cristalina. Os escoceses poderão saltar da frigideira britânica para o caldeirão comunitário. Mas ficarão cientes de que sem "Brexit" os burocratas de Bruxelas jamais lhes concederiam "o direito de ser ouvida". A eventual (e desejável) independência da Escócia terá sido, nestas circunstâncias, muito mais do que o desfecho de um longo processo de luta dos escoceses, um esquema contorcionista da "Europa" franco-alemã. A mesma que há dois anos contribuiu activamente para que "o direito a ser ouvida" fosse espezinhado.