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15/04/2019

Pular a cerca

Sou um confesso fã da escrita do jornalista Paulo Moura. Leio-o sempre que posso e agora ouço-o também semanalmente, à segunda-feira ou quando calha, na sua crónica semanal na Antena1. Acontece frequentemente olharmos o mesmo assunto de prismas diferentes, o que funciona quase sempre como um elemento mais de dúvida que acrescento às minhas certezas, e isso só pode ser saudável, digo eu. Hoje porém não fui capaz de encontrar na sua crónica sobre a detenção de Julian Assange nenhum elemento novo, a perspectiva é gasta e o argumento baseado no mais repetido lugar comum. De resto parece-me absurda a ideia de que o jornalismo é um género de fiscal do status quo, que funciona simultaneamente como válvula de escape, torneira de segurança, do "sistema". Ou se calhar é mas não deveria ser, sobretudo porque a ordem instituída é alicerçada na mentira e o jornalismo digno desse nome será sempre, a par de outros nobres aspectos caracterizadores, um género de caça à mentira. Ao ouvir esta manhã Paulo Moura lembrei-me de uma sessão sobre "o digital" em que participei na passada semana, e durante a qual uma assistência silenciosa e em plateia levou durante longos minutos com um discurso vestido de novo mas todo ele velho como os trapos sobre as vantagens da "digitalização" - da transferência para "o digital" - dos manuais escolares. E eu ouvia e perguntava-me em silêncio se naquela multidão haveriam mais do que meia-dúzia de pessoas percebendo que a discussão que interessa não é sobre o suporte em que usamos os manuais na escola - se em papel ou projectados no quadro interactivo - mas antes sobre a própria utilização do manual escolar. Quase nada liga a crónica de Paulo Moura e o debate sobre "o digital". E no entanto uma coisa e a outra são expressões de uma mesma lógica que impera nas aparentemente "livres" sociedades modernas deste final de década, em pleno século XXI: a incapacidade de problematizar fora das fronteiras da situação. O status quo é verdadeiramente a pátria mental da Humanidade. Resistir é preciso. Pular a cerca é fundamental.

Créditos: ROB PINNEY/LNP/REX/SHUTTERSTOCK.

03/08/2016

Matemática [ou porque razão têm grades as Escolas onde metemos os nossos miúdos?*]

Os "maus resultados" verificados em provas e exames de matemática são motivo recorrente de notícias de Verão. A propósito dos resultados verificados este ano, "a presidente da Associação de Professores de Matemática considera que é urgente rever o programa da disciplina no ensino básico", acrescentando que "o programa é uma das principais causas para o afastamento dos alunos em relação a esta disciplina".

O programa, leio por aí, tem três anos de vigência, vinculando-se ao período de Nuno Crato (ele próprio matemático) como Ministro com a tutela da educação. Não me espanta que Lurdes Figueiral tema que o dito cujo "aumentar a aversão dos alunos à Matemática".

Antes de colocar a questão que me parece essencial faço uma nota prévia para lembrar que aquilo que provas e exames explicitam não é o que o aluno sabe, mas apenas aquilo que, relativamente ao enunciado em questão, o aluno não soube responder de acordo com o critério de correcção. Assim, tal como o próprio Crato, não tiro conclusões muito definitivas tendo por base resultados de provas e exames (em todo o caso por razões diametralmente opostas...).

Posto isto, creio que é tempo da Escola procurar compreender as razões do "insucesso" e sobretudo da desmotivação de alunos e professores face ao que dentro delas se passa indo um pouco além do óbvio (os programas, as condições materiais, os problemas administrativos do costume, a colocação de professores, etc...). O óbvio é fundamental, claro está. Em todo o caso não esgota o assunto.

A Escola do século XXI tem cumprido um movimento de involução que assusta. Exemplo dessa tendência foi (é?) o ressurgimento da ideia de disciplinas nucleares, dentro de uma hierarquização que define língua materna e inglês, matemática e ciências naturais como disciplinas fundamentais face a outras acessórias. Ou a segmentação de conteúdos, programas e abordagens entre disciplinas (as nucleares e as outras), que funcionam como uma espécie de quintas que apenas por via da boa vontade dos professores se vão cruzando aqui e ali, proporcionando ao "discente" uma visão alargada da vida através dos "programas" e respectiva exploração pedagógica.

Pode o ME reformular programas, rever "metas curriculares", endurecer regimes de examinação (já há quem o exija, num género de fuga desvairada em direcção ao precipício), reforçar horas das disciplinas "nucleares" e trucidar as restantes que apenas interessarão a líricos do romantismo que não compreende ser a Escola uma fábrica de produção de mão-de-obra mais ou menos qualificada, dependendo da classe social de origem e, por vezes, das próprias "capacidades" do discente. Temo bem que nada disto resolva o problema base de um insucesso que tem na própria Escola a sua base de inesgotável renovação.


* resposta: para que não possam fugir delas.

07/06/2016

O maior [e mais cruel] sistema prisional do mundo

[fotografias: Sad Animals in the Zoo]

"eu vivo numa sociedade, que é pior que uma animalidade" *

A minha filha mais velha visitará em breve um parque zoológico. Não o fará comigo; a visita é da responsabilidade da escola. Sou um declarado e radical opositor dos parques zoológicos - com uma ou duas excepções tipológicas - e o assunto deu-me que pensar. A C. irá porque é essa a sua vontade, ponto. Em todo o caso hoje falámos do assunto e a C. está ciente de que encontrará atrás das grades seres com formas de consciência que ainda não compreendemos plenamente, capazes de sentir dor, tristeza e, à sua maneira, saudade. A visita ao parque em questão tem pelo menos uma vantagem: observar in loco animais selvagens cativos sem razão de outros que se declaram não selvagens permitirá aos miúdos compreender que aqueles a quem chamamos selvagens e inferiores não fingem felicidade (desde logo porque não a sentem de facto...) na sua condição de cativos. Os animais selvagens não são servos voluntários no recinto antropológico em que contra a sua vontade foram encerrados. Poderão os "superiores" humanos dizer o mesmo?

[fotografias: Sad Animals in the Zoo]
* "Rastaman", Ena Pá 2000, "Álbum bronco"

02/02/2016

10 regras para ignorar olímpica e conscientemente

Leio as dez regras que Javier Urra sugere que sejam impostas às crianças [1] e interrogo-me se o autor considera que estas são igualmente aplicáveis aos adultos (por exemplo, deve ou não um pai "não interromper os mais novos quando estão a falar"?). Leio as suas orientações para uma "ordem eficaz" [2] e pergunto-me se a noção que Urra tem de família - e de "ordem" - foi construída num quartel militar. Confronto-me com a sua acusação - "Os pais têm medo de ser pais. Têm medo de dizer 'não', de enfrentar os filhos e de os castigar" - e verifico que seria bem mais interessante perceber se a dificuldade de muitos país relativamente à repressão do "não" tem outras razões que não essa conclusão meio vazio relativamente ao "medo" do papel que entretanto assumiram por força das circunstâncias da vida.

Cada família saberá como se organiza, como funciona, mas na minha dispenso a "obediência" - coisa que no entanto valorizaria muito se tivesse um pastor-alemão ou um dálmata - e evito ao máximo as "instruções". E sei bem que nem sempre as coisas são assim, mas a "ordem" entre nós é assegurada pela partilha de responsabilidades, pelo envolvimento dos mais pequenos nas decisões, pela reciprocidade das regras e pela firmeza da camaradagem. Desprezamos a hierarquia, o medo e a punição.

03/12/2015

Professores J.Evans Pritchard indígenas

As reacções da direita ao fim dos exames nacionais prosseguem mas a argumentação utilizada deixa de lado qualquer tipo de preocupação pedagógica relevante. O assunto é ideológico, naturalmente; todavia, se houvesse nos exames algum mérito pedagógico (técnico) relevante seriamos obrigados a reconhecê-lo. Até ao momento ninguém foi capaz de o identificar com clareza.

De resto creio que há um aspecto fundamental a ter em conta no discurso reaccionário sobre os exames em particular e sobre a educação em geral: a ideia de "disciplina nuclear". Não é por acaso que os exames do 4º ano se centravam no português e na matemática, deixando todavia de lado o português e a matemática aplicadas noutros conteúdos.
 

Em Portugal continuamos a achar que saber português implica conhecer a métrica da poesia camoniana ignorando todavia a sua beleza intrínseca. Trata-se naturalmente de uma aberração. "Excrement", diria o saudoso professor Keating.

30/11/2015

Sem sentido

A sub-directora do JN, Inês Cardoso, dedica hoje um texto de opinião [1] ao tema da eliminação dos exames nacionais do 1º ciclo, no qual refere que "concordar com a medida não é, no entanto, sinónimo de considerar correto que o diploma aprovado na Assembleia da República tenha efeitos já este ano". Acrescenta logo de seguida que "professores e alunos têm um calendário de partida, quando arrancam as aulas em setembro. Têm um planeamento, objetivos fixados e momentos de avaliação calendarizados". Leio o texto da sub-directora do JN e recordo as palavras da aluna Sofia Rosa, que se perguntava meio perdida para que serviriam as aulas se já não existem exames [2].

27/11/2015

"Treinar para nada"


A peça que o Público preparou sobre o tema dos exames do 4º ano é um documento notável que torna ainda mais clara a necessidade de colocar um ponto final na lógica perversa da imposição de exames a meninos e meninas que terminam a primeira fase da sua longa vida académica [1]. Creio mesmo que não haverá depoimento mais esclarecedor do que aquele da aluna Sofia Rosa, que perante o cenário de ausência de exames se pergunta para que serviram os três anos "a treinar" desde o 2º de escolaridade. A resposta, Sofia, é simples: para aprender.

A ideia de que apenas exames são capazes de fechar um ciclo de aprendizagem é legítima mas extremamente limitada e anacrónica. A sua pior consequência é aquela que podemos ler claramente em depoimentos e opiniões como aqueles que o próprio sistema impôs aos miúdos: a percepção de que as aulas servem para preparar exames ("Isto tudo para nada?", pergunta-se a Sofia), que por sua vez prepararam os alunos para exames futuros, que são um género de simulação de uma vida durante a qual somos examinados todos os dias. Triste, não é?

30/10/2015

O paradigma Crato no discurso público em torno da "educação" ["Another brick in the wall"]

Não fixei o nome da escola nem da respectiva associação de pais, mas compreendi que a situação é mais ou menos esta: uma escola com contrato de autonomia permanece sem professores numa disciplina considerada "nuclear"; a associação de pais insurgiu-se contra a situação, o que é natural, embora me pareça que pelas piores razões: o que preocupa os pais não é tanto que os miúdos se vejam impossibilitados de abordar os temas contidos no programa da tal disciplina (facto que é, em si mesmo, toda uma discussão à parte), coisa que no sistema de instrução tradicional requer a presença de professor qualificado; o problema parece ser outro: o exame, a sua preparação e, claro está, a desvantagem em que os seus filhos se encontram face a outros alunos que já preparam o chamado "momento da verdade".