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29/08/2016

Affluenza, o livro de auto-ajuda que recusa ser de auto-ajuda.

Em "Affluenza" o autor Oliver James pinta-nos um quadro arrepiante da relação entre o capitalismo (o "capitalismo egoísta", como lhe chama), o consumo compulsivo e diferentes formas de perturbação e doença mental, com destaque para a depressão clínica.


O livro divide-se em duas partes fundamentais: uma primeira que procura caracterizar a situação da "Affluenza" nos países economicamente mais pujantes e uma segunda na qual o autor sugere-se "vacinas" (respostas) para a epidemia.

Não posso afirmar que ler "Affluenza" tenha sido uma perda de tempo (porque na verdade não foi), mas creio que existem na obra três problemas fundamentais, que não pude ignorar:

1. O autor faz o retrato da "Affluenza" através do exemplo de seres humanos que vivem num contexto económico e social atípico, caracterizado por conforto económico muito acima da média dos seus países; ora, a fundamentação do problema à luz da experiência de vida dos ricos ou dos super-ricos pode criar no leitor a impressão de que a relação entre capitalismo e doença mental, consumo e esvaziamento da vida, são elementos específicos da condição das pessoas do topo da pirâmide económica das sociedades. Como bem sabemos, não é assim.

2. O livro, que aborda o interessante conceito da "Personagem de Marketing", de Erich Fromm, ainda deixa de fora da reflexão que propõe o espectacular - e triste - efeito das chamadas redes sociais na criação de auto-imagens e de imagens promovidas pelos próprios junto dos outros que são na verdade desfasadas face à realidade das vidas fora da "rede".

3. Sendo um livro que parece recusar a sua pertença ao domínio dos livros de auto-ajuda, "Affluenza" não deixa de cair na tentação de sugerir mais respostas do que motivar perguntas. E é uma pena. A obra coloca em cima da mesa um conjunto de preocupações centrais do nosso tempo, relacionando o modelo económico, político, social, cultural e ambiental em que nos encontramos imersos com a espectacular explosão das mais diversas formas de perturbação mental; porém, não parece resistir à disponibilização de receitas, quando essa lógica de "pronta a consumir" é precisamente uma das características mais negativas e nocivas do capitalismo.

Em suma, "Affluenza" é interessante e merece a pena ser lido. A leitura deverá ser crítica e distanciada, naturalmente. Em todo o caso, crítica e distância é postura que se deve aplicar a qualquer leitura.

06/01/2016

Os "maluquinhos" entre nós

A doença mental é o patinho feio de entre todo o tipo de enfermidades que ao longo da vida – de forma consistente ou passageira – podem afectar um ser humano. Reparem: eu não estou a dizer que as doenças mentais são piores do que outras que, afectando o funcionamento psíquico do ser humano, têm origens físicas. Há doenças tramadas por aí e a forma como cada ser humano as enfrenta é todo um outro debate relativamente ao qual não me sinto preparado nem, com toda a franqueza, interessado. O que aqui escrevo é diferente: a doença mental é em regra incompreendida e desvalorizada pelo comum dos mortais; consequentemente, aquele que se vê a braços com uma condição psicológica alterada sente-se não raras vezes sozinho e desacompanhado num dia-a-dia martelado pelas circunstâncias da doença que o afecta.