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01/03/2019

A coisificação dos atletas

A coisificação dos atletas é um dos preços a pagar pela mercantilização do desporto. No desporto negócio os atletas são, muito mais do que assalariados dependentes da prática eficaz e reconhecida, bem transaccionáveis e mercadorias com valor de mercado precário e mais ou menos efémero. Esta circunstância condiciona fortemente a percepção que os adeptos - os fãs - têm sobre a sua dimensão atlética e, para além desta, sobre a sua realidade de homem/mulher para lá da prática desportiva mediaticamente enquadrada.

O atleta de alta-competição é hoje um género de personagem numa narrativa construída em torno de si e que não raras vezes tem pouca relação directa com a verdade da sua vida quotidiana; esta contradição é explorada com sucesso no documentário "The hurt business" [2016] de Vlad Yudin, uma reflexão sobre a realidade do "MMA" antes de Connor McGregor [o filme não o refere de todo...] e do negócio de milhares de milhões construído em torno dos novos gladiadores do século XXI.

O adepto do MMA raramente parece concentrar a sua atenção e interesse na dimensão técnica e atlética dos combates e o negócio percebe e explora esta fragilidade da relação desporto-fã com grande sucesso. É precisamente o surgimento em massa de um fã fundamentalmente ignorante relativamente à dimensão técnica da modalidade que força o negócio - os promotores - a introduzirem no contexto específico do MMA todo o conjunto de eventos paralelos aos combates que conduzem à desumanização e desqualificação do atleta perante os olhos do mundo. Refiro-me por exemplo às conferências de imprensa simultâneas de adversários, marcadas quase sempre por um nível de desrespeito [efectivo ou simulado] e provocação sem paralelo noutros contextos desportivos.

O filme é interessante, vale bem a pena procurá-lo.


[imagem]

08/05/2016

Jodorowsky's Dune

Ando há muitos dias a digerir o extraordinário documentário "Jodorowsky's Dune", filme que Frank Pavich dedicou à obra nunca finalizada pelo chileno Alejandro Jodorowsky com base no imortal romance "Duna", de Frank Herbert. O documentário é a todos os níveis inspirador. Nele, Jodorowsky revela com clareza um sonho que levou tão longe quanto possível. O filme que idealizou, e que em larga medida preparou com a ajuda de uma equipa de jovens talentosos que mais tarde acabariam por integrar equipas envolvidas na produção de grandes filmes do cinema universal, nunca chegou à fase de rodagem, mas a storyboard não apenas existe como sobreviverá, concretizada cena a cena, plano a plano, ao próprio Jodorowsk.

O que em "Jodorowsky's Dune" impressiona é por um lado a noção que o próprio Jodorowsky foi capaz de transmitir à sua equipa, com honestidade, convicção e clareza, de que o seu "Dune" seria uma obra de arte profundamente revolucionária, capaz de impactar de forma ímpar todos aqueles que tivessem a oportunidade de a apreciar; por outro lado, impressiona a forma como Jodorowsky foi - e ainda é - afectado pela recusa dos grandes estúdios relativamente à possibilidade de realizar a obra que sonhou e, de certa forma, concretizou até ao ponto que a sua autonomia lhe permitia. Jodorowsky é um homem rico mas, de certa forma, o filme revela que fortuna nenhuma substituirá alguma vez o filme que nunca teve a oportunidade de levar avante.

O documentário é poderoso, divertido, inspirador.

20/04/2016

"O olhar do silêncio", de Joshua Oppenheimer

Acredito sinceramente que contar histórias verdadeiras é um exercício cinematográfico bem mais complexo do que montar uma narrativa de ficção. A realidade é não raras vezes mais estranha do que a fantasia e em "O olhar do silêncio", de Joshua Oppenheimer, a história dos milhões de indonésios afectados pela repressão política que se seguiu ao golpe militar, em meados dos anos 60 do século XX, revela-nos aspectos da natureza humana com os quais não nos gostamos de confrontar. Mais de um milhão de homens e mulheres - muitos comunistas, outros apenas suspeitos de pertencerem ou simpatizarem com o histórico PKI - foram barbaramente assassinados entre 1965  e 1966.


16/04/2016

Citizen Four

"From now, know that every border you cross, every purchase you make, every call you dial, every cell phone tower you pass, friend you keep, article you write, site you visit, subject line you type, and packet you route, is in the hands of a system whose reach is unlimited but whose safeguards are not. Your victimization by the NSA system means that you are well aware of the threat that unrestricted, secret abilities pose for democracies. This is a story that few but you can tell."

[texto completo aqui]


18/02/2016

Aaron Swartz

Ao ler a peça publicada no DN acerca de Alexandra Elbakyan e do projecto Sci-Hub [1] lembrei-me de Aaron Swartz [2], "The internet's own boy" [3], detido em Janeiro de 2011 por afrontar o negócio milionário da venda de artigos científicos que na sua essência são património da Humanidade. E todos os motivos são bons para recordar Aaron Swartz.



Notas:
[1] "Rouba artigos científicos aos ricos para os dar a toda a gente", DN, 18.02.2016.
[2] Aaron Swartz, Wikipédia.
[3] "The internet's own boy" [documentário].