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06/06/2019
Interrogação [na ressaca do Portugal x Suiça]
Existe uma dimensão religiosa na vivência do fenómeno desportivo que se expressa na prática de diversas formas, incluindo na higienização dos ídolos, face reversa da outra mais comercial, que passa pela sua transformação primeiro em marca e depois em mercadoria destinada ao ciclo de promoção, compra, venda e/ou troca. Para as grandes massas, os ídolos são seres relativamente aos quais não se imaginam pecados, ou cujos pecados - quando conhecidos - são grosseiramente ignorados, por se considerem de valor inferior ao ganho - material e imaterial - que o ídolo em acção proporciona à comunidade como um todo e a cada um dos seus membros em particular. Ronaldo, por exemplo, é hoje tema de conversa um pouco por todo o país e, claro está, pelo mundo fora. Os três golos com que despachou a Suiça na meia-final da presente edição da Liga das Nações são bem a prova da qualidade do jogador, depois catapultada pela já referida dimensão religiosa na vivência do fenómeno desportivo para uma dimensão supra-desportiva que é, quanto a mim, inteiramente questionável. Nem sempre um jogador de excelência é uma pessoa cuja conduta fora de campo merece semelhante admiração. Na verdade - e isto não se aplica apenas a jogadores de futebol - o ser humano é por natureza um poço de contradições e conflitos que se agudizam quando a vida lhe proporciona os meios para lhes dar maior dimensão. Como aconteceu a Ronaldo. É que o homem que ontem subiu - uma vez mais - aos píncaros do mérito desportivo, para gáudio - natural e justificado - daqueles que vibram com a selecção portuguesa de futebol sénior masculina é o mesmo ser que se encontra desde o início de 2019 condenado a 23 meses de cadeia [depois substituídos por uma multa de 360.000,00€] mais uma multa de 18.800.000,00€ [perto de 19 milhões de euros] por fraude fiscal. E isto não sou capaz de ignorar, quer na minha visão sobre quem é Cristiano Ronaldo no quadro da psicologia colectiva deste povo, quer na forma como interpreto a absolvição colectiva que lhe atribuímos enquanto condenamos - moralmente - qualquer pobre apanhado em delito cujo grau de gravidade é infinitamente menor. Pode um povo sem paciência para os miseráveis que acusa de "viverem do Estado" curvar-se perante quem, independentemente de méritos desportivos, pratica contra o Estado e os seus recursos "fraude fiscal" envolvendo valores astronómicos para o bolso da esmagadora maioria?
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29/05/2019
"Beds Are Burning"
Ouvia esta manhã a muito aconselhada crónica radiofónica de Rui Cardoso Martins, todas as quartas-feiras pelas 8h35 na Antena1, durante a qual citava a adolescente da moda, Greta Thunberg, que em tirada de antologia terá dito que enquanto tudo à volta arde "os nossos pais debatem o final da Guerra dos Tronos". Eu ouvi e lembrei-me de uma canção antiga, de 1987, à qual os australianos Mignight Oil chamaram "Beds are burning". A canção tem o mesmíssimo sentido da observação de Greta, chamando a atenção à a imensa degradação ambiental a par da ainda maior indiferença que em 1987 - como de resto hoje... - se sentia [1]. De resto os Midnight Oil não foram os primeiros a dizê-lo nem depois de 1987 houve um hiato de quase 30 anos sem que ninguém viesse a terreiro avisar que a banda do Titanic continua a tocar enquanto todos os anos desaparecem milhares de espécies animais e vegetais, milhões de hectares de floresta são destruídos, centenas de rios são dizimados, milhões de seres humanos são ameaçados pelos efeitos directos e indirectos da devastação que o sistema de engorda de poucos impõe a uma imensa maioria apática. E eu, que até sou fã de Greta, fico a pensar se independentemente das suas intenções e do valor do seu exemplo e mensagem, a jovem Thunberg não foi já transformada em santa de altar do ecologismo da moda, colorido e new-age, fundamentalmente inconsequente e indolor para os detentores dos comandos do mundo; aquela ecologia que recusa sacos de plástico no supermercado mas não está disposta a lutar por alterações profundas e radicais [no sentido em que atacam a raiz dos problemas] que passam inevitavelmente pela superação [revolucionária] do capitalismo.
[1] "How can we dance when our earth is turning? / How do we sleep while our beds are burning?".
[1] "How can we dance when our earth is turning? / How do we sleep while our beds are burning?".
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24/05/2019
23/05/2019
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21/05/2019
"Surplus"
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10/05/2019
A história da caixa ou a narrativa da restauração da harmonia
"Pensar fora da caixa". O slogan anda por aí, enfeitando apresentações e dando colorido a conversas - cada vez mais raras, pelo menos fora dos ecrãs. Todos desejamos abrir a caixa e meter o nosso pensamento fora das seis faces do cubo onde aparentemente o temos fechado. E no entanto quase ninguém o consegue fazer. Porquê? Talvez a primeira razão seja precisamente o facto de não nos colocarmos frequentemente a questão "porquê?" ou, cumulativamente, outras questões [outros "porquê?"] que funcionem como desbloqueador do pensamento sobre os assuntos da vida. Não fazemos prolongar a "idade dos porquês" vida-fora e pagamos bem caro esse acesso à maturidade-pragmática, caracterizada pela capacidade de fazer sem perceber muito bem a razão pela qual fazemos o que fazemos. É estúpido, certo? George Monbiot tem pensado e escrito sobre o assunto. A sua perspectiva sobre ele resume-se basicamente numa ideia simples: estamos prisioneiros desde há séculos de uma narrativa maniqueísta, que serve de base para uma série de propostas políticas [entendidas na sua versão programática e não apenas "avulsa"] e que funciona como um género de caixote apertado que contém a criatividade e sobretudo funciona como cerca do pensamento [um género de fronteiras do razoável]. A narrativa de que fala Monbiot é simples mas extremamente poderosa no que se refere à captura da atenção das pessoas comuns: um vilão - pessoa, instituição ou sistema -, gerador de mau estar e bloqueador do progresso, é confrontado por um herói - pessoa, instituição ou sistema - que o derrota e estabelece um novo rumo de prosperidade, felicidade e harmonia. Só que esta versão dos acontecimentos já não serve, é gerador de mais do mesmo. E eu, que passei boa parte da minha vida adulta cheio de certezas sobre o passado, o presente e o futuro, sinto exactamente o mesmo que Monbiot; creio que a sua reflexão sobre a importância das narrativas é chave para a interpretação do presente e sobretudo fundamental para percebermos como vamos sair da monumental borrada em que nos vamos metendo, já não de forma "progressiva" [e "progressiva" aqui tem duplo sentido...] mas desgovernada, acelerada e imprevisível.
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15/03/2019
5 notas sobre a "greve" dos estudantes em defesa do ambiente
#1. o principal mérito da iniciativa será o facto de mobilizar para lutas da vida real, fora do ambiente controlado e não raras vezes estéril das redes sociais, uma geração que cresce em casa, escolas e grupos marcadamente cépticos relativamente à eficácia e à legitimidade dos movimentos de massas. Miúdos nas ruas gritando palavras de ordem em torno de uma ideia - de várias ideias - em que verdadeiramente acreditam tem um valor pedagógico muitíssimo superior a uma manhã de aulas chatas, repetitivas e em torno de currículos absurdos, que lhes dão muito mais sono do que entusiasmo.
#2. a escola tradicional tem aliás desempenhado um papel chave na domesticação do ser humano, por via da separação entre aprendizagem e vida - tão bem ilustrada pelas cercas levantadas à volta dos pavilhões de cimento onde "se aprende" aquilo que comissões de sábios decidiram que crianças de 6, 10 ou 15 anos deverão "aprender" - e também por via de programas escolares que reforçam verdadeiramente a percepção de separação entre "civilização" e mundo natural.
#3. a religião do crescimento económico, nomeadamente na sua definição capitalista associada a métricas de produção de riqueza, é aliás parte integrante da "pedagogia" escolar e mediática todos os dias debitada - e apreendida sem espírito crítico - perante as multidões fascinadas pelos grandes temas [cuja compreensão lhes escapa totalmente] mas desligadas da soma de pequenos-grandes problemas que são as causas reais do sintoma em que concentram a sua atenção.
#4. a reboque da "greve" de hoje já vi e li o habitual discurso da dissolução das responsabilidades, muito comum quando se pretende criar a percepção de que na verdade a culpa é simultaneamente de todos e de ninguém em particular.
#5. assim, para os mais interessados noutras perspectivas sobre o assunto deixo uma sugestão: o documentário "the fuck-it point". Sem mais.
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29/08/2016
Ultimate Cash Crop, Your Children! (Affluenza)
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21/08/2016
Rio2016
[texto originalmente publicado no Manifesto74, a 19.08.2016]
Tenho grande dificuldade em reflectir de forma racional sobre os JO. Por razões de natureza pessoal, que não vou detalhar neste espaço, e por razões ideológicas, que afastam a minha visão dos Jogos daquela que é dominante no conjunto não apenas da sociedade portuguesa mas também, temo bem, por esse mundo fora.
Cresci a ver os Jogos, a treinar ao lado de atletas olímpicos, a ambicionar participar nos Jogos e a beber tudo aquilo que, há vinte anos, a televisão, os jornais e as revistas davam a conhecer sobre o mais importante evento desportivo-competitivo do calendário da maior parte das modalidades que foram até há alguns anos atrás predominantemente amadoras.
E porque vivi por dentro, de certa forma, a obsessão olímpica sinto-me sempre bastante dividido na hora de olhar os vários Jogos que existem dentro dos Jogos. Tenho uma opinião sobre os JO enquanto evento, hoje totalmente desligado do chamado "espírito olímpico", e outra bem diferente sobre a generalidade dos torneios olímpicos, que são a essência daquilo que resta do movimento olímpico acarinhado por atletas, treinadores e comunidades desportivas nacionais.
Os JO de Verão 2016 estão a terminar - seguem-se os Paralímpicos (ou Paraolímpicos) - e neste momento já é possível perceber que a missão olímpica portuguesa obteve resultados magníficos, traduzidos através não apenas de uma medalha e vários diplomas olímpicos mas também - e na minha modesta opinião, sobretudo - da diversificação das representações olímpicas nacionais em modalidades e disciplinas fundamentalmente individuais. Da missão olímpica portuguesa fizeram (fazem) parte atletas distribuídos por modalidades relativamente às quais a generalidade dos portugueses desconhece em absoluto a realidade competitiva nacional. Quantos de nós conhecem verdadeiramente o que se passa em Portugal ao nível do Badminton, da Ginástica Desportiva, da Canoagem ou do Hipismo? O meu maior contentamento é ver uma representação olímpica portuguesa envolvida em vários torneios e, dentro destes, em diversas provas, especialidades e distâncias.
Portugal não tem uma tradição relevante de prática desportiva não federada. O nosso número de atletas federado é - sejamos honestos - ridículo e mal distribuído por modalidades e federações. O reduzido campo de recrutamento dos clubes e federações conduz aliás à disputa de atletas, realidade que ilustra bem as fracas possibilidades que o desporto nacional ainda vai alimentando relativamente à possibilidade de disputar de forma continuada resultados mediaticamente relevantes nas provas para as quais todos os olhos se voltam de tantos em tantos anos: Europeus, Mundiais e, naturalmente, Jogos Olímpicos.
Por outro lado as condições financeiras e materiais ao dispor dos atletas federados são na generalidade das modalidades risíveis, quando comparadas com aquelas existentes nos países que lideram os chamados "medalheiros" olímpicos. Um bom exemplo desta realidade diz respeito à natação, modalidade muito mediatizada no panorama olímpico, mas que em Portugal conheceu até há poucos anos atrás um atraso ao nível das infraestruturas que deveria envergonhar um país que cobra constantemente resultados para os quais pouco ou nada contribui ao longo dos anos de preparação de cada ciclo olímpico.
Nada do que escrevo é novo nem original. Aliás, houve quem a partir do Rio de Janeiro o lembrasse através das câmaras da RTP: "querem resultados? dêem-nos condições!". Não são tretas, desculpas de mau pagador, queixumes sem fundo de verdade; pelo contrário: os atletas nacionais registam de forma geral desempenhos comparados muito superior às condições (também comparadas) de que dispõem. Acontece que temos uma tendência natural para nos colocarmos num plano de desenvolvimento geral e de capacidade desportiva que não encontra correspondência com as realidades de um e outro indicador. E grandes expectativas geram não raras vezes brutais trambolhões.
O país coloca-se às costas de anónimos trazidos para a ribalta mediática durante quinze dias, e perante resultados que não compreende solta a sua boçalidade de algibeira em cima daqueles que tudo deram - e de que tudo se privaram... - nas respectivas competições. Portugal ganha, fulano ou fulana perde, "falha a final", "desilude" quem se iludiu com base em consultas apressadas de notícias descontextualizadas, pesquisas no Google, vídeos no Youtube. Depois a coisa passa para a generalidade de nós, ausentes do ciclo olímpico entretanto iniciado, mas não passa para atletas cujo impacto físico, social, psicológico e por vezes financeiro da sua entrega à competição é muitas vezes um verdadeiro triturador de vidas.
Os Jogos do Rio foram uma notável demonstração da vitalidade do desporto nacional, contra todas as expectativas, contra todas as barreiras, obstáculos e deficiência de condições. Não me resta, relativamente à representação olímpica nacional, nada que não seja gratidão e orgulho. Estão de parabéns os atletas, os seus clubes, treinadores, dirigentes (quase todos amadores, quase todos sacrificando a sua vida pessoal por amor ao desporto) e, de certa forma, Abril, o momento em que a democracia chegou também ao desporto.
Seja como for não tenho - nunca tive - a obsessão do medalheiro, esse entretém mediático que desfigura o olimpismo, e que arrasta tanta gente para reflexões apressadas, injustas, descontextualizadas e ultra-competitivas acerca de um evento que deveria ter no ouro, na prata e no bronze um pormenor e nunca a sua essência fundamental.
Tenho grande dificuldade em reflectir de forma racional sobre os JO. Por razões de natureza pessoal, que não vou detalhar neste espaço, e por razões ideológicas, que afastam a minha visão dos Jogos daquela que é dominante no conjunto não apenas da sociedade portuguesa mas também, temo bem, por esse mundo fora.
Cresci a ver os Jogos, a treinar ao lado de atletas olímpicos, a ambicionar participar nos Jogos e a beber tudo aquilo que, há vinte anos, a televisão, os jornais e as revistas davam a conhecer sobre o mais importante evento desportivo-competitivo do calendário da maior parte das modalidades que foram até há alguns anos atrás predominantemente amadoras.
E porque vivi por dentro, de certa forma, a obsessão olímpica sinto-me sempre bastante dividido na hora de olhar os vários Jogos que existem dentro dos Jogos. Tenho uma opinião sobre os JO enquanto evento, hoje totalmente desligado do chamado "espírito olímpico", e outra bem diferente sobre a generalidade dos torneios olímpicos, que são a essência daquilo que resta do movimento olímpico acarinhado por atletas, treinadores e comunidades desportivas nacionais.
Os JO de Verão 2016 estão a terminar - seguem-se os Paralímpicos (ou Paraolímpicos) - e neste momento já é possível perceber que a missão olímpica portuguesa obteve resultados magníficos, traduzidos através não apenas de uma medalha e vários diplomas olímpicos mas também - e na minha modesta opinião, sobretudo - da diversificação das representações olímpicas nacionais em modalidades e disciplinas fundamentalmente individuais. Da missão olímpica portuguesa fizeram (fazem) parte atletas distribuídos por modalidades relativamente às quais a generalidade dos portugueses desconhece em absoluto a realidade competitiva nacional. Quantos de nós conhecem verdadeiramente o que se passa em Portugal ao nível do Badminton, da Ginástica Desportiva, da Canoagem ou do Hipismo? O meu maior contentamento é ver uma representação olímpica portuguesa envolvida em vários torneios e, dentro destes, em diversas provas, especialidades e distâncias.
Portugal não tem uma tradição relevante de prática desportiva não federada. O nosso número de atletas federado é - sejamos honestos - ridículo e mal distribuído por modalidades e federações. O reduzido campo de recrutamento dos clubes e federações conduz aliás à disputa de atletas, realidade que ilustra bem as fracas possibilidades que o desporto nacional ainda vai alimentando relativamente à possibilidade de disputar de forma continuada resultados mediaticamente relevantes nas provas para as quais todos os olhos se voltam de tantos em tantos anos: Europeus, Mundiais e, naturalmente, Jogos Olímpicos.
Por outro lado as condições financeiras e materiais ao dispor dos atletas federados são na generalidade das modalidades risíveis, quando comparadas com aquelas existentes nos países que lideram os chamados "medalheiros" olímpicos. Um bom exemplo desta realidade diz respeito à natação, modalidade muito mediatizada no panorama olímpico, mas que em Portugal conheceu até há poucos anos atrás um atraso ao nível das infraestruturas que deveria envergonhar um país que cobra constantemente resultados para os quais pouco ou nada contribui ao longo dos anos de preparação de cada ciclo olímpico.
Nada do que escrevo é novo nem original. Aliás, houve quem a partir do Rio de Janeiro o lembrasse através das câmaras da RTP: "querem resultados? dêem-nos condições!". Não são tretas, desculpas de mau pagador, queixumes sem fundo de verdade; pelo contrário: os atletas nacionais registam de forma geral desempenhos comparados muito superior às condições (também comparadas) de que dispõem. Acontece que temos uma tendência natural para nos colocarmos num plano de desenvolvimento geral e de capacidade desportiva que não encontra correspondência com as realidades de um e outro indicador. E grandes expectativas geram não raras vezes brutais trambolhões.
O país coloca-se às costas de anónimos trazidos para a ribalta mediática durante quinze dias, e perante resultados que não compreende solta a sua boçalidade de algibeira em cima daqueles que tudo deram - e de que tudo se privaram... - nas respectivas competições. Portugal ganha, fulano ou fulana perde, "falha a final", "desilude" quem se iludiu com base em consultas apressadas de notícias descontextualizadas, pesquisas no Google, vídeos no Youtube. Depois a coisa passa para a generalidade de nós, ausentes do ciclo olímpico entretanto iniciado, mas não passa para atletas cujo impacto físico, social, psicológico e por vezes financeiro da sua entrega à competição é muitas vezes um verdadeiro triturador de vidas.
Os Jogos do Rio foram uma notável demonstração da vitalidade do desporto nacional, contra todas as expectativas, contra todas as barreiras, obstáculos e deficiência de condições. Não me resta, relativamente à representação olímpica nacional, nada que não seja gratidão e orgulho. Estão de parabéns os atletas, os seus clubes, treinadores, dirigentes (quase todos amadores, quase todos sacrificando a sua vida pessoal por amor ao desporto) e, de certa forma, Abril, o momento em que a democracia chegou também ao desporto.
Seja como for não tenho - nunca tive - a obsessão do medalheiro, esse entretém mediático que desfigura o olimpismo, e que arrasta tanta gente para reflexões apressadas, injustas, descontextualizadas e ultra-competitivas acerca de um evento que deveria ter no ouro, na prata e no bronze um pormenor e nunca a sua essência fundamental.
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28/07/2016
As dores da necessidade de coerência enquanto postura ética perante a Vida [1]
A incoerência doí-me. E no entanto ela é, praticamente do princípio ao fim, a consequência da vida que levo. Viver de forma coerente implicaria assumir na prática quotidiana uma série de comportamentos e atitudes que chocariam de forma frontal e violenta com o paradigma social dominante. Ora, a necessidade de coerência mantém-se permanentemente abafada pela comodidade da conformação, o que significa viver quase sempre em contradição com o que penso. Acção desconforme com o pensamento é incoerência no seu sentido superior. E se a prática é de facto o critério da verdade, então é muito provável que a minha incoerência seja na realidade uma outra forma de coerência.
Leio "Ecologia Profunda: dar prioridade à natureza na nossa vida", de Bill Devall e George Sessions, e observo a minha própria incapacidade de viver de acordo com aquilo em que afirmo acreditar desvelar-se como as pedras deixadas ao ar pelo recuo do mar a caminho da baixa-mar. E no entanto sinto-me incapaz de tomar uma atitude - constituída por uma imensidão de pequenas atitudes - que resolva este conflito aparentemente simples.
Por outro lado não veja uma possibilidade objectiva de devolver coerência verdadeira - ou seja, correspondência entre pensamento e acção - ao meu dia-a-dia. O mundo parece formatado para nos conduzir de regresso ao carreiro e as alternativas que me parecem exequíveis estão, elas próprias, pejadas de incoerência. Como o ser que resolve abster-se de consumir carne (por razões éticas e ambientais) passando a comer milho geneticamente modificado, soja plantada em solo anteriormente ocupado por floresta virgem ou produtos biológicos vindos do lado de lá do mundo, carregados de "pegada", exploração ou ambas.
Em "Ecologia Profunda" atrai-me a ideia de biorregião como unidade territorial identitária no seio da qual projectos de autonomia e democracia mais próxima do real (e literal) sentido do conceito poderão desenvolver-se em harmonia com outras formas de viver em absoluta contradição com aquela que defendo. Atrai-me o conceito de acção directa que resolva o muito cómodo argumento da ineficácia da acção isolado do ser humano face à indiferença do mundo em seu torno. O movimento da Ecologia Profunda parece-me um passo em frente no sentido de uma maior coerência pacificadora.
Como dar o passo mantendo pontes com a vida anterior, ou com aqueles que se mantêm apegados ao paradigma social dominante?
Como manter essas pontes sem que estas minem a ideia - e mais do que esta, a prática - de coerência que queremos transpor para a nossa vida?
A reflexão mantém-se e as perplexidades somam-se.
As certezas perdem densidade e a dúvida como método ganha terreno.
Estarei mais próximo da coerência que procuro? Ou será que a própria ideia de coerência (e incoerência) não passa de uma quimera e de um grilhão demasiado pesado para ser transportado a toda a hora, fixando-me repetidamente no mesmo ponto de partida, como Sísifo e a famosa pedra que transportada montanha a cima rolava logo depois até ao sopé do grande monte?
Leio "Ecologia Profunda: dar prioridade à natureza na nossa vida", de Bill Devall e George Sessions, e observo a minha própria incapacidade de viver de acordo com aquilo em que afirmo acreditar desvelar-se como as pedras deixadas ao ar pelo recuo do mar a caminho da baixa-mar. E no entanto sinto-me incapaz de tomar uma atitude - constituída por uma imensidão de pequenas atitudes - que resolva este conflito aparentemente simples.
Por outro lado não veja uma possibilidade objectiva de devolver coerência verdadeira - ou seja, correspondência entre pensamento e acção - ao meu dia-a-dia. O mundo parece formatado para nos conduzir de regresso ao carreiro e as alternativas que me parecem exequíveis estão, elas próprias, pejadas de incoerência. Como o ser que resolve abster-se de consumir carne (por razões éticas e ambientais) passando a comer milho geneticamente modificado, soja plantada em solo anteriormente ocupado por floresta virgem ou produtos biológicos vindos do lado de lá do mundo, carregados de "pegada", exploração ou ambas.
Em "Ecologia Profunda" atrai-me a ideia de biorregião como unidade territorial identitária no seio da qual projectos de autonomia e democracia mais próxima do real (e literal) sentido do conceito poderão desenvolver-se em harmonia com outras formas de viver em absoluta contradição com aquela que defendo. Atrai-me o conceito de acção directa que resolva o muito cómodo argumento da ineficácia da acção isolado do ser humano face à indiferença do mundo em seu torno. O movimento da Ecologia Profunda parece-me um passo em frente no sentido de uma maior coerência pacificadora.
Como dar o passo mantendo pontes com a vida anterior, ou com aqueles que se mantêm apegados ao paradigma social dominante?
Como manter essas pontes sem que estas minem a ideia - e mais do que esta, a prática - de coerência que queremos transpor para a nossa vida?
A reflexão mantém-se e as perplexidades somam-se.
As certezas perdem densidade e a dúvida como método ganha terreno.
Estarei mais próximo da coerência que procuro? Ou será que a própria ideia de coerência (e incoerência) não passa de uma quimera e de um grilhão demasiado pesado para ser transportado a toda a hora, fixando-me repetidamente no mesmo ponto de partida, como Sísifo e a famosa pedra que transportada montanha a cima rolava logo depois até ao sopé do grande monte?
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20/06/2016
o perdócio
Não entrarei no debate sobre os limites éticos de um jornalismo que abandonou desde há muito o seu nobre ideal para transferir a sua actividade primordial para a produção de conteúdos que, através de implacável (e por vezes desenvergonhada) "caça ao clique", procuram reduzir o "perdócio"* em que se foi transformando por falta objectiva de leitores que considerem serem dignas as publicações existentes dos poucos euros que trazem consigo nas carteiras. O que direi sem especular, ou sem entrar em debates para os quais não me sinto totalmente preparado, é que raramente leio uma notícia correcta e exacta no âmbito dos temas que verdadeiramente conheço e domino. Não creio que a falta de exactidão dos jornais se deva fundamentalmente a compromissos não assumidos dos jornalistas com determinado projecto editorial que não tem nem na informação de qualidade o seu motivo primeiro de existir; pelo contrário, penso que a generalidade dos jornalistas acredita naquilo que faz e faz o melhor que pode. O que acontece é que alguns podem pouco, e os que mais podem não têm a liberdade necessária para vencer a inércia e a falta de vontade das suas direcções empresariais. O Público, por exemplo, já foi um jornal digno de se ler. Hoje é fonte para se ir consultando, de vez em quando, de forma cirúrgico (porque subsistem no seu seio jornalistas). O "perdócio"* não é uma contribuição desinteressada, filantrópica, género de mecenato, do mega-grupo económico que o detém. O "perdócio"* continua porque nem tudo é perda, nem tudo é prejuízo. Outros valores se levantam, outros objectivos se concretizam. De entre estes, poucos contribuem de facto para a Democracia.
[* Belmiro de Azevedo, dono do Público, classificou em 2013 o jornal como um "perdócio" - ou seja um negócio sem ganhos e que acumula perdas financeiras - com 25 anos]
[* Belmiro de Azevedo, dono do Público, classificou em 2013 o jornal como um "perdócio" - ou seja um negócio sem ganhos e que acumula perdas financeiras - com 25 anos]
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13/06/2016
a Revolução não contará com um SAC* subcontratado a empresa especializada em gestão operacional de centros de interacção com o cliente...**
"Quando Sandra disse que estava grávida o seu contrato a 15 dias caducou. Operadora de call center da PT recebeu carta de rescisão, já em casa, de baixa. Empresa diz desconhecer o caso. A Sofia Rijo, o patrão terá justificado que as mulheres “quando têm filhos não querem trabalhar”. "
* Serviço de Apoio ao Cliente.
** ... e isso me deixa feliz.
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futebol mod€rno
Tenho a ideia de que não é compatível louvar a luta contra o futebol moderno e, ao mesmo tempo, enfardar quantidade industriais de futebol FIFA e UEFA, da "Champions League" ao Euro2016. São coisas que não casam. O homem, por outro lado, é o bicho da contradição, sendo que esta vive em todos nós - e nos colectivos que formamos -, o que não é bom nem mau, é como é. Eu resolvi mandar o futebol mod€rno à merda. Não me interessa, não me motiva, não me desperta paixão alguma. Futebol mod€rno é sinómino de tudo aquilo que deploro na sociedade humana. Puta que o pariu, portanto.
[foto: ruínas do mítico Estádio Eng.º Vidal Pinheiro, o do Salgueiros, Paranhos, Cidade do Porto]
[foto: ruínas do mítico Estádio Eng.º Vidal Pinheiro, o do Salgueiros, Paranhos, Cidade do Porto]
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09/06/2016
Freak Show 2.0
Fiquei a saber, através da denúncia do Bruno Carvalho, que a "Mundial Eventos" organiza despedidas de solteiro e solteira que poderão envolver "espectáculos de striptease com anões, bowling com anões e arremesso de anões". Após a denúncia, o Bruno recebeu uma mensagem de Paulo Raposo, da "Mundial Eventos", na qual o empreendedor não apenas tenta desqualificar o Bruno como procura colar o negócio que desenvolve ao "mundo do espectáculo". O mundo pós-moderno é isto. Não me espanta que assim seja, confesso. Apenas me espanta que contra ele não se levante com a violência que se impõe o clamor dos humildes.
[Circus Dwarf, Palisades, New Jersey, 1958]
[Circus Dwarf, Palisades, New Jersey, 1958]
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07/06/2016
O maior [e mais cruel] sistema prisional do mundo
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"eu vivo numa sociedade, que é pior que uma animalidade" *
A minha filha mais velha visitará em breve um parque zoológico. Não o fará comigo; a visita é da responsabilidade da escola. Sou um declarado e radical opositor dos parques zoológicos - com uma ou duas excepções tipológicas - e o assunto deu-me que pensar. A C. irá porque é essa a sua vontade, ponto. Em todo o caso hoje falámos do assunto e a C. está ciente de que encontrará atrás das grades seres com formas de consciência que ainda não compreendemos plenamente, capazes de sentir dor, tristeza e, à sua maneira, saudade. A visita ao parque em questão tem pelo menos uma vantagem: observar in loco animais selvagens cativos sem razão de outros que se declaram não selvagens permitirá aos miúdos compreender que aqueles a quem chamamos selvagens e inferiores não fingem felicidade (desde logo porque não a sentem de facto...) na sua condição de cativos. Os animais selvagens não são servos voluntários no recinto antropológico em que contra a sua vontade foram encerrados. Poderão os "superiores" humanos dizer o mesmo?
[fotografias: Sad Animals in the Zoo]
* "Rastaman", Ena Pá 2000, "Álbum bronco"
[fotografias: Sad Animals in the Zoo]
* "Rastaman", Ena Pá 2000, "Álbum bronco"
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28/05/2016
80
A coisa faz parte da estratégia de obsolescência estética que, a par da tecnológica, garante a muitas marcas a renovação do guarda-roupa e dos chamados "gadgets" de muita gente ano-sim-ano-sim. Em 200? a moda era as flanelas "grunge" dos anos 90, em 2016 a moda são os ténis brancos e as calças manchadas de gola alta dos anos 80. Um gajo acorda certo dia e pensa que viajou numa máquina do tempo até ao triste Portugal cavaquista, no qual a miséria dos salários em atraso e os regulares espancamentos policiais conviviam lado a lado com a ascensão dos novos yuppies portugueses inspirados pelo sr. Patrick Bateman de Bret Easton Ellis. Uma certa forma de cyberpunk. Muitos dirão que a bimbice dos 80's está de volta mas a mim parece-me que nunca se foi. O yuppie que vivia dentro de muita gente acordou; e os putos que nunca tiveram dentro de si um yuppie admirador das piadas de mau gosto do Bonzo de Washington continuam a ignorar quem foi Reagan, apesar de usarem sobre a pele o estilo estético que se desenvolveu naqueles anos lamentáveis de afirmação do individualismo mais cru. Os seres superficiais que somos são filhos da década que inspira a moda deste ano de 2016. Se querem ressuscitar os 80's tenham ao menos a decência de não instrumentalizar a música dos The Clash, que já vou ouvindo por aí nos templos da religião consumista imperante.
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27/05/2016
Timóteo 6:10 *
"Pois o amor ao dinheiro é uma fonte de todos os tipos de males. E algumas pessoas, por quererem tanto ter dinheiro, se desviaram da fé e encheram a sua vida de sofrimentos."
* numa parede da Rua Marquês Sá da Bandeira, em Lisboa.
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26/05/2016
Uma certa forma de fascismo na escola.
A propósito do julgamento "por difamação" a que está a ser sujeita a mãe de Diogo Macedo, aluno de um pólo da Universidade Lusíada falecido na sequência de uma praxe explicitamente violenta, tenho relido textos antigos e retomado reflexões de outros tempos sobre "a praxe" e o seu significado no contexto académico e social mais vasto; neste contexto, o que mais me espanta não é a complacência do poder político ou a inoperância das direcções das escolas; o que mais me espanta é a voluntária submissão de boa parte dos alunos "caloiros", que sujeitos às mais degradantes e absurdas humilhações participam na coisa sem a resistência que se impunha e impõe. A Maria de Fátima Macedo, a minha inteira solidariedade.
[imagem do filme "Praxis"]
[imagem do filme "Praxis"]
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24/05/2016
Bullet With Butterfly Wings
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