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10/08/2016

Jornalismo [parte não sei quantas]

No primeiro capítulo da edição portuguesa de "História da Comuna de 1871", de Prosper-Olivier Lissagaray, pode ler-se as observações do autor sobre o fecho por parte do governo de Thiers, registado a 11 de Março, de quatro jornais republicanos: o Cri du peuple (dirigido por Jules Vallès), o Mot d'ordre, o Pére Duchêne e o Vengeur. Estes jornais tinham, naquela época história do século XIX, numa Paris com pouco mais de um milhão de habitantes, tiragens de 200.000 exemplares, que eram lidos e discutidos. Impressiona.

Quase 150 anos depois, jornais com 200.000 exemplares de tiragem em Portugal só tablóides ou desportivos recolhidos ao final do dia por falta de leitores.

A progressiva deterioração da relação entre jornais e leitores não é nova e há certamente factores extrínsecos à própria realidade editorial que a explicam. Por outro lado, declarações como aquelas concedidas pelo jornalista Carlos Santos Pereira em Fevereiro do presente ano ao Jornal de Leiria ajudam-nos a compreender alguns dos factores intrínsecos que completam o quadro:

Foi nessa ocasião que teve divergências com alguns editores que queriam que divulgasse a informação veiculada pelas agências e não a que tinha recolhido?
Sim, tive choques sistemáticos com diversos editores. Mas não fui o único. Martin Bell, um famoso repórter, dizia que tinha mais problemas com os editores do que com os inimigos.

Esses editores duvidavam da informação que tinha investigado?
Não era duvidar. Os editores lidam com uma série de condicionantes: o ambiente informativo, o que a concorrência diz, as expectativas do próprio público. Têm uma perspectiva da informação completamente diferente da do repórter no terreno. Normalmente, somos atirados para um cenário qualquer, em relação ao qual se criou uma visão mais ou menos consensual e, quando chegamos lá, deparamo-nos com realidades bem mais complexas. E o choque é inevitável. Queríamos denunciar e dar uma visão das coisas que não jogava com a linha da NATO e dos EUA. E como a questão da informação era ultra- sensível naquele conflito, havia pressões enormes.

Alguma vez foi censurado ou obrigado a fazer auto-censura?
Nunca deixei. Agora, porem-me a andar ou tentarem evitar que falasse, sim. O caso da Ucrânia é um bom exemplo. Em toda a parte, estava proibido de contar o que vi. Só publiquei a história na Revista de Ciências Militares. Ao contrário do que seria de esperar, a multiplicação dos canais de comunicação e de informação e o acirrar da concorrência tem o efeito de afunilamento. Nunca a informação foi tão uniforme, tão igual. A resposta à concorrência não é tentar fazer diferente do vizinho. É garantir que eu não deixei de dar aquilo que ele também deu

Aos Thiers de 2016 já não se coloca a necessidade de mandar calar publicações. Basta controlá-las através das cúpulas financeiras e de directores/editores de confiança.

29/03/2016

A fotografia e a Comuna de Paris

Li algures - pensei que tivesse sido em "Câmara clara", de Roland Barthes, mas ontem procurei a citação e não a encontrei - que as fotografias dos militantes da Comuna parisiense de 1871 foram utilizadas pelas forças reaccionárias e imperiais para perseguir e massacrar aqueles que entre 18 de Março e 28 de Maio de 1871 transformaram Paris na primeira experiência de governo operário da história. Curiosa e dramática, a função simultaneamente imortalizante e incriminatória das fotografias que, no calor militante da defesa das liberdades democráticas da Comuna, foram feitas e dadas a conhecer.


Foram cerca de 20 mil os communards executados durante a chamada Semaine Sanglante, entre 21 e 28 de Maio. A perseguição aos dirigentes e militantes da Comuna prolongou-se aliás por vários anos, obrigando uns ao exílio, outros a atrozes sofrimentos nas prisões de Louis Adolphe Thiers.