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07/06/2016
O maior [e mais cruel] sistema prisional do mundo
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decrepitude,
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normalização
"eu vivo numa sociedade, que é pior que uma animalidade" *
A minha filha mais velha visitará em breve um parque zoológico. Não o fará comigo; a visita é da responsabilidade da escola. Sou um declarado e radical opositor dos parques zoológicos - com uma ou duas excepções tipológicas - e o assunto deu-me que pensar. A C. irá porque é essa a sua vontade, ponto. Em todo o caso hoje falámos do assunto e a C. está ciente de que encontrará atrás das grades seres com formas de consciência que ainda não compreendemos plenamente, capazes de sentir dor, tristeza e, à sua maneira, saudade. A visita ao parque em questão tem pelo menos uma vantagem: observar in loco animais selvagens cativos sem razão de outros que se declaram não selvagens permitirá aos miúdos compreender que aqueles a quem chamamos selvagens e inferiores não fingem felicidade (desde logo porque não a sentem de facto...) na sua condição de cativos. Os animais selvagens não são servos voluntários no recinto antropológico em que contra a sua vontade foram encerrados. Poderão os "superiores" humanos dizer o mesmo?
[fotografias: Sad Animals in the Zoo]
* "Rastaman", Ena Pá 2000, "Álbum bronco"
[fotografias: Sad Animals in the Zoo]
* "Rastaman", Ena Pá 2000, "Álbum bronco"
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15/05/2016
Hiroshima.
Boris Vian escreveu um livro ao qual chamou "O Outono em Pequim". Acontece que na verdade a história não se passa nem no Outono nem em Pequim. O título escolhido por Vian funciona assim como um mecanismo desconcertante de realçar o absurdo.
Outros homens realçaram o absurdo de outras formas. A agressão, entendida como o acto de aplicar a força sobre semelhantes com a intenção de os submeter à vontade do agressor, é uma forma de absurdo que a natureza inventou e que o Homem refinou com base na sua grotesca inteligência. A justificação da agressão indiscriminada, duradoura e punitiva eleva o absurdo a níveis de intolerável palermice. A bomba de Hiroshima, ao contrário do título de Boris Vian, aconteceu mesmo. A bomba caiu, e Hiroshima - a cidade e a sua gente - pereceu. Não há desculpa (nem desculpas) que possa trazer de volta aqueles que a bomba trucidou, durante e depois daqueles miseráveis dias de Agosto de 1945
Outros homens realçaram o absurdo de outras formas. A agressão, entendida como o acto de aplicar a força sobre semelhantes com a intenção de os submeter à vontade do agressor, é uma forma de absurdo que a natureza inventou e que o Homem refinou com base na sua grotesca inteligência. A justificação da agressão indiscriminada, duradoura e punitiva eleva o absurdo a níveis de intolerável palermice. A bomba de Hiroshima, ao contrário do título de Boris Vian, aconteceu mesmo. A bomba caiu, e Hiroshima - a cidade e a sua gente - pereceu. Não há desculpa (nem desculpas) que possa trazer de volta aqueles que a bomba trucidou, durante e depois daqueles miseráveis dias de Agosto de 1945
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13/05/2016
A estetização do gueto [i]
As recentes notícias sobre o sucesso turístico de um bairro onde o comum dos mortais portugueses recusa ir poderão ter agradado à massa sempre tão receptiva a aparentes "boas notícias". Uma leitura acrítica da novidade poderá levar alguns a exagerar o aspecto superficialmente positivo das romarias de estranjas à Quinta do Mocho. O problema porém é mais profundo e sintetiza-se em poucas palavras: a estetização do gueto não o transforma num lugar agradável porque o gueto permanece gueto. Não há parada de selfies junto aos morais do bairro que transforme as paredes que escondem pobreza, desemprego, exclusão e tristeza em monumentos à inclusão dos pobrezinhos. Os humildes da Quinta do Mocho não precisam de ver as suas lindas paredes brilhando no efémero mundo digital; é as suas vidas reais que anseiam ver valorizadas.
A "alma nova" de que falam os jornais é na verdade uma superficial máscara que deixou de fora do raio da sua influência aquilo de que na verdade diverge. E é por isso risível a tese segundo a qual o projecto de arte urbana a céu aberto que transformou o gueto na "maior galeria de arte urbana a céu aberto da Europa, com mais de 46 pinturas nas fachadas e nas empenas dos prédios" veio "melhorar a imagem do bairro". Não o afirmo por ser esta tese errada (provavelmente é acertada), mas porque a "imagem do bairro" (no fundo, a sua reputação) é coisa que importa muito mais a quem o observa de longe (ou circunstancialmente in loco) do que a quem nele habita todos os dias.
Estou certo de que os homens e mulheres, velhos e crianças, que moram naquele gueto de Loures preferem um bairro exteriormente cuidado a um espaço abandonado à (pouca) sorte das carteiras vazias. Mas as fachadas bonitas não levaram da Quinta do Mocho as tragédias familiares que ali ganharam raízes, não impediram a brutalidade das rusgas policiais impensáveis na Quinta da Marinha nem resolveram ao comum dos mortais os verdadeiros problemas estruturais das vidas hipotecadas daqueles que a maioria de nós despreza.
A Quinta do Mocho transformada em atracção turística fica bem nos jornais mas não deixa de dar corpo àquilo que em "O capitalismo estético na era da globalização" Lipovetsky e Serroy sintetizam da seguinte forma:
As nossas cidades são, em larga medida, a inspiração bizarra de Banksy para a sua tragicamente poética Dismaland.
p.s.: se fosse munícipe de Loures votaria CDU sem qualquer hesitação.
O bairro onde ninguém queria entrar já "recebe mais visitas que os museus"
Liliana Borges
12/05/2016 - 21:44
Depois do sucesso da intervenção no bairro da Quinta do Mocho, a Câmara Munincipal de Loures prepara um festival de arte com escultura, graffiti, fotografia, workshops e concertos e conta com a participação de artistas internacionais.
A "alma nova" de que falam os jornais é na verdade uma superficial máscara que deixou de fora do raio da sua influência aquilo de que na verdade diverge. E é por isso risível a tese segundo a qual o projecto de arte urbana a céu aberto que transformou o gueto na "maior galeria de arte urbana a céu aberto da Europa, com mais de 46 pinturas nas fachadas e nas empenas dos prédios" veio "melhorar a imagem do bairro". Não o afirmo por ser esta tese errada (provavelmente é acertada), mas porque a "imagem do bairro" (no fundo, a sua reputação) é coisa que importa muito mais a quem o observa de longe (ou circunstancialmente in loco) do que a quem nele habita todos os dias.
Estou certo de que os homens e mulheres, velhos e crianças, que moram naquele gueto de Loures preferem um bairro exteriormente cuidado a um espaço abandonado à (pouca) sorte das carteiras vazias. Mas as fachadas bonitas não levaram da Quinta do Mocho as tragédias familiares que ali ganharam raízes, não impediram a brutalidade das rusgas policiais impensáveis na Quinta da Marinha nem resolveram ao comum dos mortais os verdadeiros problemas estruturais das vidas hipotecadas daqueles que a maioria de nós despreza.
A Quinta do Mocho transformada em atracção turística fica bem nos jornais mas não deixa de dar corpo àquilo que em "O capitalismo estético na era da globalização" Lipovetsky e Serroy sintetizam da seguinte forma:
"As estratégias comerciais do capitalismo criativo transestético já não poupam nenhuma esfera. (...) O património reabilitado e encenado à maneira dos cenários cinematoráfico. Os centros urbanos são retocados, encenados, "disneyficados" com o intuito do consumo turístico."
As nossas cidades são, em larga medida, a inspiração bizarra de Banksy para a sua tragicamente poética Dismaland.
p.s.: se fosse munícipe de Loures votaria CDU sem qualquer hesitação.
O bairro onde ninguém queria entrar já "recebe mais visitas que os museus"
Liliana Borges
12/05/2016 - 21:44
Depois do sucesso da intervenção no bairro da Quinta do Mocho, a Câmara Munincipal de Loures prepara um festival de arte com escultura, graffiti, fotografia, workshops e concertos e conta com a participação de artistas internacionais.
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