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15/04/2019

Pular a cerca

Sou um confesso fã da escrita do jornalista Paulo Moura. Leio-o sempre que posso e agora ouço-o também semanalmente, à segunda-feira ou quando calha, na sua crónica semanal na Antena1. Acontece frequentemente olharmos o mesmo assunto de prismas diferentes, o que funciona quase sempre como um elemento mais de dúvida que acrescento às minhas certezas, e isso só pode ser saudável, digo eu. Hoje porém não fui capaz de encontrar na sua crónica sobre a detenção de Julian Assange nenhum elemento novo, a perspectiva é gasta e o argumento baseado no mais repetido lugar comum. De resto parece-me absurda a ideia de que o jornalismo é um género de fiscal do status quo, que funciona simultaneamente como válvula de escape, torneira de segurança, do "sistema". Ou se calhar é mas não deveria ser, sobretudo porque a ordem instituída é alicerçada na mentira e o jornalismo digno desse nome será sempre, a par de outros nobres aspectos caracterizadores, um género de caça à mentira. Ao ouvir esta manhã Paulo Moura lembrei-me de uma sessão sobre "o digital" em que participei na passada semana, e durante a qual uma assistência silenciosa e em plateia levou durante longos minutos com um discurso vestido de novo mas todo ele velho como os trapos sobre as vantagens da "digitalização" - da transferência para "o digital" - dos manuais escolares. E eu ouvia e perguntava-me em silêncio se naquela multidão haveriam mais do que meia-dúzia de pessoas percebendo que a discussão que interessa não é sobre o suporte em que usamos os manuais na escola - se em papel ou projectados no quadro interactivo - mas antes sobre a própria utilização do manual escolar. Quase nada liga a crónica de Paulo Moura e o debate sobre "o digital". E no entanto uma coisa e a outra são expressões de uma mesma lógica que impera nas aparentemente "livres" sociedades modernas deste final de década, em pleno século XXI: a incapacidade de problematizar fora das fronteiras da situação. O status quo é verdadeiramente a pátria mental da Humanidade. Resistir é preciso. Pular a cerca é fundamental.

Créditos: ROB PINNEY/LNP/REX/SHUTTERSTOCK.

30/08/2016

O muro de Doonbeg

O muro que Trump afirma querer erguer na fronteira entre os EUA e o México é o mais conhecido dos muros do debate político actual, mas não é o único. O mundo encontra-se cheio de muros, apesar de parecer que todos caíram em 1989.


Doonbeg é uma pequena povoação do sudoeste irlandês, não muito longe de Limerick e Shannon, locais que me habituei a reverenciar muito por força do Rugby que ali tem não apenas força mas verdadeira implantação popular. Limerick é também célebre por ali ter existido durante breve período uma comuna soviética, a fazer lembrar a 1871. Acontece que o que em 2016 está a colocar Doonbeg no mapa mediático não são nem o Rugby nem a luta dos trabalhadores irlandeses, mas o senhor Trump.

É bom começar por recordar que Trump, o Partido Republicano e a sua facção mais fundamentalista, conhecida por Tea Party, são partidários da tese segundo a qual as alterações climáticas (às quais insistem em chamar "aquecimento global") não passam de um embuste. O programa político e económico de Trump para os EUA tem nesta tese um dos seus alicerces fundamentais, propondo-se assim reverter as tímidas medidas da administração cessante em matéria ambiental, e lançar-se novamente numa disputa pela primeira posição da economia mundial com a China, sem qualquer preocupação relativamente às consequências ambientais resultantes dessa sua bélica estratégia económica.

Ora, a principal demonstração de que Trump conhece - e reconhece - a contradição do seu discurso encontra-se em Doonbeg, onde detém um empreendimento turístico que inclui um campo de golfe bem junto ao mar, e que por se encontrar ameaçado pelo efeito da erosão da costa e pelas tempestades motivou um pedido de Trump junto das autoridades irlandesas para ali ser construído um muro de quase 3 quilómetros, com o objectivo único de proteger o seu investimento dos efeitos das alterações climáticas - e da degradação ambiental evidente - que nos EUA afirma não passarem de embustes com o objectivo de beneficiar a economia chinesa face à americana.

Existem várias semelhantes, vários pontos de intercepção, entre os muros que Trump projecta para um futuro próximo, o mexicano e o irlandês: ambos se fundamentam em visões hipócritas, desinformadas e irresponsáveis face ao futuro. Trump afirma que quem pagará o muro mexicano é precisamente o México, e na Irlanda não será diferente, já que o campo de golfe pode ser seu mas a destruição ambiental com que pretende brindar Doonbeg ficará - a concretizar-se - para os irlandeses, como memória da passagem pela face de terra de um ser não menos populista e perigoso do que criaturas como Benito Mussolini ou Francisco Franco.

É hoje para todos uma evidência que é fundamental derrotar Trump nas eleições norte-americanas de Novembro. O que urge igualmente compreender é que Trump é acima de tudo um símbolo de uma mundivisão dominante, que domina os media, molda consciências, desinforma, mesmo quando maldiz Trump. Ele é a expressão de um sistema económico, social, político, cultural e ambiental que se impõe sobretudo através da inacção das pessoas comuns, esmagadas pelas dificuldades da vida, por horários de trabalho intermináveis, pela pressão do complexo tecnológico-industrial e pela afirmação asfixiante da ideia de consumo - sobretudo tecnológico - como atalho fácil para uma vida mais feliz.

12/04/2016

Made in URSS.

A primeira viagem ao espaço aconteceu há precisamente 55 anos e teve no cosmonauta soviético Iuri Gagarin o seu grande protagonista.

Спасибо Гагарина!