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29/05/2019

"Beds Are Burning"

Ouvia esta manhã a muito aconselhada crónica radiofónica de Rui Cardoso Martins, todas as quartas-feiras pelas 8h35 na Antena1, durante a qual citava a adolescente da moda, Greta Thunberg, que em tirada de antologia terá dito que enquanto tudo à volta arde "os nossos pais debatem o final da Guerra dos Tronos". Eu ouvi e lembrei-me de uma canção antiga, de 1987, à qual os australianos Mignight Oil chamaram "Beds are burning". A canção tem o mesmíssimo sentido da observação de Greta, chamando a atenção à a imensa degradação ambiental a par da ainda maior indiferença que em 1987 - como de resto hoje... - se sentia [1]. De resto os Midnight Oil não foram os primeiros a dizê-lo nem depois de 1987 houve um hiato de quase 30 anos sem que ninguém viesse a terreiro avisar que a banda do Titanic continua a tocar enquanto todos os anos desaparecem milhares de espécies animais e vegetais, milhões de hectares de floresta são destruídos, centenas de rios são dizimados, milhões de seres humanos são ameaçados pelos efeitos directos e indirectos da devastação que o sistema de engorda de poucos impõe a uma imensa maioria apática. E eu, que até sou fã de Greta, fico a pensar se independentemente das suas intenções e do valor do seu exemplo e mensagem, a jovem Thunberg não foi já transformada em santa de altar do ecologismo da moda, colorido e new-age, fundamentalmente inconsequente e indolor para os detentores dos comandos do mundo; aquela ecologia que recusa sacos de plástico no supermercado mas não está disposta a lutar por alterações profundas e radicais [no sentido em que atacam a raiz dos problemas] que passam inevitavelmente pela superação [revolucionária] do capitalismo.



[1] "How can we dance when our earth is turning? / How do we sleep while our beds are burning?".

10/05/2019

A história da caixa ou a narrativa da restauração da harmonia

"Pensar fora da caixa". O slogan anda por aí, enfeitando apresentações e dando colorido a conversas - cada vez mais raras, pelo menos fora dos ecrãs. Todos desejamos abrir a caixa e meter o nosso pensamento fora das seis faces do cubo onde aparentemente o temos fechado. E no entanto quase ninguém o consegue fazer. Porquê? Talvez a primeira razão seja precisamente o facto de não nos colocarmos frequentemente a questão "porquê?" ou, cumulativamente, outras questões [outros "porquê?"] que funcionem como desbloqueador do pensamento sobre os assuntos da vida. Não fazemos prolongar a "idade dos porquês" vida-fora e pagamos bem caro esse acesso à maturidade-pragmática, caracterizada pela capacidade de fazer sem perceber muito bem a razão pela qual fazemos o que fazemos. É estúpido, certo? George Monbiot tem pensado e escrito sobre o assunto. A sua perspectiva sobre ele resume-se basicamente numa ideia simples: estamos prisioneiros desde há séculos de uma narrativa maniqueísta, que serve de base para uma série de propostas políticas [entendidas na sua versão programática e não apenas "avulsa"] e que funciona como um género de caixote apertado que contém a criatividade e sobretudo funciona como cerca do pensamento [um género de fronteiras do razoável]. A narrativa de que fala Monbiot é simples mas extremamente poderosa no que se refere à captura da atenção das pessoas comuns: um vilão - pessoa, instituição ou sistema -, gerador de mau estar e bloqueador do progresso, é confrontado por um herói - pessoa, instituição ou sistema - que o derrota e estabelece um novo rumo de prosperidade, felicidade e harmonia. Só que esta versão dos acontecimentos já não serve, é gerador de mais do mesmo. E eu, que passei boa parte da minha vida adulta cheio de certezas sobre o passado, o presente e o futuro, sinto exactamente o mesmo que Monbiot; creio que a sua reflexão sobre a importância das narrativas é chave para a interpretação do presente e sobretudo fundamental para percebermos como vamos sair da monumental borrada em que nos vamos metendo, já não de forma "progressiva" [e "progressiva" aqui tem duplo sentido...] mas desgovernada, acelerada e imprevisível.

15/04/2019

Pular a cerca

Sou um confesso fã da escrita do jornalista Paulo Moura. Leio-o sempre que posso e agora ouço-o também semanalmente, à segunda-feira ou quando calha, na sua crónica semanal na Antena1. Acontece frequentemente olharmos o mesmo assunto de prismas diferentes, o que funciona quase sempre como um elemento mais de dúvida que acrescento às minhas certezas, e isso só pode ser saudável, digo eu. Hoje porém não fui capaz de encontrar na sua crónica sobre a detenção de Julian Assange nenhum elemento novo, a perspectiva é gasta e o argumento baseado no mais repetido lugar comum. De resto parece-me absurda a ideia de que o jornalismo é um género de fiscal do status quo, que funciona simultaneamente como válvula de escape, torneira de segurança, do "sistema". Ou se calhar é mas não deveria ser, sobretudo porque a ordem instituída é alicerçada na mentira e o jornalismo digno desse nome será sempre, a par de outros nobres aspectos caracterizadores, um género de caça à mentira. Ao ouvir esta manhã Paulo Moura lembrei-me de uma sessão sobre "o digital" em que participei na passada semana, e durante a qual uma assistência silenciosa e em plateia levou durante longos minutos com um discurso vestido de novo mas todo ele velho como os trapos sobre as vantagens da "digitalização" - da transferência para "o digital" - dos manuais escolares. E eu ouvia e perguntava-me em silêncio se naquela multidão haveriam mais do que meia-dúzia de pessoas percebendo que a discussão que interessa não é sobre o suporte em que usamos os manuais na escola - se em papel ou projectados no quadro interactivo - mas antes sobre a própria utilização do manual escolar. Quase nada liga a crónica de Paulo Moura e o debate sobre "o digital". E no entanto uma coisa e a outra são expressões de uma mesma lógica que impera nas aparentemente "livres" sociedades modernas deste final de década, em pleno século XXI: a incapacidade de problematizar fora das fronteiras da situação. O status quo é verdadeiramente a pátria mental da Humanidade. Resistir é preciso. Pular a cerca é fundamental.

Créditos: ROB PINNEY/LNP/REX/SHUTTERSTOCK.

15/03/2019

5 notas sobre a "greve" dos estudantes em defesa do ambiente

#1. o principal mérito da iniciativa será o facto de mobilizar para lutas da vida real, fora do ambiente controlado e não raras vezes estéril das redes sociais, uma geração que cresce em casa, escolas e grupos marcadamente cépticos relativamente à eficácia e à legitimidade dos movimentos de massas. Miúdos nas ruas gritando palavras de ordem em torno de uma ideia - de várias ideias - em que verdadeiramente acreditam tem um valor pedagógico muitíssimo superior a uma manhã de aulas chatas, repetitivas e em torno de currículos absurdos, que lhes dão muito mais sono do que entusiasmo.

#2. a escola tradicional tem aliás desempenhado um papel chave na domesticação do ser humano, por via da separação entre aprendizagem e vida - tão bem ilustrada pelas cercas levantadas à volta dos pavilhões de cimento onde "se aprende" aquilo que comissões de sábios decidiram que crianças de 6, 10 ou 15 anos deverão "aprender" - e também por via de programas escolares que reforçam verdadeiramente a percepção de separação entre "civilização" e mundo natural.

#3. a religião do crescimento económico, nomeadamente na sua definição capitalista associada a métricas de produção de riqueza, é aliás parte integrante da "pedagogia" escolar e mediática todos os dias debitada - e apreendida sem espírito crítico - perante as multidões fascinadas pelos grandes temas [cuja compreensão lhes escapa totalmente] mas desligadas da soma de pequenos-grandes problemas que são as causas reais do sintoma em que concentram a sua atenção.

#4. a reboque da "greve" de hoje já vi e li o habitual discurso da dissolução das responsabilidades, muito comum quando se pretende criar a percepção de que na verdade a culpa é simultaneamente de todos e de ninguém em particular.

#5. assim, para os mais interessados noutras perspectivas sobre o assunto deixo uma sugestão: o documentário "the fuck-it point". Sem mais.

13/09/2016

Do significado das palavras

Resgate.

Resgate é a palavra do momento. Centeno disse-a sem a dizer, afirmam alguns. Não se pode dizer o que não se disse, respondem outros. Pelo meio, aqueles que afirmam lamentar que a palavra tenha voltado à liça dizem-na vezes sem conta, à espera que a profecia se concretize, e que seja novamente tempo de ir ao pote. Resgate, resgatem, resgate.

Oiço resgate e penso em rapto. E no entanto, se resultado houve do "resgate" de 2011 foi a perpetuação e o rapto do povo português pela burocracia de Bruxelas. Aquela que, mais esperta do que Barroso, não foi de lá para o Goldman Sachs, mas que pelo contrário saiu do Goldman Sachs para se ir meter lá. Para ir resgatar países, claro está. Uns altruístas.

Por outro lado, de acordo com o dicionário online Priberam, "resgatar" significa "remir a troca de dinheiro ou presentes". O Estado Português terá sido então "libertado" (de quem?) a troco de quantias de dinheiro que a maior parte de nós não consegue visualizar, mas que se habituou a ouvir e dizer como se fossem trocos. A nova unidade monetária mediática é o milhar de milhão.

O rapto está consumado. E os raptores não são só os burocratas que a banca colocou em lugares chave, nem os burocratas que ambicionam ir para os bancos que não os contrataram quando eram "apenas" políticos. Também não são só os jornais que, sem leitores pagantes, sobrevivem de cliques e patrocínios que transformam "perdócios" [*] em investimentos que, independentemente do custo, representam sempre lucro. Os raptores também somos nós, povo, simultaneamente raptado por um medo que explica - pelo menos um pouco - este estúpido síndrome de Estocolmo em que nos deixámos cair. Até quando?


[*] "perdócio" (negócio deficitário, com perda de dinheiro) foi como chamou Belmiro de Azevedo ao seu jornal, o Público.

30/08/2016

O muro de Doonbeg

O muro que Trump afirma querer erguer na fronteira entre os EUA e o México é o mais conhecido dos muros do debate político actual, mas não é o único. O mundo encontra-se cheio de muros, apesar de parecer que todos caíram em 1989.


Doonbeg é uma pequena povoação do sudoeste irlandês, não muito longe de Limerick e Shannon, locais que me habituei a reverenciar muito por força do Rugby que ali tem não apenas força mas verdadeira implantação popular. Limerick é também célebre por ali ter existido durante breve período uma comuna soviética, a fazer lembrar a 1871. Acontece que o que em 2016 está a colocar Doonbeg no mapa mediático não são nem o Rugby nem a luta dos trabalhadores irlandeses, mas o senhor Trump.

É bom começar por recordar que Trump, o Partido Republicano e a sua facção mais fundamentalista, conhecida por Tea Party, são partidários da tese segundo a qual as alterações climáticas (às quais insistem em chamar "aquecimento global") não passam de um embuste. O programa político e económico de Trump para os EUA tem nesta tese um dos seus alicerces fundamentais, propondo-se assim reverter as tímidas medidas da administração cessante em matéria ambiental, e lançar-se novamente numa disputa pela primeira posição da economia mundial com a China, sem qualquer preocupação relativamente às consequências ambientais resultantes dessa sua bélica estratégia económica.

Ora, a principal demonstração de que Trump conhece - e reconhece - a contradição do seu discurso encontra-se em Doonbeg, onde detém um empreendimento turístico que inclui um campo de golfe bem junto ao mar, e que por se encontrar ameaçado pelo efeito da erosão da costa e pelas tempestades motivou um pedido de Trump junto das autoridades irlandesas para ali ser construído um muro de quase 3 quilómetros, com o objectivo único de proteger o seu investimento dos efeitos das alterações climáticas - e da degradação ambiental evidente - que nos EUA afirma não passarem de embustes com o objectivo de beneficiar a economia chinesa face à americana.

Existem várias semelhantes, vários pontos de intercepção, entre os muros que Trump projecta para um futuro próximo, o mexicano e o irlandês: ambos se fundamentam em visões hipócritas, desinformadas e irresponsáveis face ao futuro. Trump afirma que quem pagará o muro mexicano é precisamente o México, e na Irlanda não será diferente, já que o campo de golfe pode ser seu mas a destruição ambiental com que pretende brindar Doonbeg ficará - a concretizar-se - para os irlandeses, como memória da passagem pela face de terra de um ser não menos populista e perigoso do que criaturas como Benito Mussolini ou Francisco Franco.

É hoje para todos uma evidência que é fundamental derrotar Trump nas eleições norte-americanas de Novembro. O que urge igualmente compreender é que Trump é acima de tudo um símbolo de uma mundivisão dominante, que domina os media, molda consciências, desinforma, mesmo quando maldiz Trump. Ele é a expressão de um sistema económico, social, político, cultural e ambiental que se impõe sobretudo através da inacção das pessoas comuns, esmagadas pelas dificuldades da vida, por horários de trabalho intermináveis, pela pressão do complexo tecnológico-industrial e pela afirmação asfixiante da ideia de consumo - sobretudo tecnológico - como atalho fácil para uma vida mais feliz.

29/08/2016

Ultimate Cash Crop, Your Children! (Affluenza)

Affluenza, o livro de auto-ajuda que recusa ser de auto-ajuda.

Em "Affluenza" o autor Oliver James pinta-nos um quadro arrepiante da relação entre o capitalismo (o "capitalismo egoísta", como lhe chama), o consumo compulsivo e diferentes formas de perturbação e doença mental, com destaque para a depressão clínica.


O livro divide-se em duas partes fundamentais: uma primeira que procura caracterizar a situação da "Affluenza" nos países economicamente mais pujantes e uma segunda na qual o autor sugere-se "vacinas" (respostas) para a epidemia.

Não posso afirmar que ler "Affluenza" tenha sido uma perda de tempo (porque na verdade não foi), mas creio que existem na obra três problemas fundamentais, que não pude ignorar:

1. O autor faz o retrato da "Affluenza" através do exemplo de seres humanos que vivem num contexto económico e social atípico, caracterizado por conforto económico muito acima da média dos seus países; ora, a fundamentação do problema à luz da experiência de vida dos ricos ou dos super-ricos pode criar no leitor a impressão de que a relação entre capitalismo e doença mental, consumo e esvaziamento da vida, são elementos específicos da condição das pessoas do topo da pirâmide económica das sociedades. Como bem sabemos, não é assim.

2. O livro, que aborda o interessante conceito da "Personagem de Marketing", de Erich Fromm, ainda deixa de fora da reflexão que propõe o espectacular - e triste - efeito das chamadas redes sociais na criação de auto-imagens e de imagens promovidas pelos próprios junto dos outros que são na verdade desfasadas face à realidade das vidas fora da "rede".

3. Sendo um livro que parece recusar a sua pertença ao domínio dos livros de auto-ajuda, "Affluenza" não deixa de cair na tentação de sugerir mais respostas do que motivar perguntas. E é uma pena. A obra coloca em cima da mesa um conjunto de preocupações centrais do nosso tempo, relacionando o modelo económico, político, social, cultural e ambiental em que nos encontramos imersos com a espectacular explosão das mais diversas formas de perturbação mental; porém, não parece resistir à disponibilização de receitas, quando essa lógica de "pronta a consumir" é precisamente uma das características mais negativas e nocivas do capitalismo.

Em suma, "Affluenza" é interessante e merece a pena ser lido. A leitura deverá ser crítica e distanciada, naturalmente. Em todo o caso, crítica e distância é postura que se deve aplicar a qualquer leitura.

12/08/2016

A natureza mercantil da solidariedade de circunstância.

É assim todos os Verões: o país arde, os bombeiros socorrem as populações, o povo apercebe-se da desproporção entre a violência dos incêndios e a falta de meios existentes para o seu combate, e as grandes e médias empresas lançam o arpão da solidariedade de circunstância, segmento da política de marketing que faz chegar o seu nome a todos os lares e cantos de Portugal sem os custos pornográficos de uns quantos segundos comprados antes de uma transmissão televisiva de um jogo de futebol internacional. Trata-se de solidariedade interesseira, e por isso mesmo pouco ou nada solidária.

Acontece que o capitalismo tem isto no seu "adn": a tendência para tudo coisificar, mercantilizar, quantificar sob a forma de custos e proveitos. E numa sociedade em que a semiótica do capital se parece ter imposto de forma dominante, colocando as pessoas comuns a falar a mesma novilíngua que é a sua, o povo encara com inocência e respeito aquilo que não lhe deveria merecer senão sentido crítico e questionamento.

Querem as grandes corporações nacionais ajudar na prevenção e combate aos incêndios? Transfiram as suas sedes fiscais para território nacional. Tudo o resto é folclore que não se distingue no essencial de "piquenicões" e afins.

09/07/2016

A paciência dos pobres

"(...) Num proveitoso livro, O cerco protector, em que Heinrich Böll 
descreve 'os anos de chumbo' na Alemanha, Blurtmehl, 
o mordomo, responde à seguinte pergunta do patrão: 
- O que mais o surpreende neste mundo esquisito? -
- O que mais me surpreende é a paciência dos pobres!
É esse de facto o verdadeiro mistério e o autêntico 
espanto, a docilidade que faz os Homens tudo suportar"

Manuel Ricardo de Sousa
em "Guerrilha no Asfalto: As FP-25 e o tempo português"
pág. 41


Recordo com frequência as palavras de Manuel Ricardo de Sousa e e de Heinrich Böll. É surpreendente a paciência que a esmagadora maioria de nós vai não apenas manifestando mas também alimentando relativamente às palavras e sobretudo à acção daqueles que vêem neste mundo o cenário das suas vidas opulentas, estruturadas em cima da miséria, do sofrimento e da falta de esperança daqueles que são as verdadeiras formiguinhas obreiras de um sistema que na verdade não as serve. Também me surge com frequência uma conclusão mais ou menos empírica e especulativa: o principal mérito dos ricos foi terem conseguido quase sempre, ao longo da história, fazer dos pobres a sua muralha de protecção contra outros humildes menos pacientes e disponíveis para tolerar ad eternum os regimes de pornográfica desigualdade que lhes foram sendo servidos ao longo da história.

O ingresso de Durão Barroso na estrutura dirigente do polvo-bancário norte americano Goldman Sachs é nova prova à resistência da muralha de humildes que em torno de si erigiu o capitalismo e as suas instituições, entre as quais se contra o entreposto político a que muitos chamam "União Europeia".

Para ser absolutamente franco é-me mais ou menos indiferente que seja Barroso ou outro qualquer lacaio do sistema, recém saído de um alto cargo político e com uma lista de contactos bem recheada, a assumir o posto que lhe estava prometido no sistema financeiro internacional. O problema é que o que para mim é indiferente não o é para a Democracia. E a entrada de Barroso para o Goldman Sachs é mais um punhal espetado e torcido no coração daquilo que vai restando do sistema democrático na nossa sociedade.

Que uma União Europeia, que mais não é do que um corpo institucional de fachada que permite ao sistema financeiro internacional operar a seu bel-prazer dentro e fora da "zona euro", venha depois chorar cínicas lágrimas acerca do "afastamento entre eleitores e eleitos" ou relativamente ao reforço do movimento fascista no pós-1991 é todavia intolerável e merece denúncia e combate. A União Europeia é parte integrante do problema.

Barroso protagonizou uma presidência patética da Comissão. Tal como antes havia protagonizado um papel patético à frente do governo português. Que muitos (sobretudo na imprensa) o tenham visto como uma forte possibilidade para suceder a Cavaco Silva na presidência da República é coisa bem reveladora do grau de sabujismo imperante neste país. E que o actual presidente da República venha louvar esta intolerável demonstração da absoluta promiscuidade entre o poder político na cúpula não eleita da União Europeia e as grandes sanguessugas financeiras que se alimentam da miséria dos povos é elemento que não apenas não pode ser ignorado como deve ser alvo da mais frontal e firme censura.

Blurtmehl, o mordomo, espantava-se com a paciência dos pobres, mas eu creio que esta se vai esgotando.

Que os humildes deste mundo tenham a capacidade de compreender que muito mais do que Barroso é o sistema capitalismo e as suas diversas expressões nacionais e multinacionais que devem ir parar ao caixote do lixo da história é aspecto fundamental para que deste imenso monte de merda em que se transformou o mundo possa sair, mais cedo que tarde, outra forma de viver.

Que os humildes deste mundo tenham a capacidade de compreender que muito mais do que "reformas" (esse eufemismo que pretende tudo mudar para que tudo fique na mesma) o que se impõe é Revolução e um novo tipo de organização política, económica, social, cultural e ecológica é também condição fundamental para que o mundo dê, por fim, o salto qualitativo que o comum dos mortais merece desde que as sociedades se estruturaram num regime de segregações várias, de entre as quais se destaca a económica e social.

15/04/2016

"Não vá para um offshore" [Full docs or GTFO]

É lugar comum afirmar-se que, no contexto presente, informação é poder. O Expresso e a TVI são detentores de informação em quantidade astronómica que não libertam, o que os eleva a um estatuto de poder que verdadeiramente nunca tiveram. A informação não é libertada porque a sua disponibilização integral e gratuita - como faz o projecto Wikileaks, por exemplo - reduz drasticamente o poder que neste momento detêm os dois órgãos de comunicação social em questão, para lá de aspectos de natureza comercial que, não sendo o essencial do problema, não podem deixar de ser considerados.

É assim de um enorme cinismo o texto que hoje assina Pedro Santos Guerreiro intitulado "Não vá para um offshore". Nele, o actual director do Expresso convida os leitores - os cidadãos em geral - a desempenharem o seu papel, mantendo o interesse e a pressão relativamente ao escândalo dos Papéis do Panamá. O director do jornal quer os cidadãos ao lado do Expresso, que no entanto não confia aos cidadãos a quem pede apoio toda a informação de que dispõe. O Expresso reivindica para si um estatuto que não merece, e que apenas conserva ao fazer aquilo que do meu ponto de vista não deveria fazer: assumir-se como filtro da informação que lhe chegou às mãos.

05/04/2016

Os papéis do Panamá

i. Dirigentes políticos e celebridades gamando à grande em paraísos fiscais é indecente, mas as cotadas do PSI20 todas - atenção: TODAS - sediadas em geografias fiscais mais vantajosas é "boa gestão"; ii. É perguntar aos indignados de circunstância onde andavam quando a "extrema esquerda" se batia - desde há tantos anos quantos alguns têm de vida... - contra a aldrabice dos paraísos fiscais; iii. Redações: já encontraram ligações do Maduros aos offshores? É que está na hora de começar a libertar os nomes dos carolas de Washington DC (mas daqueles que mandam... não é do senador do Wiscosin, ou do Obama); iv. Para lembrar que o Julian Assange, o Bradley Manning e o Edward Snowden viram as suas vidas desgraçadas por terem optado por revelar ao mundo os crimes do regime made in USA. É já agora que o Aaron Swartz foi indirectamente assassinado pelo FBI. E que não foi o único hacker a suicidar-se após perseguição continuada da polícia política norte-americana;

17/03/2016

Os sírios e os animais.

As imagens de adeptos de um clube de futebol holandês atirando moedas a pedintes numa praça do centro de Madrid chocaram certamente todas as pessoas que não se identificam com a animalização - no pior sentido da expressão - das relações humanas.

Leio por aí que os seres humanos sujeitos ao tratamento indigno por parte dos holandeses eram na verdade refugiados sírios, o que de resto é mais ou menos indiferente para o caso: é a sua condição e não a sua nacionalidade que torna absolutamente vil e repulsiva a chuva de moedas que em Madrid causou a indignação das pessoas que, passando pela praça em questão, não se coibiram de confrontar os animais de bolsos cheios que usavam o desespero alheio em benefício do seu gozo pessoal.