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24/06/2016

Sobre o Brexit, antes de "over-and-out"

1. Hoje na TSF ouvi um jornalista referir-se repetidamente ao resultado do referendo como algo que está a chocar a Europa e o Mundo. Na mesma frase duas ideias questionáveis e muito pouco objectivas: em primeiro lugar a ideia de que existe "na Europa e no Mundo" uma unanimidade em torno da avaliação sobre o resultado do referendo; em segundo lugar a ideia de que essa unanimidade se refere a uma avaliação negativa. Foi assim antes do referendo e será assim depois dele: dramatização e análise selectiva da informação;

2. Sou comunista há 20 anos. Anti-fascista, anti-racista convicto. Defendo para Portugal uma política de recepção de imigrantes e refugiados muito mais aberta do que aquela que hoje existe. Combato por exemplo a vergonhosa expulsão de imigrantes e refugiados que se encontra em curso, ao abrigo do triste acordo EU-Turquia. Não admito que me confundam, nem que confundam aqueles que comigo partilham a ideia de que a UE e o Euro são trágicos instrumentos de submissão das pessoas comuns aos interesses dos mercados financeiros e afins, com nazi e fascistas da estirpe da senhora Le Pen ou do senhor Farage.

3. Não compreender que existem várias perspectivas sobre a necessidade de colocar um ponto final na submissão dos povos dos países membros da EU ao directório das grandes potências (das quais aliás a GB tem feito parte...), não compreender que um comunista e um fascista podem apelar ao mesmo sentido de voto com base em premissas não apenas diferentes mas profundamente conflituantes (o que de resto se passou também no campo do "sim" no recente referendo) é na verdade compreender muito pouco sobre o que se passou esta 5ª feira no Reino Unido...

4. A democracia não é apenas boa quando o resultado nos interessa. Eu votei em todas as eleições realizadas em Portugal desde os meus 18 anos e tirando o Referendo da IVG nunca “ganhei” em nenhuma delas. Estaria tramado se não tivesse a capacidade de encaixar  resultados que não desejo. Já a UE, o seu directório de burocratas não eleitos, os governos que lhes dão suporte e o próprio PE parecem muito pouco disponíveis para ouvir os povos, razão pela qual o resultado de ontem era mais ou menos evidente faz muito tempo. Isso explica também as pressões sobre vários países para que não se realizem referendos semelhantes, ou a inacreditável estratégia levada a cabo para trucidar o resultado de referendos do passado.