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14/05/2019

As vozes do mundo

Em "Trás-os-Montes, o Nordeste" escreve J. Rentes de Carvalho que um alentejano lhe havia contado que o seu avô "ia ouvir a água correr como quem vai ouvir a banda filarmónica a tocar no coreto", desabafo comovente que me trouxe à memória a canção "As vozes do mundo", dos Romanças, que diz assim: "Na sombra dos tempos os velhos diziam / Tudo no mundo vivia a falar / Os homens, as pedras, o sol, o luar / Os bichos da terra e os peixes do mar". Tem tudo a ver com "Last child in the woods", o livrinho de Richard Louv que trago na sacola e que conta a história da forma como o ser humano se foi separando da natureza de que fazia parte, separação artificial que também remete para aquela lenga-lenga da velha que corria perseguindo-a uma lata: "Era uma velha que andava a varrer. Com uma lata no cu a bater. Quanto mais a velha varria. Mais a lata no cu lhe batia". O vento fala-nos [""Oiço-vos por instinto, sussurrantes pinhais ! Não entendo as palavras, mas pressinto que são poemas que me recitais", Miguel Torga, Diário VI], os animais falam-nos, a água fala-nos e nós estamos surdos, cegos e mudos. Talvez este seja o tempo para se ler as vozes que ainda transpõe para a escrita um telurismo perdido entre as multidões das grandes cidades. Porque quando formos em definitivo incapazes de ouvir as vozes do mundo estaremos bem mais próximos do fim.



[imagem]

10/05/2019

A história da caixa ou a narrativa da restauração da harmonia

"Pensar fora da caixa". O slogan anda por aí, enfeitando apresentações e dando colorido a conversas - cada vez mais raras, pelo menos fora dos ecrãs. Todos desejamos abrir a caixa e meter o nosso pensamento fora das seis faces do cubo onde aparentemente o temos fechado. E no entanto quase ninguém o consegue fazer. Porquê? Talvez a primeira razão seja precisamente o facto de não nos colocarmos frequentemente a questão "porquê?" ou, cumulativamente, outras questões [outros "porquê?"] que funcionem como desbloqueador do pensamento sobre os assuntos da vida. Não fazemos prolongar a "idade dos porquês" vida-fora e pagamos bem caro esse acesso à maturidade-pragmática, caracterizada pela capacidade de fazer sem perceber muito bem a razão pela qual fazemos o que fazemos. É estúpido, certo? George Monbiot tem pensado e escrito sobre o assunto. A sua perspectiva sobre ele resume-se basicamente numa ideia simples: estamos prisioneiros desde há séculos de uma narrativa maniqueísta, que serve de base para uma série de propostas políticas [entendidas na sua versão programática e não apenas "avulsa"] e que funciona como um género de caixote apertado que contém a criatividade e sobretudo funciona como cerca do pensamento [um género de fronteiras do razoável]. A narrativa de que fala Monbiot é simples mas extremamente poderosa no que se refere à captura da atenção das pessoas comuns: um vilão - pessoa, instituição ou sistema -, gerador de mau estar e bloqueador do progresso, é confrontado por um herói - pessoa, instituição ou sistema - que o derrota e estabelece um novo rumo de prosperidade, felicidade e harmonia. Só que esta versão dos acontecimentos já não serve, é gerador de mais do mesmo. E eu, que passei boa parte da minha vida adulta cheio de certezas sobre o passado, o presente e o futuro, sinto exactamente o mesmo que Monbiot; creio que a sua reflexão sobre a importância das narrativas é chave para a interpretação do presente e sobretudo fundamental para percebermos como vamos sair da monumental borrada em que nos vamos metendo, já não de forma "progressiva" [e "progressiva" aqui tem duplo sentido...] mas desgovernada, acelerada e imprevisível.

29/08/2016

Affluenza, o livro de auto-ajuda que recusa ser de auto-ajuda.

Em "Affluenza" o autor Oliver James pinta-nos um quadro arrepiante da relação entre o capitalismo (o "capitalismo egoísta", como lhe chama), o consumo compulsivo e diferentes formas de perturbação e doença mental, com destaque para a depressão clínica.


O livro divide-se em duas partes fundamentais: uma primeira que procura caracterizar a situação da "Affluenza" nos países economicamente mais pujantes e uma segunda na qual o autor sugere-se "vacinas" (respostas) para a epidemia.

Não posso afirmar que ler "Affluenza" tenha sido uma perda de tempo (porque na verdade não foi), mas creio que existem na obra três problemas fundamentais, que não pude ignorar:

1. O autor faz o retrato da "Affluenza" através do exemplo de seres humanos que vivem num contexto económico e social atípico, caracterizado por conforto económico muito acima da média dos seus países; ora, a fundamentação do problema à luz da experiência de vida dos ricos ou dos super-ricos pode criar no leitor a impressão de que a relação entre capitalismo e doença mental, consumo e esvaziamento da vida, são elementos específicos da condição das pessoas do topo da pirâmide económica das sociedades. Como bem sabemos, não é assim.

2. O livro, que aborda o interessante conceito da "Personagem de Marketing", de Erich Fromm, ainda deixa de fora da reflexão que propõe o espectacular - e triste - efeito das chamadas redes sociais na criação de auto-imagens e de imagens promovidas pelos próprios junto dos outros que são na verdade desfasadas face à realidade das vidas fora da "rede".

3. Sendo um livro que parece recusar a sua pertença ao domínio dos livros de auto-ajuda, "Affluenza" não deixa de cair na tentação de sugerir mais respostas do que motivar perguntas. E é uma pena. A obra coloca em cima da mesa um conjunto de preocupações centrais do nosso tempo, relacionando o modelo económico, político, social, cultural e ambiental em que nos encontramos imersos com a espectacular explosão das mais diversas formas de perturbação mental; porém, não parece resistir à disponibilização de receitas, quando essa lógica de "pronta a consumir" é precisamente uma das características mais negativas e nocivas do capitalismo.

Em suma, "Affluenza" é interessante e merece a pena ser lido. A leitura deverá ser crítica e distanciada, naturalmente. Em todo o caso, crítica e distância é postura que se deve aplicar a qualquer leitura.

09/06/2016

Freak Show 2.0

Fiquei a saber, através da denúncia do Bruno Carvalho, que a "Mundial Eventos" organiza despedidas de solteiro e solteira que poderão envolver "espectáculos de striptease com anões, bowling com anões e arremesso de anões". Após a denúncia, o Bruno recebeu uma mensagem de Paulo Raposo, da "Mundial Eventos", na qual o empreendedor não apenas tenta desqualificar o Bruno como procura colar o negócio que desenvolve ao "mundo do espectáculo". O mundo pós-moderno é isto. Não me espanta que assim seja, confesso. Apenas me espanta que contra ele não se levante com a violência que se impõe o clamor dos humildes.

[Circus Dwarf, Palisades, New Jersey, 1958]

07/06/2016

O maior [e mais cruel] sistema prisional do mundo

[fotografias: Sad Animals in the Zoo]

"eu vivo numa sociedade, que é pior que uma animalidade" *

A minha filha mais velha visitará em breve um parque zoológico. Não o fará comigo; a visita é da responsabilidade da escola. Sou um declarado e radical opositor dos parques zoológicos - com uma ou duas excepções tipológicas - e o assunto deu-me que pensar. A C. irá porque é essa a sua vontade, ponto. Em todo o caso hoje falámos do assunto e a C. está ciente de que encontrará atrás das grades seres com formas de consciência que ainda não compreendemos plenamente, capazes de sentir dor, tristeza e, à sua maneira, saudade. A visita ao parque em questão tem pelo menos uma vantagem: observar in loco animais selvagens cativos sem razão de outros que se declaram não selvagens permitirá aos miúdos compreender que aqueles a quem chamamos selvagens e inferiores não fingem felicidade (desde logo porque não a sentem de facto...) na sua condição de cativos. Os animais selvagens não são servos voluntários no recinto antropológico em que contra a sua vontade foram encerrados. Poderão os "superiores" humanos dizer o mesmo?

[fotografias: Sad Animals in the Zoo]
* "Rastaman", Ena Pá 2000, "Álbum bronco"

17/05/2016

Símio tecnológico.


1984 é 2016.

1984 é um grande romance. Inicialmente apontado como crítica directa ao socialismo soviético, enganam-se aqueles que teimam em datar o livro. Orwell não escreveu sobre um contexto específico, descreveu de forma brilhante os riscos associados a formas totalitárias de viver colectiva e individualmente. 1984 é hoje, e hoje não há socialismo soviético. 1984 é o regime de vigilância estatal e corporativa que damos como circunstância adquirida nas nossas vidas. 1984 é a novilíngua empresarial que tomou de assalto a economia, o desporto, a política, a cultura, as relações humanas em sentido lato. 1984 é o Grande Irmão CEO que poucos questionam nesse renovado contexto totalitário que são as empresas, onde a regra é obedecer de acordo com a norma ("da qualidade"), lugar que fez florescer um dialecto próprio que não apenas contaminou o falar - e naturalmente o pensar - dos "colaboradores" como é diligentemente patrocinado e controlado por uma nova polícia do pensamento, em regra corporizada por chefias intermédias mais irmanadas do que o Grande Irmão, ele mesmo. A novilíngua é "positiva" e "empreendedora", estrangeirada e superficial. Como o pensamento dominante. A novilíngua é a transposição discursiva de um estilo de pensamento que não é simples, é simplista. Ela é igualmente o correspondente verbal - e não verbal - ao movimento espasmático e compulsivo do pulgar fazendo correr icones e menús num smartphone maior do que a própria mão. A novilíngua é o capitalismo estético e o lugar instrumental que o ser humano utilizador-pagador ocupa no novo sistema. 1984 é 2016.