Alexandra David-Néel [ADN] ficou célebre como esoterista e viajante especialmente versada no lamaísmo, que é uma versão tibetana do budismo. De ADN li "Viagem ao Tibete" e "No rasto de místicos e mágicos do Tibete", livros que se vinculam a uma fase da sua vida em que o ideário radical de
"Pela vida" ["Pour la vie", de 1898] já não teria a força dos primeiros anos da sua vida adulta. Em
"Pela vida", David-Néel escreve sobre a liberdade e a força repressiva da autoridade, distingue obediência circunstancial - forçada pelo chicote - de obediência voluntária - forçada pela resignação e pelo convencimento. E usa a imagem da coleira a fechar um dos capítulos do livro
["Quem é que obriga os homens a contrariarem a sua natureza, a submeterem-se, senão os próprios homens? Caso um só dentre ele houvesse concebido a ideia de fazer-se obedecer, como poderia consegui-lo sem o consentimento das massas sempre prontas a afeiçoar o pescoço à coleira?"]. Nem de propósito li à alguns dias atrás uma notícia do "El País" sobre um estudo comparativo entre o comportamento social dos cães domesticados e os lobos selvagens. A peça jornalística resumia a coisa com o seguinte título: "Os cães perderam o sentido da solidariedade ao domesticarem-se" [a tradução é minha e não é feliz, reconheço, mas o sentido é totalmente perceptível]. No corpo da notícia lê-se que perante um problema apresentado a cães e lobos pelos investigadores,
"los lobos tuvieron un comportamiento notablemente solidario hacia sus compañeros de grupo y les proporcionaban comida muy por encima de los escenarios de control establecidos por los científicos". Pelo contrário, os cães
civilizados "no mostraron ninguna respuesta prosocial hacia su compañero". Como se a coleira não lhes roubasse apenas a liberdade mas também - e sobretudo - o sentido de pertença a algo maior do que a sua relação com o dono. A frase por ventura mais célebre de "Pela vida" diz que "obedecer é morrer", metaforicamente falando. A obediência é muitas vezes garantia de sobrevivência, ainda que sobrevivência seja apenas uma certa forma de vida. O que parece absolutamente claro é que obedecer é esquecer o outro - o semelhante - e o próprio.
[fotografia: John Marriott / https://wildernessprints.com/]