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31/05/2019

Gary Snyder



[Ecologia profunda, ecologia que vem de dentro, da íntima relação com o espaço, com a realidade material e com a dimensão imaterial que é parte da consciência de cada lugar, ecossistema, bioregião]

29/05/2019

"Beds Are Burning"

Ouvia esta manhã a muito aconselhada crónica radiofónica de Rui Cardoso Martins, todas as quartas-feiras pelas 8h35 na Antena1, durante a qual citava a adolescente da moda, Greta Thunberg, que em tirada de antologia terá dito que enquanto tudo à volta arde "os nossos pais debatem o final da Guerra dos Tronos". Eu ouvi e lembrei-me de uma canção antiga, de 1987, à qual os australianos Mignight Oil chamaram "Beds are burning". A canção tem o mesmíssimo sentido da observação de Greta, chamando a atenção à a imensa degradação ambiental a par da ainda maior indiferença que em 1987 - como de resto hoje... - se sentia [1]. De resto os Midnight Oil não foram os primeiros a dizê-lo nem depois de 1987 houve um hiato de quase 30 anos sem que ninguém viesse a terreiro avisar que a banda do Titanic continua a tocar enquanto todos os anos desaparecem milhares de espécies animais e vegetais, milhões de hectares de floresta são destruídos, centenas de rios são dizimados, milhões de seres humanos são ameaçados pelos efeitos directos e indirectos da devastação que o sistema de engorda de poucos impõe a uma imensa maioria apática. E eu, que até sou fã de Greta, fico a pensar se independentemente das suas intenções e do valor do seu exemplo e mensagem, a jovem Thunberg não foi já transformada em santa de altar do ecologismo da moda, colorido e new-age, fundamentalmente inconsequente e indolor para os detentores dos comandos do mundo; aquela ecologia que recusa sacos de plástico no supermercado mas não está disposta a lutar por alterações profundas e radicais [no sentido em que atacam a raiz dos problemas] que passam inevitavelmente pela superação [revolucionária] do capitalismo.



[1] "How can we dance when our earth is turning? / How do we sleep while our beds are burning?".

24/05/2019

Árvores apressadas

Não sou fã da correlação de factores mais ou menos aleatórios na tentativa de comprovar relações de causalidade que sirvam a uma determinada narrativa sobre um assunto. Em todo o caso, quando um tema nos interessa e quando sobre ele andamos a fazer leituras cruzadas é bem possível que num espaço relativamente curto de tempo nos cruzemos com textos que, escritos por pessoas, em lugares e em tempos absolutamente distintos, se relacionem -directa ou indirectamente - de forma mais ou menos evidente. O "El Pais" publicava no passado dia 20 um pequeno texto sobre um estudo que sugere que em algumas partes do mundo, e devido à subida das temperaturas, as árvores estão a crescer mais rápido e a morrer mais depressa, o que entre outras implicações influencia a capacidade das massas florestais para reterem [para "armazenarem"] carbono. O estudo, relativo às espécies Pinus unicinata e Lariz sibirica, sugere igualmente que plantar árvores é uma boa prática, mas que melhor será gerir correctamente as massas florestais já existentes, evitando a desflorestação. Poucas horas depois de ler esta peça sobre árvores apressadas, árvores demasiado ansiosas por crescer e morrer, cruzei-me com um parágrafo de "A prática da natureza selvagem", de Gary Snider, que se refere à atenção e ao tempo [dois elementos da vida natural em acelerada extinção], e que não consegui deixar de relacionar com a imagem de pinheiros negros crescendo mais depressa para morrerem ainda jovens: "com tempo e atenção, voltaremos a ser capazes de os sentir e descobrir de novo" [refere-se aos lugares sagrados dos povos indígenas e "primitivos"]. E aqui o ponto chave parece ser o tempo imposto pela vida moderna - e pelas alterações climáticas - que vai entrando em contradição cada vez mais evidente com variáveis aparentemente imutáveis da vida para lá de nós, humanos.

10/05/2019

A história da caixa ou a narrativa da restauração da harmonia

"Pensar fora da caixa". O slogan anda por aí, enfeitando apresentações e dando colorido a conversas - cada vez mais raras, pelo menos fora dos ecrãs. Todos desejamos abrir a caixa e meter o nosso pensamento fora das seis faces do cubo onde aparentemente o temos fechado. E no entanto quase ninguém o consegue fazer. Porquê? Talvez a primeira razão seja precisamente o facto de não nos colocarmos frequentemente a questão "porquê?" ou, cumulativamente, outras questões [outros "porquê?"] que funcionem como desbloqueador do pensamento sobre os assuntos da vida. Não fazemos prolongar a "idade dos porquês" vida-fora e pagamos bem caro esse acesso à maturidade-pragmática, caracterizada pela capacidade de fazer sem perceber muito bem a razão pela qual fazemos o que fazemos. É estúpido, certo? George Monbiot tem pensado e escrito sobre o assunto. A sua perspectiva sobre ele resume-se basicamente numa ideia simples: estamos prisioneiros desde há séculos de uma narrativa maniqueísta, que serve de base para uma série de propostas políticas [entendidas na sua versão programática e não apenas "avulsa"] e que funciona como um género de caixote apertado que contém a criatividade e sobretudo funciona como cerca do pensamento [um género de fronteiras do razoável]. A narrativa de que fala Monbiot é simples mas extremamente poderosa no que se refere à captura da atenção das pessoas comuns: um vilão - pessoa, instituição ou sistema -, gerador de mau estar e bloqueador do progresso, é confrontado por um herói - pessoa, instituição ou sistema - que o derrota e estabelece um novo rumo de prosperidade, felicidade e harmonia. Só que esta versão dos acontecimentos já não serve, é gerador de mais do mesmo. E eu, que passei boa parte da minha vida adulta cheio de certezas sobre o passado, o presente e o futuro, sinto exactamente o mesmo que Monbiot; creio que a sua reflexão sobre a importância das narrativas é chave para a interpretação do presente e sobretudo fundamental para percebermos como vamos sair da monumental borrada em que nos vamos metendo, já não de forma "progressiva" [e "progressiva" aqui tem duplo sentido...] mas desgovernada, acelerada e imprevisível.

26/04/2019

Triste ironia

É lugar comum dizer-se que a comparação entre a repressão em democracia e a repressão em ditadura resulta geralmente num género de legitimação da ditadura, quando não na desvalorização da sua natureza brutal. Eu estou de acordo com esta perspectiva e por isso não farei comparações entre contextos sem comparação. É em todo o caso legítimo sublinhar a ironia patente na forma como os protestos ambientalistas dos últimos dias foram reprimidos, precisamente em cima das comemorações dos 50 anos da chamada Crise Académica de 1969, que teve no dia 17 de Abril de 1969 um dos seus pontos mais recordados e regularmente mencionados, quando Alberto Martins - então presidente da Associação Académica de Coimbra - tentou tomar a palavra numa cerimónia pública, sem sucesso. Hoje, 45 anos após a Revolução de Abril, não vivemos em ditadura, mas na minha perspectiva é muito discutível que ao fascismo salazarista se tenha seguido, após 1976 e depois de derrotado no seu essencial o programa do MFA, a democracia enquanto o exercício do poder do povo. Existirá liberdade de expressão, sendo todavia certo que não existe comparação entre a liberdade de discursar à porta da estação de metropolitano e a possibilidade de debitar cartilha de forma regular e não raras vezes sem contraditório nos grandes meios de comunicação de massa. O que se passou no evento em que participou o Ministro do Ambiente, ou no evento do partido do governo, não foi apenas a reposição da ordem pública tal como a concebemos hoje, num mundo em que a diversidade é muito mais aparente do que real; pelo contrário, a repressão destes protestos é bem a ilustração da forma como o acessório se vai sobrepondo ao essencial e de como esta sobreposição é protegida pelas forças repressivas do Estado, sendo que este não é - ao contrário do que muitos dizem, incluindo quem tem obrigação de saber que não é assim... - "todos nós", mas antes "o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes" manifestando-se "onde e na medida em que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser conciliados". A contradição é uma das mais salientes constantes na complexa matemática das sociedades actuais. A [triste] ironia também.



[imagem: Lusa]

15/03/2019

5 notas sobre a "greve" dos estudantes em defesa do ambiente

#1. o principal mérito da iniciativa será o facto de mobilizar para lutas da vida real, fora do ambiente controlado e não raras vezes estéril das redes sociais, uma geração que cresce em casa, escolas e grupos marcadamente cépticos relativamente à eficácia e à legitimidade dos movimentos de massas. Miúdos nas ruas gritando palavras de ordem em torno de uma ideia - de várias ideias - em que verdadeiramente acreditam tem um valor pedagógico muitíssimo superior a uma manhã de aulas chatas, repetitivas e em torno de currículos absurdos, que lhes dão muito mais sono do que entusiasmo.

#2. a escola tradicional tem aliás desempenhado um papel chave na domesticação do ser humano, por via da separação entre aprendizagem e vida - tão bem ilustrada pelas cercas levantadas à volta dos pavilhões de cimento onde "se aprende" aquilo que comissões de sábios decidiram que crianças de 6, 10 ou 15 anos deverão "aprender" - e também por via de programas escolares que reforçam verdadeiramente a percepção de separação entre "civilização" e mundo natural.

#3. a religião do crescimento económico, nomeadamente na sua definição capitalista associada a métricas de produção de riqueza, é aliás parte integrante da "pedagogia" escolar e mediática todos os dias debitada - e apreendida sem espírito crítico - perante as multidões fascinadas pelos grandes temas [cuja compreensão lhes escapa totalmente] mas desligadas da soma de pequenos-grandes problemas que são as causas reais do sintoma em que concentram a sua atenção.

#4. a reboque da "greve" de hoje já vi e li o habitual discurso da dissolução das responsabilidades, muito comum quando se pretende criar a percepção de que na verdade a culpa é simultaneamente de todos e de ninguém em particular.

#5. assim, para os mais interessados noutras perspectivas sobre o assunto deixo uma sugestão: o documentário "the fuck-it point". Sem mais.

05/09/2016

Os índios da Pradaria

Os Lakota, também conhecidos como índios da pradaria, são um povo indígena da América do Norte, cujas terras originais se estendiam pelos actuais estados norte-americanos do Dacota do Sul e do Norte. Formados por sete tribos vizinhas, entre as quais se encontram os Sioux, os Lakota imigraram para o Norte, oriundos do baixo Mississipi, e ali se fixaram vivendo da agricultura e da caça do búfalo, actividade iniciada após a introdução do cavalo na vida das comunidades, no século XVIII. É em parte da vida dos Lakota que falam grandes produções de Hollywood, como "Dances with wolves" ("Danças com lobos"), filme realizado a partir do romance homónimo, de Michael Blake.


É sabido que as tribos Lakota resistiram ao processo de violenta invasão e colonização branca dos seus territórios, e que essa resistências lhes valeu uma sucessão de massacres, guerras e outros actos de violência brutal por parte do exército norte-americano, que no final do século XIX dizimou populações inteiras de búfalos, de forma a vergar os Lakota, obrigando-os a aceitar a vida em reservas e a dependência de rações alimentares fornecidas pelo governo federal.

Em 1890 dá-se o tristemente célebre massacre de Wounded Knee, na reserva de Pine Ridge (Dacota do Sul), no qual foram mortos centenas de índios, incluindo mulheres e crianças. Depois de várias guerras, traições, promessas quebradas e imposição da fome e do sangue, as autoridades federais obtiveram por fim domínio sobre a Nação Lakota, que em todo o caso é coisa diferente de se dizer que os Lakota foram submetidos à vontade dos seus colonizadores.

Insubmissão em Pine Ridge

A memória de Wounded Knee encontra-se bem viva no seio dos Lakota, e ao longo do século XX muitos foram os incidentes que, com maior ou menor gravidade, maior ou menor visibilidade, mostraram aos norte-americanos e ao mundo que a Nação Lakota se encontra bem longe da domesticação desejada pelo imperialismo.

No início dos anos 70 é criado o American Indian Movement (AIM), assistindo-se a um reforço da luta dos ameríndios Lakota contra as imposições federais. As tensões acumuladas tiveram grave desfecho em Junho de 1975, quando um tiroteio ocorrido na reserva resultou na morte de dois agentes federais e um activista do AIM. Os agentes federais responsáveis pela morte do activista ameríndio foram absolvidos, mas Leonard Peltier, o bem conhecido activista acusado pela morte dos agentes federais caídos, foi condenado a duas penas de prisão perpétua, encontrando-se actualmente na penitenciária federal Coleman, na Florida.

Petróleo na pradaria

O Dakota Access Pipeline Project é um projecto em concretização, que visa construir um enorme "pipeline" para transportar petróleo ao longo de mais de 1.000 quilómetros entre o Dacota do Norte e o Illinois. O tubo atravessa vastas áreas naturais, que incluem territórios que os tratados reservam à Nação Lakota, colocando em risco sítios arqueológicos considerados sagrados pelos Lakota, reservas e cursos de água, terras que as tribos ameríndias vêem como a raiz da sua cultura e identidade.

Os Lakota afirmam, e as evidências parecem confirmar os seus argumentos, que as rupturas de pipelines no Dacota do Norte têm sido frequentes, contaminando as suas terras e dizimando a vida que nelas procura encontrar a tranquilidade aniquilada noutras paragens.

A luta dos Lakota contra o Dakota Access Pipeline tem sido intensa, violenta e olimpicamente ignorada pela imprensa norte-americana e internacional. É precisamente por isso que deste espaço lanço aos índios da pradaria o meu grito de solidariedade e apoio à defesa da sua cultura, das suas terras, memória, identidade e forma de vida. Porque a luta dos Lakota pode não fazer parte dos espaços de entretenimento-informativo a que chamamos "telejornais" (e afins), mas não pode deixar de receber, nos espaços de comunicação livres dos "critérios editoriais" do sistema, o apoio e a divulgação merecida.

30/08/2016

O muro de Doonbeg

O muro que Trump afirma querer erguer na fronteira entre os EUA e o México é o mais conhecido dos muros do debate político actual, mas não é o único. O mundo encontra-se cheio de muros, apesar de parecer que todos caíram em 1989.


Doonbeg é uma pequena povoação do sudoeste irlandês, não muito longe de Limerick e Shannon, locais que me habituei a reverenciar muito por força do Rugby que ali tem não apenas força mas verdadeira implantação popular. Limerick é também célebre por ali ter existido durante breve período uma comuna soviética, a fazer lembrar a 1871. Acontece que o que em 2016 está a colocar Doonbeg no mapa mediático não são nem o Rugby nem a luta dos trabalhadores irlandeses, mas o senhor Trump.

É bom começar por recordar que Trump, o Partido Republicano e a sua facção mais fundamentalista, conhecida por Tea Party, são partidários da tese segundo a qual as alterações climáticas (às quais insistem em chamar "aquecimento global") não passam de um embuste. O programa político e económico de Trump para os EUA tem nesta tese um dos seus alicerces fundamentais, propondo-se assim reverter as tímidas medidas da administração cessante em matéria ambiental, e lançar-se novamente numa disputa pela primeira posição da economia mundial com a China, sem qualquer preocupação relativamente às consequências ambientais resultantes dessa sua bélica estratégia económica.

Ora, a principal demonstração de que Trump conhece - e reconhece - a contradição do seu discurso encontra-se em Doonbeg, onde detém um empreendimento turístico que inclui um campo de golfe bem junto ao mar, e que por se encontrar ameaçado pelo efeito da erosão da costa e pelas tempestades motivou um pedido de Trump junto das autoridades irlandesas para ali ser construído um muro de quase 3 quilómetros, com o objectivo único de proteger o seu investimento dos efeitos das alterações climáticas - e da degradação ambiental evidente - que nos EUA afirma não passarem de embustes com o objectivo de beneficiar a economia chinesa face à americana.

Existem várias semelhantes, vários pontos de intercepção, entre os muros que Trump projecta para um futuro próximo, o mexicano e o irlandês: ambos se fundamentam em visões hipócritas, desinformadas e irresponsáveis face ao futuro. Trump afirma que quem pagará o muro mexicano é precisamente o México, e na Irlanda não será diferente, já que o campo de golfe pode ser seu mas a destruição ambiental com que pretende brindar Doonbeg ficará - a concretizar-se - para os irlandeses, como memória da passagem pela face de terra de um ser não menos populista e perigoso do que criaturas como Benito Mussolini ou Francisco Franco.

É hoje para todos uma evidência que é fundamental derrotar Trump nas eleições norte-americanas de Novembro. O que urge igualmente compreender é que Trump é acima de tudo um símbolo de uma mundivisão dominante, que domina os media, molda consciências, desinforma, mesmo quando maldiz Trump. Ele é a expressão de um sistema económico, social, político, cultural e ambiental que se impõe sobretudo através da inacção das pessoas comuns, esmagadas pelas dificuldades da vida, por horários de trabalho intermináveis, pela pressão do complexo tecnológico-industrial e pela afirmação asfixiante da ideia de consumo - sobretudo tecnológico - como atalho fácil para uma vida mais feliz.

12/08/2016

"The russians are coming!"

A ministra esperava, mas já não espera, caso contrário o melhor é sentar-se. A "Europa" gosta muito de nós para fazer número, alargar mercados e evitar ovelhas tresmalhadas no rebanho que os alemães vão comandando de acordo com as suas conveniências. Portugal pode arder de ponta-a-ponta, que não serão os nossos "parceiros europeus" - com a honrosa excepção italiana e espanhola, "PIG" portanto - a vir em nosso socorro.

De resto, se a proximidade com o Reino de Marrocos pode explicar a cooperação que já levou aviões de combate a incêndios para a muito martirizada zona de Arouca, a disponibilidade russa para mobilizar meios seus em proveito da protecção civil portuguesa é coisa que terá surpreendido muito comum cidadão habituado à desinformação oficial sobre a maldade estrutural das hordas asiáticas de Moscovo.

Será bom lembrar que em 2014 se falava em "bombardeiros russos intercetados" junto à Costa nacional, notícia que causou grande agitação mediática e uma oportunidade de ouro para os comentadores do costume virem bolsar ácido sobre a Rússia, tendo como pretexto Putin. O contexto, pós-"Euromaidan", alimentava uma russofobia doentia, que aliás se vai mantendo e reproduzindo em contextos que deveria ficar imunes ao preconceito nacionalista (refiro-me por exemplo a comentários que já ouvi e li, no âmbito dos Jogos Olímpicos de 2016).

Os incêndios do Verão de 2016, em Portugal, ficarão como mais um momento de desvelação relativamente à forma como a "Europa" olha para Portugal.

28/07/2016

As dores da necessidade de coerência enquanto postura ética perante a Vida [1]

A incoerência doí-me. E no entanto ela é, praticamente do princípio ao fim, a consequência da vida que levo. Viver de forma coerente implicaria assumir na prática quotidiana uma série de comportamentos e atitudes que chocariam de forma frontal e violenta com o paradigma social dominante. Ora, a necessidade de coerência mantém-se permanentemente abafada pela comodidade da conformação, o que significa viver quase sempre em contradição com o que penso. Acção desconforme com o pensamento é incoerência no seu sentido superior. E se a prática é de facto o critério da verdade, então é muito provável que a minha incoerência seja na realidade uma outra forma de coerência.

Leio "Ecologia Profunda: dar prioridade à natureza na nossa vida", de Bill Devall e George Sessions, e observo a minha própria incapacidade de viver de acordo com aquilo em que afirmo acreditar desvelar-se como as pedras deixadas ao ar pelo recuo do mar a caminho da baixa-mar. E no entanto sinto-me incapaz de tomar uma atitude - constituída por uma imensidão de pequenas atitudes - que resolva este conflito aparentemente simples.

Por outro lado não veja uma possibilidade objectiva de devolver coerência verdadeira - ou seja, correspondência entre pensamento e acção - ao meu dia-a-dia. O mundo parece formatado para nos conduzir de regresso ao carreiro e as alternativas que me parecem exequíveis estão, elas próprias, pejadas de incoerência. Como o ser que resolve abster-se de consumir carne (por razões éticas e ambientais) passando a comer milho geneticamente modificado, soja plantada em solo anteriormente ocupado por floresta virgem ou produtos biológicos vindos do lado de lá do mundo, carregados de "pegada", exploração ou ambas.

Em "Ecologia Profunda" atrai-me a ideia de biorregião como unidade territorial identitária no seio da qual projectos de autonomia e democracia mais próxima do real (e literal) sentido do conceito poderão desenvolver-se em harmonia com outras formas de viver em absoluta contradição com aquela que defendo. Atrai-me o conceito de acção directa que resolva o muito cómodo argumento da ineficácia da acção isolado do ser humano face à indiferença do mundo em seu torno. O movimento da Ecologia Profunda parece-me um passo em frente no sentido de uma maior coerência pacificadora.

Como dar o passo mantendo pontes com a vida anterior, ou com aqueles que se mantêm apegados ao paradigma social dominante?
Como manter essas pontes sem que estas minem a ideia - e mais do que esta, a prática - de coerência que queremos transpor para a nossa vida?
A reflexão mantém-se e as perplexidades somam-se.
As certezas perdem densidade e a dúvida como método ganha terreno.
Estarei mais próximo da coerência que procuro? Ou será que a própria ideia de coerência (e incoerência) não passa de uma quimera e de um grilhão demasiado pesado para ser transportado a toda a hora, fixando-me repetidamente no mesmo ponto de partida, como Sísifo e a famosa pedra que transportada montanha a cima rolava logo depois até ao sopé do grande monte?

20/07/2016

Floresta é o Nome do Mundo

Em "Floresta é o Nome do Mundo", Ursula K. Le Guin explica que "a palavra ashteana para mundo é a mesma que para floresta". Um pouco à semelhança do que acontece com os esquimós e o gelo, ou entre os polinésios e água do mar, em "Floresta é o Nome do Mundo" a autora define o espaço vital dos ashteanos como o seu próprio conceito de Mundo. Ursula K. Le Guin marca assim uma diferença de princípio, essencial, entre colonizados (os ashteano) e colonizadores (os homens): enquanto os primeiros olham o Mundo como algo de que são parte, os segundos definem-o como aquilo que dominam e manipulam de acordo com as suas necessidades (básicas e supérfluas).

"Floresta é o Nome do Mundo" é um romance panfletário, duro, um dedo apontado a um mundo em que a guerra, o colonialismo, o racismo e a destruição ambiental faziam o seu caminho de rápida afirmação como elementos estruturantes "do paradigma" histórico "pós-histórico" de Fukuyama e afins. Quase meio-século mais tarde tudo parece ter mudado e, simultaneamente, nada de verdadeiramente essencial mudou. "Floresta é o Nome do Mundo" mantém-se como um livro pleno de actualidade.

A história centra-se na relação entre humanos colonizadores de um planeta que baptizaram como Novo Taiti e os seus habitantes humanoides nativos, seres pacíficos profundamente ligados à floresta que cobre integralmente os territórios secos. A Terra destruiu há muito as suas florestas e a madeira que a abastece provém de colónias distantes. No planeta que constitui o cenário da história, Athshe, os humanos não apenas têm planos para a sua completa exploração como submetem os seus habitantes originais a um regime de escravatura "voluntária" abruptamente interrompida por uma revolta inesperada numa das missões madeireiras existentes. Trata-se pois de um romance sobre a resistência de um povo indígena a dois aspectos interligados no seu contexto histórico particular: o colonialismo e a destruição ambiental da sua terra natal.

Para os athsheanos a floresta não é apenas a sua casa; sentem-na como parte da sua identidade individual e colectiva, fonte da sua forma de vida e definição da sua própria noção de existência. Por isso, a "Floresta é o Nome do Mundo", aqui entendido de forma lata e não apenas física.

Esta obra de Ursula K. Le Guin é profundamente militante, impregnada de ecologia profunda, admiração pela luta anticolonial e, de forma particularmente visível em algumas passagens, pela luta dos povos da Indochina contra a agressão americana, que se dava na altura em que a autora trabalhava no livro. "Floresta é o Nome do Mundo" assume-se como uma obra de referência na ecoficção-científica, "ramo" da ficção especulativa bem representado em obras maiores da literatura universal, como são "Duna" ou "A Floresta Sem Fim", de Boris e Arkadi Strugatski. Aconselho a sua leitura sem quaisquer reservas.


post-scriptum: quantos mais romances leio, mais cenas inteiras, ideias inteiras e por vezes histórias inteiras encontro em filmes que crédito nenhum atribuem aos verdadeiros autores originais. "Avatar", dirigido e "escrito" por James Cameron, é um decalque descarado do romance que trago na mochila, "Floresta é o nome do mundo", de Ursula K. LeGuin. Sou totalmente avesso à ideia de "propriedade intelectual", mas penso que ninguém pode decalcar o fruto da imaginação alheia para depois fazer muitos milhões de "Box office" (no caso de "Avatar" qualquer coisa como 2.7 mil milhões de dólares...) sem sequer referir a fonte da sua "inspiração"...

06/07/2016

Arturo, o urso.

Os homens deram-lhe um nome - “Arturo” - e uma jaula, onde viveu praticamente toda a sua vida. “Arturo” teria cerca de 31 anos quando morreu no parque zoológico de Mendoza, Argentina, depois de vários anos de degradação visível do seu estado geral, incluindo psicológico.

Sou um opositor declarado dos parques zoológicos. Não meto um cêntimo do meu dinheiro em “Zoos” e não me deixo enganar pela conversa fiada da “conservação da natureza” que os motiva. Os parques zoológicos são negócios milionários que vivem à conta de uma noção perversa da relação entre o homem e a natureza que reflecte em larga medida a própria relação dos homens entre si. Por isso, lamentar a morte de “Arturo” é, antes de mais, lamentar a desumanidade de que padece a Humanidade, é lamentar a forma como o ser humano encara a sua relação com a natureza (globalmente considerada) e com o seu próprio semelhante.

Num mundo onde os dramas humanos são mais (e maiores) do que a nossa capacidade para os compreender a todos, lamentar a morte de um animal num zoo distante pode parecer uma certa forma de alienação face aos problemas quotidianos que centenas de milhões de seres humanos enfrentam. Não é todavia essa a minha perspectiva. A vida que “Arturo” levou é um assunto humano, porque foram os seres humanos que o retiraram do seu ambiente natural para se responsabilizar pela dignidade da sua vida. O destino de “Arturo” passou para as mãos dos homens armados em “Deus”. O sofrimento a que esteve sujeito boa parte dos seus mais de 30 anos de vida (“Arturo” é da minha geração...) é um assunto definidor da espécie que somos, da Humanidade que vamos sendo.

“Arturo” morreu, e isso era inevitável. Ou provável, se quisermos aplicar aos assuntos da vida o Princípio da Incerteza tal como o explicou em conversa vadia o Prof. Agostinho da Silva. O mais triste todavia não é a sua morte. O mais triste foi a sua vida.

Existem muitos “Arturos” em múltiplos espaços zoológicos (e em circos, já agora!) por esse mundo fora, grandes mamíferos com vidas sociais e individuais complexas, que desenvolvem em cenários de cativeiro prolongado, longe dos seus habitats naturais, comportamentos estranhos, obsessivos e compulsivos, que denunciam estados mentais perturbados. Ursos, orcas, golfinhos, leões, elefantes, símios diversos. Pagar bilhete para os poder observar não é apenas errado: é perverso e anti-pedagógico. Qualquer criança o compreende.


[imagem]