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02/03/2019

A vida de Samara no grande ecrã

Há momentos em que uma obra de arte deixa de ser "apenas" arte e passa à categoria de produto de consumo. Nos casos de maior sucesso comercial, a obra torna-se num género de marca e a marca pode dar origem a licenças de utilização da ideia original, sob a forma de "franchise".

O "franchise" é uma invenção do mercado para fazer render o peixe. No fundo todos parecem ganhar com esta extensão da ideia original a cópias de menor valor. O criador ganha ao vender direitos. O franchisado ganha ao utilizar uma ideia/marca de sucesso que não criou. E o consumidor prolonga - multiplica - a hipótese de continuar a desfrutar do conceito original por via de derivações mais ou menos parecidas da ideia que o atraiu e fidelizou num primeiro momento. Só que nem sempre é assim.

Tomemos como exemplo a saga "The ring", série de filmes baseados na ideia original do romancista japonês Koji Suzuki. "The Ring", o primeiro filme da série norte-americana, baseado em "O aviso", fez justiça ao livro. Daí para a frente a coisa foi caindo e o último filme ["Rings"] é confrangedor na sua superficialidade, assumindo uma ambição muito mais próxima de uma saga de fantasia dirigida a adolescentes à procura de sustos.

Koji Suzuki enriqueceu com os filmes, mas a sua obra foi envolvida por um cenário cada vez menos verosímil e cada vez mais risível, com "Rings" a constituir-se como um apelo desesperado a um ponto final na vida cinematográfica de Samara Morgan. Dito isto, é bem possível que "Rings 2" venha a caminho, não sei. Espero sinceramente que não.

06/08/2016

Karoshi

Pelo menos 189 pessoas morreram no Japão em 2015 por excesso de trabalho | Trabalham quase sem parar e acabam por morrer na sequência de ataques cardíacos ou devido a suicídios. No ano passado houve 189 casos confirmadas, mas os especialistas estimam que o número real ande na ordem dos milhares, segundo dados avançados num artigo do 'The Washington Post' sobre o assunto. Só nos primeiros três meses deste ano já tinham sido apresentados para avaliação 2310 casos de mortes eventualmente devidas a Karoshi. [Expresso, 04.08.2016]

"(...) Oh I had a dream I was dreaming
And I feel I'm losing the feeling
Makes me feel like
Like something don't feel right"
 de "Modern Man", Arcade Fire [disco: The suburbs]

Conhecia a realidade mas desconhecia a expressão japonesa a ela associada. "Karoshi" [過労死], ou seja, morte por exaustão no trabalho. Hoje li-a no Expresso e fui pesquisar. Vi um pequeno documentário, li notícias relativas a estatísticas dos últimos anos e descobri, com tristeza mas sem surpresa, que uma empresa europeia desenvolveu um jogo para computador e dispositivos móveis precisamente chamado "Karoshi", no qual o jogador tem como objectivo fundamental levar o personagem principal, o Sr.Karoshi, a cometer suicídio. Quando desliguei o computador, ao final da manhã, recordei as palavras de Saramago em "Ensaio sobre a cegueira": "Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem".

Cega está boa parte dos explorados e o ditado esclarece que em terra de cegos quem tem olho é Rei. A monarquia a que me refiro, absolutista, é a do capital com o seu mito unificador em torno dos dogmas fundamentais do sistema: propriedade, liberdades que não conflituem com o direito de propriedade e de acumulação privada de capital, visão instrumental e utilitária do Homem, hoje reduzido à condição de "recurso".

A notícia do Expresso é assustadora, e quem a ler terá dificuldade em compreender onde se situam, na estrutura política, económica e social do Japão imperial, no seio do qual o Imperador permanece como "sua Alteza Celestial" e as antigas castas feudais deram lugar a uma burguesia pós-senhorial que manteve boa parte dos privilégios antigos (aos quais de resto associou outros novos), os elementos que permitem caracterizar o regime político japonês como uma "democracia". Transcrevo:
"(...) As longas horas extraordinárias, efetuadas de modo voluntário e sem direito a remuneração extra, fazem parte da cultura de trabalho dominante no Japão (ao ponto de quem não o fizer sentir que facilmente ficará numa posição de ser questionado o seu empenho profissional), assim como o hábito de os trabalhadores não gozarem do período de férias a que têm direito.

O problema está longe de ser novo naquele país mas tem vindo a agravar-se, levando a que há 18 meses tenha sido aprovada legislação para o combater. Foram estipuladas metas de diminuição do número de pessoas que trabalham mais de 60 horas semanais para 5% em 2020 (atualmente são cerca de 8% a 9%). Relativamente às férias, poucos são os que atualmente chegam a gozar sequer metade dos 20 dias a que têm direito. O objetivo é levá-los a gozarem pelo menos 70% desse tempo."

A morte por exaustão, ou a exaustão que não mata fisicamente mas destrói vidas, não é um exclusivo japonês. Na verdade, o trabalho escravo que não é explicitamente forçado ganha cada vez mais espaço nas economias capitalistas, hoje largamente dominantes no panorama internacional. Assim, num quadro histórico em que o trabalho é muito provavelmente o mais central elemento das vidas de cada um de nós - mesmo daqueles que afirmam o contrário -, a tendência de aproximação ao padrão japonês não é assunto que nos deve deixar descansados, bem pelo contrário.

A velocidade das nossas vidas, a implosão do tempo real e a sua substituição por um novo conceito de tempo universal (imposto por um absurdo, errado e doentio conceito de conectividade global), a dispersão da atenção (não raras vezes expressa por uma cegueira específica, a que os estudiosos chamam "cegueira por desatenção") e a sua causa fundamental (a natureza multitarefa dos regimes de trabalho actuais) são aspectos profundamente implicados num sentimento predominante de vazio, exaustão e permanente necessidade de fuga (nunca estruturalmente concretizada, sobretudo devido a uma cultura de medo complementar a esta que refiro).

O absurdo define o capitalismo. O fenómeno "Karoshi" é 'apenas' uma das suas faces mais dramáticas.