O muro que Trump afirma querer erguer na fronteira entre os EUA e o México é o mais conhecido dos muros do debate político actual, mas não é o único. O mundo encontra-se cheio de muros, apesar de parecer que todos caíram em 1989.
Doonbeg é uma pequena povoação do sudoeste irlandês, não muito longe de Limerick e Shannon, locais que me habituei a reverenciar muito por força do Rugby que ali tem não apenas força mas verdadeira implantação popular. Limerick é também célebre por ali ter existido durante breve período uma comuna soviética, a fazer lembrar a 1871. Acontece que o que em 2016 está a colocar Doonbeg no mapa mediático não são nem o Rugby nem a luta dos trabalhadores irlandeses, mas o senhor Trump.
É bom começar por recordar que Trump, o Partido Republicano e a sua facção mais fundamentalista, conhecida por Tea Party, são partidários da tese segundo a qual as alterações climáticas (às quais insistem em chamar "aquecimento global") não passam de um embuste. O programa político e económico de Trump para os EUA tem nesta tese um dos seus alicerces fundamentais, propondo-se assim reverter as tímidas medidas da administração cessante em matéria ambiental, e lançar-se novamente numa disputa pela primeira posição da economia mundial com a China, sem qualquer preocupação relativamente às consequências ambientais resultantes dessa sua bélica estratégia económica.
Ora, a principal demonstração de que Trump conhece - e reconhece - a contradição do seu discurso encontra-se em Doonbeg, onde detém um empreendimento turístico que inclui um campo de golfe bem junto ao mar, e que por se encontrar ameaçado pelo efeito da erosão da costa e pelas tempestades motivou um pedido de Trump junto das autoridades irlandesas para ali ser construído um muro de quase 3 quilómetros, com o objectivo único de proteger o seu investimento dos efeitos das alterações climáticas - e da degradação ambiental evidente - que nos EUA afirma não passarem de embustes com o objectivo de beneficiar a economia chinesa face à americana.
Existem várias semelhantes, vários pontos de intercepção, entre os muros que Trump projecta para um futuro próximo, o mexicano e o irlandês: ambos se fundamentam em visões hipócritas, desinformadas e irresponsáveis face ao futuro. Trump afirma que quem pagará o muro mexicano é precisamente o México, e na Irlanda não será diferente, já que o campo de golfe pode ser seu mas a destruição ambiental com que pretende brindar Doonbeg ficará - a concretizar-se - para os irlandeses, como memória da passagem pela face de terra de um ser não menos populista e perigoso do que criaturas como Benito Mussolini ou Francisco Franco.
É hoje para todos uma evidência que é fundamental derrotar Trump nas eleições norte-americanas de Novembro. O que urge igualmente compreender é que Trump é acima de tudo um símbolo de uma mundivisão dominante, que domina os media, molda consciências, desinforma, mesmo quando maldiz Trump. Ele é a expressão de um sistema económico, social, político, cultural e ambiental que se impõe sobretudo através da inacção das pessoas comuns, esmagadas pelas dificuldades da vida, por horários de trabalho intermináveis, pela pressão do complexo tecnológico-industrial e pela afirmação asfixiante da ideia de consumo - sobretudo tecnológico - como atalho fácil para uma vida mais feliz.
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30/08/2016
O muro de Doonbeg
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05/05/2016
35 anos sem Bobby Sands
22/04/2016
Livros de 2016 [9]: "O denunciante", por Liam O'Flaherty.
A par de leituras de textos de James Connolly, ou de excertos de obras de V. I. Lénine dedicados à independência da Irlanda, resolvi comemorar o centenário da "Easter Rising" de 1916 com "O denunciante" ("The Informer"), de Liam O'Flaherty. A edição que tenho - e que creio que é a única tradução para a língua portuguesa desta obra - é da Europa-América; a tradução, que foi feita a partir do francês, é de José Saramago.
A leitura vai andando em paralelo com os textos referidos e com as últimas páginas de "Jesus Cristo bebia cerveja".
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