07/06/2019

Revisionismo

As comemorações do chamado "Dia D", data do desembarque de tropas aliadas nas praias do norte de França, têm sido palco para um miserável exercício de revisionismo histórico que, uma vez mais, relativiza e menoriza o papel incontornavelmente principal do Exército Vermelho na fragilização das forças armadas hitlerianas e na libertação de dois terços da Europa, incluindo dos campos de concentração e extermínio que na fase final da guerra subsistiam na parte oriental da zona de conflito, incluindo o Complexo de Auschwitz-Bikernau. A abertura de uma segunda frente na luta contra o fascismo hitleriano foi desde muito cedo um pedido formulado pela União Soviética às forças que no lado ocidente se opunham ao "III Reich", sendo esta adiada de forma a promover o desgaste e a destruição de alemães, soviéticos e outros povos apanhados pelo caminho na chamada "Frente Oriental". O desembarque na Normandia aconteceu quando se tornou evidente para ingleses, franceses e norte-americanos que o acelerado avanço soviético poderia resultar na tomada não apenas de Berlim mas de todo o território alemão antes das tropas "aliadas" ali chegarem, marcando um terreno e uma zona de influência que mais tarde viria a chamar-se [como aliás ainda se chama hoje] República Federal Alemã. Nada disto retira um milímetro de mérito, honra e heroísmo aos homens e às mulheres que desembarcaram e lutaram contra os fascistas naquele dia 6 de Junho de 1944. Da mesma forma que o anti-comunismo de muitos que falam sem os mais básicos conhecimentos sobre os acontecimentos de 1933-1945 não deveria jamais fazê-los esquecer que a URSS perdeu entre 1933 e 1945 mais de 25 milhões de pessoas entre tropas, partizans e civis, armados e desarmados. Nenhum outro país sofreu tanto com uma guerra, talvez com a excepção, em proporção, da Sérvia durante a Primeira Grande Guerra 1914-1918.

As comemorações do chamado "Dia D" têm também servido de pretexto para muitos lembrarem o chamado "Pacto de Não-Agressão" assinado entre soviéticos e alemães pouco antes da invasão da Polónia pelas Wehrmacht. O "pacto" foi de facto assinado, não há como negar. Mas não pode de forma alguma ser entendido sem a análise de todos os esforços empreendidos pelos soviéticos durante os anos 30 no sentido de prevenir a guerra, tão pouco sem se ter em conta que a década de 30 do século XX foi fértil em pactos e acordos diversos, alguns dos quais pelo menos tão difíceis de compreender, na anacrónica visão que impera em 2019 face aos acontecimentos de 33-45, como o célebre pacto Molotov-Ribbentrop. Refiro-me por exemplo [porque outros existiram e foram de facto importantes num contexto de grande volatilidade e interdependências] ao chamado "Acordo de Munique", assinado entre fascistas, ingleses e franceses, e que ofereceu parte da Checoslováquia aos nazis numa bandeja, ou ao "Pacto de Não-Agressão" assinado entre polacos e nazis em Janeiro de 1934, cinco anos antes da Wehrmacht ter entrado em território polaco e iniciado a II Grande Guerra. Existe sobre a matéria - sobre os anos 30 e sobre as alianças, pactos e acordos então firmados - extensa bibliografia que é capaz de ser mais elucidativa relativamente ao contexto pré-guerra do que as séries documentais do canal História.


Sem comentários: