06/05/2019

5G



Eu não ando a fazer marcação ao jornalista Paulo Moura. Leio-o e ouço-o com a atenção que só se dispensa a quem julgamos merecê-la, num mundo fundamentalmente desatento. E foi precisamente a minha atenção à sua crónica radiofónica desta manhã que me motivou esta prosa. Paulo Moura dedicou a sua crónica à questão - relevante! - da falta de escrutínio sobre grandes corporações que hoje controlam, sobretudo no que se refere a "informação", mais dados que muitos estados [juntos]. O tema é sensível e pertinente, sobretudo quando a chamada tecnologia "5G" parece estar já ali, com todas as imensas transformações que promete. O problema que identifico na crónica de Paulo Moura não diz respeito ao tema nem às suas considerações sobre os problemas que resultarão, inevitavelmente, do salto para o vazio absoluto da digitalização descontrolada; o problema diz respeito à ideia, na minha perspectiva míope ou então pouco séria, de que mau mesmo é a tecnologia 5G nas mãos dos chineses [por eventual oposição ao carácter benigno da mesma tecnologia nas mãos do chamado "ocidente"]. À crónica de Paulo Moura não faltou sequer um momento CMTV, quando se referiu à possibilidade de carros comandados à distância, a partir da China, poderem mediante um clique mal intencionado desatarem a atropelar indefesos cidadãos nas cidades do ocidente. O problema do 5G é, antes de mais, o próprio 5G. Não é o 5G nas mãos erradas, até porque o 5G seguir-se-á um 6G e esse salto ninguém sabe [ainda] quem o dará; é o 5G. O problema do 5G é ser esta tecnologia o momento em que a humanidade mete em definitivo o cano da arma tecnológica na têmpera do seu corpo colectivo. E a arma disparará e a "bala" será letal, independentemente da nacionalidade do fabricante. Paulo Moura identifica na sua crónica uma série de problemas reais que não serão do mundo de amanhã, são de ontem e de hoje. Vale bem a pena ouvi-la. Mas com sentido crítico e sem preconceitos etnocentricos.

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