18/04/2019

Gasoil

A mini-crise dos combustíveis veio e foi com a rapidez característica da "modernidade líquida" a que se referia Zygmunt Bauman. No reino do efémero, em 48 horas o assunto do momento passará a ser outro porque na verdade nenhum tema se mantém na agenda mediática para lá da capacidade de foco do consumidor de informação. Já poucos se recordam que há 72 horas era o pináculo de Notre-Dame que dominava as atenções do país, comovendo mesmo aqueles que desconheciam a existência da Catedral. O tema do gasóleo [do "gasoil", como ouvi vezes sem conta na televisão e na rádio] deixará de ser tema em menos de nada e o que verdadeiramente fica para a posterioridade são três linhas autónomas - ainda que correlacionadas - de reflexão: a primeira relativa à gestão técnica de cenários como aquele vivido nos últimos dois dias; a segunda relativamente à questão "sindical", se aceitarmos como boa a pertença da estrutura que convocou a greve ao chamado movimento sindical [em sentido amplo]; a terceira, que é a que mais me interessa, relativamente à psicologia da multidão quando confrontada com a perspectiva teórica de um esgotamento temporário de um recurso que encara como essencial. A tese foi empiricamente confirmada: o receio do esgotamento leva ele mesmo ao próprio esgotamento, como uma profecia que se auto-concretiza, reforçando naqueles que lhe deram crédito a ideia de que na verdade agiram com razoabilidade e bom senso. Acredito que estivemos a 48 horas - no máximo - da corrida aos supermercados. E isso sim, seria verdadeiramente dramático. Aprender com o que se passou entre 16 e 18 de Abril de 2019 será fundamental para a gestão futura de crises [reais ou que se tornam reais a partir de suposições erradas], mas não sei se teremos - todos, colectivamente - essa capacidade.

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