Às vezes penso que será mérito do escritor (da escritora), outras vezes acho que é maldição minha. Acontece-me, com assinalável frequência, abrir o livro na página em que me encontro, ler meia-dúzia de parágrafos e encalhar num deles, sem conseguir prosseguir, saltar para o próximo período e continuar história fora, como âncoras que forçam paragens e obrigam a uma reflexão um pouco mais profunda sobre as palavras lidas. Destaco três livrinhos que me demoraram muitíssimo mais tempo do que justificava o seu tamanho: "O ano da morte de Ricardo Reis", de José Saramago; "O leitor", de Bernhard Schlink; e "Stoner", de Jonh Williams. Este último, lido já durante 2019, a conquistar o estatuto de leitura preferida nos 41 anos de vida que vou levando. E quase todos os livros de Afonso Cruz, naturalmente. O fenómeno tem-se repetido à medida que avanço em "A coisa - Livro I", de Stephen King, e esta manhã - dez minutos a pé entre o estacionamento e o escritório, livro em frente aos olhos e fé na divina providência para me escapar de buracos, cacos e merda que abundam na calçada portuguesa - encalhei no momento em que William "Bill" Denbrough, viajando de avião entre a Europa e o seu Maine natal, observa a curvatura da terra a partir o seu lugar no avião. Li o parágrafo e parei; voltei a lê-lo e não tive vontade de prosseguir; à terceira fechei o livro e conclui que aquele ponto final seria muito provavelmente um sinal com função, força e significado superior ao convencionado. Não sei se os estudiosos da escrita têm nome para parágrafos assim; para momentos da narrativa que, apesar de serem apenas parte desta, são ao mesmo tempo toda a narrativa condensada em cento e cinquenta caracteres.
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