04/04/2019

"Ainda..."

"Ainda" é um advérbio que remete para uma ideia de tempo - de situação no tempo -, e cujo sentido apenas se compreendo num determinado contexto. O contexto do "ainda..." que dá título a este "post" é o episódio de hoje, 4 de Abril de 2019, do programa de rádio "O amor é", pequenas conversas radiofónicas de Inês Maria Meneses [IMM] e Júlio Machado Vaz [JMV] sobre assunto da vida, uns mais genéricos, outros mais concretos. No programa de hoje falou-se sobre as mulheres birmanesas traficadas, violadas e depois cuspidas para as suas vidas anteriores depois de engravidarem e parirem filhos de homens chineses. O programa merece ser ouvido e para isso basta clicar aqui. O que despertou em mim a vontade de escrever sobre a edição de hoje de "O amor é" foi aquele "ainda..." com que IMM responde ao desabafo meio conclusivo com que JMV termina a sua intervenção sobre o tema. Ao "triste mundo" com que JMV conclui o seu raciocínio responde IMM com aquele natural "ainda...", como que sugerindo a tristeza que lhe causa [que nos causa] existir em pleno final da segunda década do século XXI mulheres cuja vida é trucidada nos termos expostos pela desumanidade de terceiros. O "ainda..." de IMM enquadra-se todavia numa linha de pensamento largamente dominante que olha o tempo e o progresso como aspectos linearmente correlacionados. O tempo passa, o mundo progride [nas suas várias dimensões, incluindo no que se refere a valores e perspectivas sobre a dignidade humana] e aquilo que "ainda..." não acompanhou o progresso será um género de triste anacronismo no tempo presente. Sobre o assunto tenho lido e reflectido - também com a ajuda do livrinho "Progresso: realidade ou ilusão?" -, e nessa reflexão não consigo deixar de considerar - pelo menos considerar - a perspectiva não linear, antes cíclica, relativa à ideia de "progresso". E neste, o "ainda..." de IMM perde em larga medida o seu sentido.


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