25/06/2019

One Breath Around The World

Tubarões Voadores



Se um miúdo fascinado por futebol e pelas estrelas do meio um dia tiver a oportunidade de se encontrar com o Cristiano Ronaldo, de lhe apertar a mão e de trocar com o ídolo dois dedos de conversa estou certo de que, trinta anos depois, se vai lembrar do encontro e de pelo menos algumas das circunstâncias em que o mesmo ocorreu. Eu nunca fui fascinado por futebol, embora tenha sido desde sempre fascinado pelo futebol do Belenenses. O meu fascínio de infância é azul e feito de água. Chama-se "mar". Não se trata daquele fascínio por muitos confessado e descrito sobre um mar companheiro e vizinho da sua vida quotidiana. O "meu" mar é o das grandes extensões marinhas para lá da linha de costa, é a casa das mais incríveis espécies não humanas que existem neste planeta. Por isso sempre fui um enorme admirador dos grandes divulgadores da ciência marinha e da ecologia do mar. Gente como o incontornável Jacques-Yves Cousteau, a quem dediquei um trabalho universitário de Etologia sobre a relação simbiótica do peixe-palhaço e da anémona do mar, ou como Stan Waterman, passando por John Ford [o estudioso das Orcas da "British Columbia"]. Acontece porém que quando ainda era miúdo, quando o sonho de me poder dedicar ao mar sem fim ainda não tinha à sua frente uma parede de betão, tive a oportunidade de conhecer em pessoa "o meu Cristiano Ronaldo". Naquela altura um grupo de gente ligada ao estudo das espécies marinhas fundou uma coisa chamada APECE, uma associação destinada a estudar elasmobrânquios, ou seja, tubarões e raias. Eu li sobre a APECE em qualquer parte - terá sido no "Notícias do Mar"? - e naquele tempo creio que "pré-internet" lá cheguei à fala com um biólogo marinho que andava de facto a fazer aquilo que eu desejava fazer depois de terminar os meus estudos: o João Correia. A APECE realizaria pouco tempo depois a sua primeira ou segunda Assembleia Geral e eu, que morava a dez minutos a pé do IPIMAR, lá fui não apenas inscrever-me [eventualmente fui, naquela circunstância, o associado mais jovem da APECE] mas participar na histórica AG que institucionalizou [se bem me lembro] uma associação dedicada a tubarões aqui mesmo em Portugal. Não me lembro de ter estado com o João Correia noutras circunstâncias embora nunca o tenha perdido de vista durante muito tempo. Muitos anos depois daquela tarde no IPIMAR conversei com ele pelo telefone e tive a oportunidade de confirmar a minha impressão acerca da sua evidente afabilidade, humor e sentido prático. O João é, em certo sentido, aquilo que não sou e que gostaria de ter sido, ou de vir a ser. A vida afastou-me do mar e parece-me evidente que nesta fase já não há grande coisa a fazer, não sei. Em todo o caso ler "Tubarões Voadores", o livro autobiográfico do João Correia lançado creio que durante o presente ano de 2019, faz-me sentir um pouco mais próximo da água salgada, dos bichos com quem cheguei a pensar que me iria "casar", dos camarotes apertados dos navios em que nunca viajei e da vida louca que de facto não é para todos e que o João soube - e sabe - viver e contar. Eu tenho alguma inveja do João, não há volta a dar. Mas ao mesmo tempo sinto-me profundamente grato por saber que a vida - e a sua capacidade, resiliência e coragem - nos ter "dado" um português como este.


19/06/2019

Temos futuro.

Os sócios e adeptos do Clube de Futebol "Os Belenenses" tomaram ontem conhecimento, durante a  Assembleia Geral [AG] de Sócios realizada no Pavilhão Acácio Rosa, da aprovação do projecto de requalificação da primeira parcela do Complexo que, de acordo com o "PIP", poderá ser rentabilizada pelo Clube através da contratualização de direito de superfície com promotores de projectos de natureza diversa. No caso da parcela em causa o projecto agora aprovado destina-se à construção de uma área comercial que incluirá um supermercado Lidl. Trata-se de uma notícia desde há muito ansiada pelos belenenses por se encontrar este processo directamente ligado à saúde financeira do Clube e a projectos de modernização futura, que passam também - naturalmente - pela requalificação dos espaços directamente vocacionados para a prática desportiva das várias modalidades do Belém, incluindo naturalmente o futebol. O Complexo Desportivo do Restelo tem-se degradado ao longo de décadas e todos aqueles que todos os dias vivem os problemas ligados aos constrangimentos de espaços no Restelo anseiam por passos em frente na modernização do Pavilhão e do Estádio, pela eventual reconstrução das Piscinas e pela remodelação - ou construção de raiz - de unidades de apoio ao trabalho das secções desportivas, capazes de dar às nossas equipas condições de trabalho próximas àquelas de que gozam os nossos rivais históricos. Hoje, modalidades como o Basquetebol e o Voleibol - que não são reconhecidamente prioritárias na política de investimentos da actual direcção do Clube - têm nos espaços [ou na falta deles] o principal problema ao desenvolvimento do talento que inegavelmente existe no Belenenses. Sublinho: mais do que dinheiro é de mais espaços para treino e competição que precisamos. O pontapé de saída na efectiva concretização da requalificação do Complexo terá certamente em conta essa necessidade premente, que além do mais representa custos avultados para as diferentes secções por via de alugueres de uma dezena de pavilhões fora do Restelo. Associada ao tema do projecto do Lidl surge também a questão da participação ainda existente do Clube de Futebol "Os Belenenses" na sociedade anónima desportiva que se separou do Clube no verão passado. Segundo o Presidente da Direcção do Clube "chegou o momento de vender os 10%" do capital social daquela sociedade, iniciativa que de resto já foi validada pelos sócios em anterior AG e que significará o corte final e definitivo com a realidade institucional do clube entretanto constituído em torno da empresa "Codecity", e que hoje conta não apenas com uma equipa profissional de futebol mas também com vários escalões de formação de futebol juvenil. Tratou-se pois de uma AG relevante, que debateu e apreciou assuntos de enorme relevância para o futuro do Belenenses associativo, consagrado e popular. Temos futuro.

17/06/2019

Nunca mais começa a temporada 2019/2020... Venha ela!

Pouco tenho a acrescentar ao que desde o final da tarde de sábado se foi dizendo, escrevendo, gritando, sentido e partilhando acerca da temporada 2018/2019 do futebol no Belenenses. De resto sou incapaz de viver o Clube de forma parcial, para mim o Belenenses é um só, do futebol à natação, passando por todas as restantes modalidades e considerados todos os escalões do Clube. E na verdade foi um ano em cheio. Como dirigente do basquetebol, colaborador do clube na área da comunicação e sócio que procura estar presente em todas as circunstâncias acho que "dei o litro", muitas e muitas vezes com profundo prejuízo para a minha família, e nesse sentido sinto-me de consciência associativa totalmente limpa. Posso dizer que na época que termina fiz de tudo. Viver o Clube por dentro, em tarefas "de sapa" não raras vezes invisíveis mas sem as quais não há Belenenses, é profundamente enriquecedor, ainda que esgotante. Por outro lado, num Belenenses associativo, dos sócios e para os sócios, cabe-nos sacrificar tempo e bem estar pessoal em prol do projecto comum. Foi assim desde 1919. Será assim no futuro, sejam quais forem os nomes e as caras que carregam as águas, fazem os lanches, conduzem as carrinhas, levam atletas ao hospital e depois os acompanham para que nunca se sintam sozinhos nos momentos mais difíceis. Custa mas compensa. Aliás, aquela tarde de sábado foi - no que ao Belenenses diz respeito - uma das mais felizes da minha vida. Já ninguém a tira a todos aqueles que lá estiveram, ou a quantos estiveram no Restelo e nos muitos campo da "distrital" que visitámos nesta longa caminhada. Perdoem-me se falo tanto de mim... é a minha experiência e a minha vivência que conheço, não falo pelos outros. É também esse um dos méritos deste Belenenses libertado de amarras: cada um tem a sua voz, e cada voz conta. Nunca mais começa a temporada 2019/2020... Venha ela!

11/06/2019

Justin Edinburgh



Já me passou a febre de assumir vinculações clubísticas com clubes estrangeiros. Acompanho alguns, sobretudo se neles identificar semelhanças com o Belenenses, e sinto-me identificado com outros, por razões diversas que variam de emblema para emblema, embora não sinta - não possa sentir, por manifesta incapacidade - por nenhum emblema aquilo que sinto pelo Clube da minha vida. Dito isto, se há clube que em Londres vou acompanhando com atenção, jornada a jornada, é o Leyton Orient FC, emblema do bairro com o mesmo nome que, depois de sair dos campeonatos da esfera da Football Association [disputou em 2018/2019 a National League, quarta divisão inglesa], regressou este ano com brilhantismo e alma aos Campeonatos Profissionais, sob o comando de Justin Edinburgh, o treinador que pegou na equipa para a devolver ao seu lugar. Foi aliás em conversa com um consócio belenenses, no Arraial do Centenário que em boa hora o Clube organizou após a jornada final da série 2 do Campeonato da 1ª Divisão da AFL, que fiquei a saber que horas antes Justin Edinburgh havia falecido inesperada e tragicamente aos 49 anos. É uma notícia triste para o Leyton Orient e, naturalmente, para a família de Justin Edinburgh. Pela minha parte reforcei a ligação ao Orient inglês, apoiando-o na sua difícil caminhada que passou recentemente na libertação de um ex-proprietário sem respeito pela história do Clube e pelos seus verdadeiros donos.

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07/06/2019

Revisionismo

As comemorações do chamado "Dia D", data do desembarque de tropas aliadas nas praias do norte de França, têm sido palco para um miserável exercício de revisionismo histórico que, uma vez mais, relativiza e menoriza o papel incontornavelmente principal do Exército Vermelho na fragilização das forças armadas hitlerianas e na libertação de dois terços da Europa, incluindo dos campos de concentração e extermínio que na fase final da guerra subsistiam na parte oriental da zona de conflito, incluindo o Complexo de Auschwitz-Bikernau. A abertura de uma segunda frente na luta contra o fascismo hitleriano foi desde muito cedo um pedido formulado pela União Soviética às forças que no lado ocidente se opunham ao "III Reich", sendo esta adiada de forma a promover o desgaste e a destruição de alemães, soviéticos e outros povos apanhados pelo caminho na chamada "Frente Oriental". O desembarque na Normandia aconteceu quando se tornou evidente para ingleses, franceses e norte-americanos que o acelerado avanço soviético poderia resultar na tomada não apenas de Berlim mas de todo o território alemão antes das tropas "aliadas" ali chegarem, marcando um terreno e uma zona de influência que mais tarde viria a chamar-se [como aliás ainda se chama hoje] República Federal Alemã. Nada disto retira um milímetro de mérito, honra e heroísmo aos homens e às mulheres que desembarcaram e lutaram contra os fascistas naquele dia 6 de Junho de 1944. Da mesma forma que o anti-comunismo de muitos que falam sem os mais básicos conhecimentos sobre os acontecimentos de 1933-1945 não deveria jamais fazê-los esquecer que a URSS perdeu entre 1933 e 1945 mais de 25 milhões de pessoas entre tropas, partizans e civis, armados e desarmados. Nenhum outro país sofreu tanto com uma guerra, talvez com a excepção, em proporção, da Sérvia durante a Primeira Grande Guerra 1914-1918.

As comemorações do chamado "Dia D" têm também servido de pretexto para muitos lembrarem o chamado "Pacto de Não-Agressão" assinado entre soviéticos e alemães pouco antes da invasão da Polónia pelas Wehrmacht. O "pacto" foi de facto assinado, não há como negar. Mas não pode de forma alguma ser entendido sem a análise de todos os esforços empreendidos pelos soviéticos durante os anos 30 no sentido de prevenir a guerra, tão pouco sem se ter em conta que a década de 30 do século XX foi fértil em pactos e acordos diversos, alguns dos quais pelo menos tão difíceis de compreender, na anacrónica visão que impera em 2019 face aos acontecimentos de 33-45, como o célebre pacto Molotov-Ribbentrop. Refiro-me por exemplo [porque outros existiram e foram de facto importantes num contexto de grande volatilidade e interdependências] ao chamado "Acordo de Munique", assinado entre fascistas, ingleses e franceses, e que ofereceu parte da Checoslováquia aos nazis numa bandeja, ou ao "Pacto de Não-Agressão" assinado entre polacos e nazis em Janeiro de 1934, cinco anos antes da Wehrmacht ter entrado em território polaco e iniciado a II Grande Guerra. Existe sobre a matéria - sobre os anos 30 e sobre as alianças, pactos e acordos então firmados - extensa bibliografia que é capaz de ser mais elucidativa relativamente ao contexto pré-guerra do que as séries documentais do canal História.


06/06/2019

State of Love and Trust



Em certo sentido nenhum verdadeiro movimento - e aqui movimento tem duplo sentido, referindo-se como imagem a uma dinâmica e, em sentido literal, a uma modificação da posição física de algo no espaço-tempo - é reproduzível fora do seu contexto. O metal de 2019 relaciona-se com o metal de 1980, tem elementos artísticos, musicais, estéticos e até ideológicos que se intercepção e asseguram alguma continuidade. Mas o metal de 2019 não é o metal de 1980. A mesma conclusão aplica-se a uma série de outras "etiquetas" musicais mais antigas e/ou mais recentes, com a excepção do "grunge", que é um movimento sem definição composto por bandas e projectos musicais que sempre desprezaram a expressão e o seu significado comercial. E na verdade, se praticamente 30 anos depois dos acontecimentos de Seattle é genuinamente impossível atirar para dentro de uma gaveta bandas claramente identificadas com uma definição comum do que foi o "grunge", parece-me ainda mais evidente que o que quer que seja que se passou no início dos anos 90 naquela pedaço de costa oeste dos Estados Unidos da América ficou naquela espaço e naquele tempo, sem continuidade nem continuadores, incluindo por parte daqueles que sobreviveram aos terríveis anos da fama desproporcionada. O "grunge", se de facto existiu, é filho de um tempo verdadeiramente singular e irrepetível, marcado pelo fim da chamada "Guerra Fria", pelo advento do cinismo unipolar e pelos últimos segundos de um mundo sem internet massificada. Felizes daqueles que viveram - e viver não é apenas "experimentar" - com 14 ou 15 anos aquela mensagem híbrida de niilismo-punk em resposta ao triunfalismo bacoco da "fim da história" de Francis Fukuyama. O "grunge" não volta porque o contexto do "grunge" não existe, os miúdos do "grunge" cresceram e o que resta do "grunge" está embalado e disponível em prateleiras semelhantes àquelas que nas livrarias têm a meia-dúzia de títulos de ficção-científica que alguns desenraizados ainda procuram. Douglas Coupland explica num dos últimos romances pré-internet que merece a pena ser lido. Não fiquem à espera do filme, porque na história não idealizada dos jovens adultos dos anos 90 nem o Cameron Crowe vai pegar.

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Interrogação [na ressaca do Portugal x Suiça]

Existe uma dimensão religiosa na vivência do fenómeno desportivo que se expressa na prática de diversas formas, incluindo na higienização dos ídolos, face reversa da outra mais comercial, que passa pela sua transformação primeiro em marca e depois em mercadoria destinada ao ciclo de promoção, compra, venda e/ou troca. Para as grandes massas, os ídolos são seres relativamente aos quais não se imaginam pecados, ou cujos pecados - quando conhecidos - são grosseiramente ignorados, por se considerem de valor inferior ao ganho - material e imaterial - que o ídolo em acção proporciona à comunidade como um todo e a cada um dos seus membros em particular. Ronaldo, por exemplo, é hoje tema de conversa um pouco por todo o país e, claro está, pelo mundo fora. Os três golos com que despachou a Suiça na meia-final da presente edição da Liga das Nações são bem a prova da qualidade do jogador, depois catapultada pela já referida dimensão religiosa na vivência do fenómeno desportivo para uma dimensão supra-desportiva que é, quanto a mim, inteiramente questionável. Nem sempre um jogador de excelência é uma pessoa cuja conduta fora de campo merece semelhante admiração. Na verdade - e isto não se aplica apenas a jogadores de futebol - o ser humano é por natureza um poço de contradições e conflitos que se agudizam quando a vida lhe proporciona os meios para lhes dar maior dimensão. Como aconteceu a Ronaldo. É que o homem que ontem subiu - uma vez mais - aos píncaros do mérito desportivo, para gáudio - natural e justificado - daqueles que vibram com a selecção portuguesa de futebol sénior masculina é o mesmo ser que se encontra desde o início de 2019 condenado a 23 meses de cadeia [depois substituídos por uma multa de 360.000,00€] mais uma multa de 18.800.000,00€ [perto de 19 milhões de euros] por fraude fiscal. E isto não sou capaz de ignorar, quer na minha visão sobre quem é Cristiano Ronaldo no quadro da psicologia colectiva deste povo, quer na forma como interpreto a absolvição colectiva que lhe atribuímos enquanto condenamos - moralmente - qualquer pobre apanhado em delito cujo grau de gravidade é infinitamente menor. Pode um povo sem paciência para os miseráveis que acusa de "viverem do Estado" curvar-se perante quem, independentemente de méritos desportivos, pratica contra o Estado e os seus recursos "fraude fiscal" envolvendo valores astronómicos para o bolso da esmagadora maioria?

03/06/2019

Política & Desporto [iii]

Se todas as formas de comprometimento assumidas no espaço público - incluindo a falta de comprometimento, que é à sua maneira um forma de comprometimento ela mesma... - são políticas, então no contexto específico do desporto aquela que melhor exprime a minha visão do futuro para um Clube - para o meu Clube em particular - é a da defesa do associativismo e da soberania associativa contras as ideias [e práticas] do primado do "negócio" e da "indústria". Uma defesa que se faz com decisões concretas e actos visíveis, palpáveis, sentidos e nunca simulados. Faz-se com palavras com conteúdo, com sentimentos dentro. Palavras como aquelas dirigidas pelo grupo de trabalho do Andebol do Belenenses, após a vitória na Maia, frente ao Águas Santas, na dedicatória do jogo a um associado sempre presente a passar um momento difícil. Faz-se com gestos concretos, como aquele protagonizado pelo plantel principal de Futebol do Belenenses, na Malveira, a favor de um sócio a passar uma fase difícil da sua vida. Faz-se com o carinho espontâneo que se torna evidente no contacto dos craques de azul com aqueles que os seguem para todo o lado, aqueles que gastam a voz, que sacrificam a carteira, a família e o descanso para dar corpo e alma à ideia de um Belenenses consagrado e popular. Este mundo está cheio de craques da bola - jogadores e treinadores - que no momento mais alto das suas carreiras perdem a vergonha e desafiam os poderes da "indústria" com palavras aparentemente incómodas. A verdade é que a "indústria" dorme bem com elas, não as sente como ameaça maior do que um pequeno e episódico beliscão. Coisa diferente será a perspectiva de Clubes com representatividade, nome e história se organizarem para fazer diferente, fora da lógica do primado do negócio. E nesse processo não se envolverem apenas dirigentes e sócios mas também, à sua maneira, os próprios atletas das diferentes modalidades, incluindo do futebol. Isso sim, é política. E política no sentido mais nobre da palavra. Reflexão e acção sobre as causas comuns. O Belenenses vive - pelo menos para já - um processo assim. E é também por isso que, mais uma vez na sua história, o Belém demonstra que não é "apenas" um grande Clube; é também e sobretudo uma certa forma de estar na vida.


31/05/2019

Gary Snyder



[Ecologia profunda, ecologia que vem de dentro, da íntima relação com o espaço, com a realidade material e com a dimensão imaterial que é parte da consciência de cada lugar, ecossistema, bioregião]

29/05/2019

"Beds Are Burning"

Ouvia esta manhã a muito aconselhada crónica radiofónica de Rui Cardoso Martins, todas as quartas-feiras pelas 8h35 na Antena1, durante a qual citava a adolescente da moda, Greta Thunberg, que em tirada de antologia terá dito que enquanto tudo à volta arde "os nossos pais debatem o final da Guerra dos Tronos". Eu ouvi e lembrei-me de uma canção antiga, de 1987, à qual os australianos Mignight Oil chamaram "Beds are burning". A canção tem o mesmíssimo sentido da observação de Greta, chamando a atenção à a imensa degradação ambiental a par da ainda maior indiferença que em 1987 - como de resto hoje... - se sentia [1]. De resto os Midnight Oil não foram os primeiros a dizê-lo nem depois de 1987 houve um hiato de quase 30 anos sem que ninguém viesse a terreiro avisar que a banda do Titanic continua a tocar enquanto todos os anos desaparecem milhares de espécies animais e vegetais, milhões de hectares de floresta são destruídos, centenas de rios são dizimados, milhões de seres humanos são ameaçados pelos efeitos directos e indirectos da devastação que o sistema de engorda de poucos impõe a uma imensa maioria apática. E eu, que até sou fã de Greta, fico a pensar se independentemente das suas intenções e do valor do seu exemplo e mensagem, a jovem Thunberg não foi já transformada em santa de altar do ecologismo da moda, colorido e new-age, fundamentalmente inconsequente e indolor para os detentores dos comandos do mundo; aquela ecologia que recusa sacos de plástico no supermercado mas não está disposta a lutar por alterações profundas e radicais [no sentido em que atacam a raiz dos problemas] que passam inevitavelmente pela superação [revolucionária] do capitalismo.



[1] "How can we dance when our earth is turning? / How do we sleep while our beds are burning?".