
Se um miúdo fascinado por futebol e pelas estrelas do meio um dia tiver a oportunidade de se encontrar com o Cristiano Ronaldo, de lhe apertar a mão e de trocar com o ídolo dois dedos de conversa estou certo de que, trinta anos depois, se vai lembrar do encontro e de pelo menos algumas das circunstâncias em que o mesmo ocorreu. Eu nunca fui fascinado por futebol, embora tenha sido desde sempre fascinado pelo futebol do Belenenses. O meu fascínio de infância é azul e feito de água. Chama-se "mar". Não se trata daquele fascínio por muitos confessado e descrito sobre um mar companheiro e vizinho da sua vida quotidiana. O "meu" mar é o das grandes extensões marinhas para lá da linha de costa, é a casa das mais incríveis espécies não humanas que existem neste planeta. Por isso sempre fui um enorme admirador dos grandes divulgadores da ciência marinha e da ecologia do mar. Gente como o incontornável Jacques-Yves Cousteau, a quem dediquei um trabalho universitário de Etologia sobre a relação simbiótica do peixe-palhaço e da anémona do mar, ou como Stan Waterman, passando por John Ford [o estudioso das Orcas da "British Columbia"]. Acontece porém que quando ainda era miúdo, quando o sonho de me poder dedicar ao mar sem fim ainda não tinha à sua frente uma parede de betão, tive a oportunidade de conhecer em pessoa "o meu Cristiano Ronaldo". Naquela altura um grupo de gente ligada ao estudo das espécies marinhas fundou uma coisa chamada APECE, uma associação destinada a estudar elasmobrânquios, ou seja, tubarões e raias. Eu li sobre a APECE em qualquer parte - terá sido no "Notícias do Mar"? - e naquele tempo creio que "pré-internet" lá cheguei à fala com um biólogo marinho que andava de facto a fazer aquilo que eu desejava fazer depois de terminar os meus estudos: o João Correia. A APECE realizaria pouco tempo depois a sua primeira ou segunda Assembleia Geral e eu, que morava a dez minutos a pé do IPIMAR, lá fui não apenas inscrever-me [eventualmente fui, naquela circunstância, o associado mais jovem da APECE] mas participar na histórica AG que institucionalizou [se bem me lembro] uma associação dedicada a tubarões aqui mesmo em Portugal. Não me lembro de ter estado com o João Correia noutras circunstâncias embora nunca o tenha perdido de vista durante muito tempo. Muitos anos depois daquela tarde no IPIMAR conversei com ele pelo telefone e tive a oportunidade de confirmar a minha impressão acerca da sua evidente afabilidade, humor e sentido prático. O João é, em certo sentido, aquilo que não sou e que gostaria de ter sido, ou de vir a ser. A vida afastou-me do mar e parece-me evidente que nesta fase já não há grande coisa a fazer, não sei. Em todo o caso ler "Tubarões Voadores", o livro autobiográfico do João Correia lançado creio que durante o presente ano de 2019, faz-me sentir um pouco mais próximo da água salgada, dos bichos com quem cheguei a pensar que me iria "casar", dos camarotes apertados dos navios em que nunca viajei e da vida louca que de facto não é para todos e que o João soube - e sabe - viver e contar. Eu tenho alguma inveja do João, não há volta a dar. Mas ao mesmo tempo sinto-me profundamente grato por saber que a vida - e a sua capacidade, resiliência e coragem - nos ter "dado" um português como este.








