27/05/2019

¿Lo oyen?

Abstenção

Nunca fui, não sou e temo bem que nunca venha a ser suficientemente inteligente para interpretar resultados eleitorais em toda a sua complexidade. Os meus parcos recursos interpretativos limitam-se aos grandes números e à sua evidência mais explícita. Coisas como os 70% de eleitores que ontem se deram ao trabalho de não se darem ao trabalho, e relativamente aos quais se produzem as mais diversas teses, todas depois unificadas em torno da ideia de "abstenção de protesto", como se uma mole de 7.247.674 pessoas se tivessem reunido e, depois de aturado debate, decidido enviar à "classe política" uma mensagem em uníssono de repúdio relativo aos "partidos tradicionais". Pela minha parte, sem necessidade de agradar a ninguém, e com a única obrigação de ser coerente com o que penso, acredito que independentemente de razões particulares que terão impedido pequenos grupos de eleitores de exercerem o seu direito de voto por razões atendíveis, e descontados os abstencionistas ideológicos, a esmagadora maioria dos 70% dos ausentes são pessoas que se sentem moralmente acima daquilo a que por cá se convencionou chamar "democracia", não desejando todavia nada de substancialmente diferente no que à organização política, económica, social, cultural e ambiental das comunidades diz respeito. É uma tese como qualquer outra e esta, garanto-vos, é mesmo aquela em que acredito. Não os vejo reivindicando mecanismos de participação directa nas decisões políticas, coisa que justificaria uma menor disposição para os mecanismos da delegação de poder. Por isso aquilo que os desmotiva relativamente à participação nas eleições é uma ideia genérica de não merecerem os partidos o incómodo da sua deslocação às urnas. Por mim tudo bem, defendo que no limite todos temos o direito de não nos importarmos com aquilo que nos transcende; como diriam os Ultras do FC Sankt Pauli "até os imbecis têm direitos" [referindo-se aos neonazis do Fußballclub Hansa Rostock] e o direito à indiferença está aí, à mão da "maioria silenciosa". Seja como for, o que mais me importa, contados os votos e encontrados os "não votos", é aquela formulação do anarquista galego Ricardo Mella relativa ao acto de votar, e que aplicada ao acto de não votar fica mais ou menos na mesma: "se vocês não quiserem votar, não votem; a mim, o que mais importa é saber o que fazem nos restantes 364 dias do ano".

Balanço eleitoral:

No one is coming to save you, Comrade.
[...]
Everybody is sure change is right around the corner, that divine powers will steer us the right way. Everybody is sure time is on our side, that the good ones will always win and that things can’t hold out much longer. Everybody says a revolution is possible with no bloodshed and no hard feelings, that everyone will be heard and cared for.
Everybody is waiting. Waiting for something. Waiting for somebody, somebody to save them.
They aren’t coming to save you, Comrade.
Nobody is.


24/05/2019

No domingo eu voto CDU.


É o cona!



["La dictadura de la estupidez"]

Árvores apressadas

Não sou fã da correlação de factores mais ou menos aleatórios na tentativa de comprovar relações de causalidade que sirvam a uma determinada narrativa sobre um assunto. Em todo o caso, quando um tema nos interessa e quando sobre ele andamos a fazer leituras cruzadas é bem possível que num espaço relativamente curto de tempo nos cruzemos com textos que, escritos por pessoas, em lugares e em tempos absolutamente distintos, se relacionem -directa ou indirectamente - de forma mais ou menos evidente. O "El Pais" publicava no passado dia 20 um pequeno texto sobre um estudo que sugere que em algumas partes do mundo, e devido à subida das temperaturas, as árvores estão a crescer mais rápido e a morrer mais depressa, o que entre outras implicações influencia a capacidade das massas florestais para reterem [para "armazenarem"] carbono. O estudo, relativo às espécies Pinus unicinata e Lariz sibirica, sugere igualmente que plantar árvores é uma boa prática, mas que melhor será gerir correctamente as massas florestais já existentes, evitando a desflorestação. Poucas horas depois de ler esta peça sobre árvores apressadas, árvores demasiado ansiosas por crescer e morrer, cruzei-me com um parágrafo de "A prática da natureza selvagem", de Gary Snider, que se refere à atenção e ao tempo [dois elementos da vida natural em acelerada extinção], e que não consegui deixar de relacionar com a imagem de pinheiros negros crescendo mais depressa para morrerem ainda jovens: "com tempo e atenção, voltaremos a ser capazes de os sentir e descobrir de novo" [refere-se aos lugares sagrados dos povos indígenas e "primitivos"]. E aqui o ponto chave parece ser o tempo imposto pela vida moderna - e pelas alterações climáticas - que vai entrando em contradição cada vez mais evidente com variáveis aparentemente imutáveis da vida para lá de nós, humanos.

23/05/2019

"Anthropocene"

Rebellion

Política & Desporto [ii]

Num contexto interno e externo marcado por uma clara depreciação da política, não raras vezes confundida com o aspecto particular do "partidarismo", a mobilização das pessoas para as causas comuns faz-se com custo e não raras vezes sem sucesso, independentemente da justeza da causa e da urgência do motivo. Por outro lado, mobilização em torno de um tema genérico - de que a questão das alterações climáticas é eventualmente o exemplo mais actual - não significa de forma alguma alinhamento de ideias, posturas e motivações em torno das soluções. Esta contradição é frequentemente geradora de frustrações por um lado e efectivo imobilismo por outro. É também assim no contexto específico do desporto em geral e do desporto-profissional industrializado em particular. A transformação dos atletas em produtos de consumo e a transmutação equipas em "marcas", representando já não ideais associativos mas slogans comerciais, são aspectos hoje percepcionados por alguns como verdadeiros cancros alojados no corpo aparentemente saudável do desporto de alta competição, transpirando depois no sentido descendente da pirâmide etária e competitiva. E isto é ideológico e intrinsecamente político. Da mesma forma que são temas ideológicos e fortemente politizados a questão dos preços dos bilhetes para os jogos [para os "espectáculos desportivos"], a hiper-valorização das peças de "merchandising" [que é como quem diz, a mercantilização dos símbolos associativos], o afastamento dos adeptos dos centros de decisão associativa por via da constituição de estruturas aparentemente controladas pelos clubes mas que já não se encontram na esfera da soberania associativa, a substituição dos meios de financiamento directos [a quotização associativa, desde logo] por fontes de receitas que deixam os antigos clubes-associações nas mãos de televisões, bancos, fundos e outros poços sem fundo, o afastamento dos clubes-associações face às comunidades que são a sua primitiva e primordial razão de ser. É nesse contexto que declarações aqui e ali produzidas por gente que vive do e para o sistema parecem [aparentam] ser formas de sabotagem do poder ilimitado dos actuais donos do jogo [dos jogos].

[continua]

22/05/2019

Política & Desporto [i]

Existe uma inequívoca dimensão política no desporto, manifesta implícita ou explicitamente na forma como este se organiza e afecta dimensões várias da vida das comunidades, como é percebido e vivenciado por praticantes - profissionais ou amadores -, treinadores, dirigentes e outros elementos de estrutura, adeptos e, nos países onde o desporto assenta em clubes-associações, pelos associados de cada um dos emblemas envolvidos. Não é possível desligar a política do desporto da mesma forma que, independentemente de tentativas para o concretizar, não é possível retirar conteúdo político às artes plásticas, à literatura, ao cinema ou ao teatro. O desporto é, à sua maneira, uma expressão da criatividade humana, e esta é naturalmente influenciada por ideias, perspectivas e análises ideológicas sobre a comunidade, o mundo e o papel do indivíduo e do colectivo em cada um destes contextos. Quem não o compreende revela desatenção crónica ou manifesta incompetência para olhar o desporto no seu enquadramento social, económico, político, cultural e até ambiental. De resto as manifestações políticas dentro dos recintos e nas competições desportivas não são expressões artificiais e desligadas do desporto em si mesmo. A história do movimento olímpico moderno, por exemplo, encontra-se repleta de acontecimentos políticos e afirmações ideológicas não raras vezes manifestadas por atletas. No futebol essa tendência para a politização do jogo é ainda mais evidente e constante, remontando às suas origens mais bairristas e/ou de classe. Que se desengane quem julgar que o casamento entre desporto e política, ou mais concretamente entre futebol e política, é uma realidade própria de ditaduras ou um casamento de conveniência entre dirigentes desportivos e decisores políticos. As manifestações políticas no desporto em geral e no futebol em particular têm sobretudo expressão e relevância precisamente nos aspectos do jogo que fogem ao controlo das cúpulas dirigentes [dirigentes desportivos e políticos]: das Assembleias Gerais de sócios aos panos caseiros que surgem nas bancadas exprimindo sentimentos de apoio ou oposição a aspectos "políticos" do jogo [empresarialização/privatização do desporto, preços dos bilhetes, horários dos jogos determinados por interesses publicitários, etc...] ou a aspectos que o transcendem em absoluto [do pedaço de bancada no Estádio Nacional do Chile reservada à memória dos torturados e assassinados no golpe de 1973 às bandeiras irlandesas, bascas ou palestinianas nas bancadas do Celtic Park de Glasgow]. Surgem igualmente no discurso de protagonistas do jogo - jogadores e treinadores - que de tempos a tempos lembram a vida para lá do estádio, assumindo sobretudo o mérito de lembrar aos adeptos da bancada que não deixam de ser cidadãos, trabalhadores, desempregados, gente que sofre a exploração e/ou discriminações várias quando entram pelos portões dos vários "teatros dos sonhos".

[continua]