09/05/2019
Dia "da Europa"
9 de Maio é, no calendário litúrgico do status quo, o Dia da Europa. Tanto quanto sei existem dois dias "da Europa", a 5 e 9 de Maio, mas para o caso tanto dá, porque o que me interessa nesta prosa é a própria designação da data ["da Europa"] quando o que está em causa não é a Europa enquanto espaço físico mas a Europa institucionalizada enquanto realidade económica, política, militar, diplomática e cultural, sob a capa da União Europeia e dos seus mecanismos de absorção ["de integração", como se fiz em "europês"], com destaque para a moeda única ou marco europeu, comummente designada como "euro". Existe naturalmente uma diferença óbvia, inquestionável, entre a Europa e a União Europeia. A Europa é uma realidade que antecede, que supera e que sobreviverá à União tal como a conhecemos. Em todo o caso, num mundo com memória de galinha, parece cada vez mais difícil conceptualizar e sobretudo vivenciar Europa e União Europeia como realidades e ideias autónomas, ainda que naturalmente relacionadas. A 24 de Abril de 1974 dizia-se em Portugal "não questionamos Deus, a Pátria e a Família". Hoje, a 9 de Maio de 2019, os dogmas ainda fazem escola, ainda que redireccionados para outros objectos de culto. Não questionamos o crescimento económico, a economia de mercado e, claro está, "a Europa" [propositadamente confundida com a União Europeia] em todas as suas múltiplas e cada vez mais vincadas injustiças e contradições. E é precisamente a postura acrítica dominante relativamente aos referidos dogmas que os torna particularmente nocivos para a vida diária e concreta daqueles que por circunstâncias que não lhes foram e são alheias nasceram do lado de cá ou do lado de lá das apertadas e cada vez mais blindadas fronteiras de Schengen. A Europa idealizada só vive na cabeça daqueles que se demitiram de a pensar ou então daqueles que metidos dentro da sua burocracia vivem longe das dificuldades dos "europeus" de segunda.
08/05/2019
Odeio a internet
[em "Odeio a Internet", de Jarett Kobek]
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06/05/2019
5G

Eu não ando a fazer marcação ao jornalista Paulo Moura. Leio-o e ouço-o com a atenção que só se dispensa a quem julgamos merecê-la, num mundo fundamentalmente desatento. E foi precisamente a minha atenção à sua crónica radiofónica desta manhã que me motivou esta prosa. Paulo Moura dedicou a sua crónica à questão - relevante! - da falta de escrutínio sobre grandes corporações que hoje controlam, sobretudo no que se refere a "informação", mais dados que muitos estados [juntos]. O tema é sensível e pertinente, sobretudo quando a chamada tecnologia "5G" parece estar já ali, com todas as imensas transformações que promete. O problema que identifico na crónica de Paulo Moura não diz respeito ao tema nem às suas considerações sobre os problemas que resultarão, inevitavelmente, do salto para o vazio absoluto da digitalização descontrolada; o problema diz respeito à ideia, na minha perspectiva míope ou então pouco séria, de que mau mesmo é a tecnologia 5G nas mãos dos chineses [por eventual oposição ao carácter benigno da mesma tecnologia nas mãos do chamado "ocidente"]. À crónica de Paulo Moura não faltou sequer um momento CMTV, quando se referiu à possibilidade de carros comandados à distância, a partir da China, poderem mediante um clique mal intencionado desatarem a atropelar indefesos cidadãos nas cidades do ocidente. O problema do 5G é, antes de mais, o próprio 5G. Não é o 5G nas mãos erradas, até porque o 5G seguir-se-á um 6G e esse salto ninguém sabe [ainda] quem o dará; é o 5G. O problema do 5G é ser esta tecnologia o momento em que a humanidade mete em definitivo o cano da arma tecnológica na têmpera do seu corpo colectivo. E a arma disparará e a "bala" será letal, independentemente da nacionalidade do fabricante. Paulo Moura identifica na sua crónica uma série de problemas reais que não serão do mundo de amanhã, são de ontem e de hoje. Vale bem a pena ouvi-la. Mas com sentido crítico e sem preconceitos etnocentricos.
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03/05/2019
José
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02/05/2019
A revolução não será televisionada [ii]
A meio da tarde do passado dia 30 de Abril boa parte da imprensa indígena dava como certa a vitória do golpe de estado promovido pelos Estados Unidos da América, e no terreno assumido pelo duo golpista Guaidó/López, na República Bolivariana da Venezuela. As notícias veiculadas em Portugal não encontravam qualquer correspondência com a situação real vivida em Caracas, a começar pelo boato/rumor da ocupação da base aérea La Carlota, local onde - a partir do exterior - Guaidó apelou ao início da guerra civil, acompanhado de Leopoldo López e de "meia-dúzia" de militares golpistas totalmente desacompanhados de tropas verdadeiramente mobilizadas para uma qualquer acção de força contra o governo constitucional da Venezuela e contra a maioria popular que o apoia e suporta nas urnas e nas ruas. Imagens transmitidas de dentro da unidade militar La Carlota pelo Canal venezuelano/regional Telesur desmentiam em directo o que se escrevia em Portugal e muito milhares de venezuelanos que se agrupavam em torno de Miraflores - o palácio da presidência - davam resposta em tempo real a quantos, ao longe e aparentemente mal informados, faziam trocadilhos entre o apelido do presidente venezuelano e a "eminente" vitória do patético "golpe" protagonizado pela extrema-direita do partido "Vontade Popular". O golpe, que sendo real merece aspas pela sua natureza infantil, precária, bizarra e distante da população, foi verdadeiramente a demonstração da falta de sustentação das considerações definitivas e concludentes que sobre a Venezuela e a sua situação política se debitam por cá todo o santo dia desde a morte do Comandante Hugo Rafael Chávez Frias. Como um dedo apontado à ignorância de quem, com assinalável arrogância, fala de uma realidade que em absoluto desconhece com a certeza que apenas os tolos ostentam com orgulho perante outros bem menos definitivos na forma como observação, interpretam e analisam situações verdadeiramente complexas. O que se passou entre 30 de Abril e 1 de Maio na Venezuela e nas ruas de Caracas em particular não caracteriza apenas a Venezuela e a sua realidade política, económica, social e cultural; trata-se também de uma oportunidade de ouro para compreendermos o papel que os grandes meios de comunicação social desempenham nestes contextos, procurando moldar percepções, não raras vezes sacrificando de forma absoluta a realidade dos factos.
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29/04/2019
Bielsa, ou o primado dos valores
"Não demos um golo, devolvemos um golo"
Marcelo Bielsa
Do futebol profissional se diz muita coisa, com e sem razão. Diz-se que é um meio apodrecido pelo negócio, e eu concordo. Diz-se que é um tabuleiro por onde circulam trapaceiros da pior espécie, e é impossível negá-lo. Diz-se que o jogo do povo se encontra moribundo, que os valores [do amor à camisola à honestidade acima dos resultados] morreu, e eu tenho que dizer "olhe que não, olhe que não...". É certo que o futebol se encontra hoje minado e dominado pela filha-da-putice mais abjecta, mas quem se der ao trabalho de desligar a televisão e de dedicar um mínimo de atenção ao jogo para lá da barulheira vai dar-se conta de que valores antagónicos àqueles que dominam "a indústria" não apenas existem como se afirmam junto de um universo de adeptos cada vez mais alargado e desperto para a necessidade de regenerar o jogo - em sentido lato - num regresso às origens que lateraliza a componente económica [salvaguardando a sustentabilidade dos clubes e do jogo, mas rasgando de alto a baixo a especulação, a mercantilização de emblemas, jogadores e treinadores, e o negócio das apostas] e se foca naquilo que é verdadeiramente a alma do futebol. O exemplo que este fim-de-semana chegou de Inglaterra será um dos mais importantes contributos de um treinador e da sua equipa - do seu Clube também, partindo do princípio que o Leeds não punirá a decisão tomada... - para a afirmação do primado dos valores sobre o resultadismo e as receitas que a este se encontram directamente ligadas. Marcelo Bielsa mostrou uma vez mais que há princípios, valores e posturas que não se trocam nem vendem por dinheiro nem resultado nenhum. Fê-lo num contexto de milhões, numa "2ª liga" que compara sem dificuldade com os melhores campeonatos da Europa continental. Fê-lo em defesa do jogo e da preservação da sua pureza original. Sai um agradecimento, sincero e profundo, de Lisboa para Leeds. Que a promoção seja alcançada pela via da honra e dos valores.
Marcelo Bielsa
Do futebol profissional se diz muita coisa, com e sem razão. Diz-se que é um meio apodrecido pelo negócio, e eu concordo. Diz-se que é um tabuleiro por onde circulam trapaceiros da pior espécie, e é impossível negá-lo. Diz-se que o jogo do povo se encontra moribundo, que os valores [do amor à camisola à honestidade acima dos resultados] morreu, e eu tenho que dizer "olhe que não, olhe que não...". É certo que o futebol se encontra hoje minado e dominado pela filha-da-putice mais abjecta, mas quem se der ao trabalho de desligar a televisão e de dedicar um mínimo de atenção ao jogo para lá da barulheira vai dar-se conta de que valores antagónicos àqueles que dominam "a indústria" não apenas existem como se afirmam junto de um universo de adeptos cada vez mais alargado e desperto para a necessidade de regenerar o jogo - em sentido lato - num regresso às origens que lateraliza a componente económica [salvaguardando a sustentabilidade dos clubes e do jogo, mas rasgando de alto a baixo a especulação, a mercantilização de emblemas, jogadores e treinadores, e o negócio das apostas] e se foca naquilo que é verdadeiramente a alma do futebol. O exemplo que este fim-de-semana chegou de Inglaterra será um dos mais importantes contributos de um treinador e da sua equipa - do seu Clube também, partindo do princípio que o Leeds não punirá a decisão tomada... - para a afirmação do primado dos valores sobre o resultadismo e as receitas que a este se encontram directamente ligadas. Marcelo Bielsa mostrou uma vez mais que há princípios, valores e posturas que não se trocam nem vendem por dinheiro nem resultado nenhum. Fê-lo num contexto de milhões, numa "2ª liga" que compara sem dificuldade com os melhores campeonatos da Europa continental. Fê-lo em defesa do jogo e da preservação da sua pureza original. Sai um agradecimento, sincero e profundo, de Lisboa para Leeds. Que a promoção seja alcançada pela via da honra e dos valores.
26/04/2019
Triste ironia
É lugar comum dizer-se que a comparação entre a repressão em democracia e a repressão em ditadura resulta geralmente num género de legitimação da ditadura, quando não na desvalorização da sua natureza brutal. Eu estou de acordo com esta perspectiva e por isso não farei comparações entre contextos sem comparação. É em todo o caso legítimo sublinhar a ironia patente na forma como os protestos ambientalistas dos últimos dias foram reprimidos, precisamente em cima das comemorações dos 50 anos da chamada Crise Académica de 1969, que teve no dia 17 de Abril de 1969 um dos seus pontos mais recordados e regularmente mencionados, quando Alberto Martins - então presidente da Associação Académica de Coimbra - tentou tomar a palavra numa cerimónia pública, sem sucesso. Hoje, 45 anos após a Revolução de Abril, não vivemos em ditadura, mas na minha perspectiva é muito discutível que ao fascismo salazarista se tenha seguido, após 1976 e depois de derrotado no seu essencial o programa do MFA, a democracia enquanto o exercício do poder do povo. Existirá liberdade de expressão, sendo todavia certo que não existe comparação entre a liberdade de discursar à porta da estação de metropolitano e a possibilidade de debitar cartilha de forma regular e não raras vezes sem contraditório nos grandes meios de comunicação de massa. O que se passou no evento em que participou o Ministro do Ambiente, ou no evento do partido do governo, não foi apenas a reposição da ordem pública tal como a concebemos hoje, num mundo em que a diversidade é muito mais aparente do que real; pelo contrário, a repressão destes protestos é bem a ilustração da forma como o acessório se vai sobrepondo ao essencial e de como esta sobreposição é protegida pelas forças repressivas do Estado, sendo que este não é - ao contrário do que muitos dizem, incluindo quem tem obrigação de saber que não é assim... - "todos nós", mas antes "o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes" manifestando-se "onde e na medida em que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser conciliados". A contradição é uma das mais salientes constantes na complexa matemática das sociedades actuais. A [triste] ironia também.
[imagem: Lusa]
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A prática da vida selvagem [i]*
Dou por mim com um carrinho de compras digital cheio de livros [que não existem fisicamente no carrinho, ele mesmo uma inexistência real] que racionalizam e explicam o desejo que já existe em muitos - sobretudo naqueles que viveram o mundo pré-Internet - de ter o seu cérebro desprogramado de volta. A oferta é farta e, naturalmente, inclui um pouco de tudo: ciência, auto-ajuda, testemunhos de desintoxicação, receitas para a libertação, manifestos e panfletos propagandistas. Não creio que nenhum dos títulos venha a chegar à minha caixa do correio [real]. Já não está em causa se existe um problema, de que sou parte, de verdadeira dependência da internet. Quase todos sofremos dela, uns mais, outros menos. Acontece que a generalização dessa dependência, que é um problema real, na medida em que condiciona e modifica - poucas vezes para melhor... - as nossas vidas, passou a ser a norma e não, como acontece com a dependência de drogas ilegais ou do álcool, um comportamento minoritário e desviante. Esta normalização do absurdo que é a dependência "digital" transformou a autonomia e a independência face à digitalização da vida em forma de vida estranha e objectivamente ostracizante. A coisa é tão evidente que não são precisos livros, TED Talks e expertos na televisão alertando para os malefícios da crescente digitalização da vida; quem não os sente? Os cérebros pré-internet rareiam. O meu foi-se e eu sinto a falta do tempo em que o telefone portátil - o chamado "telemóvel" - só fazia chamadas e enviava sms. Creio que regressarei a esse registo logo que o meu smartphone entregue a alma ao criador. Até lá a tendência será para a desinstalação. A questão todavia mantém-se: será esse o caminho para a recuperação da minha autonomia?
[imagem]
* "A prática da vida selvagem" é o título de uma obra, colecção de textos, de Gary Snyder, poeta e ensaísta norte-americano. O livro encontra-se traduzido para português e disponível nas livrarias, sendo uma edição da Antígona.
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* "A prática da vida selvagem" é o título de uma obra, colecção de textos, de Gary Snyder, poeta e ensaísta norte-americano. O livro encontra-se traduzido para português e disponível nas livrarias, sendo uma edição da Antígona.
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23/04/2019
Há um trol em todos nós...
As redes sociais não são apenas o meio, são também a motivação e, de certa forma, o contorno que molda da mensagem. Por isso, quando reagi nas redes sociais - no Facebook - à fotografia e ao texto que Steven Wilson publicou no Instagram relativamente à Páscoa, a Israel e a Roger Waters - tudo em meia dúzia de caracteres - o que fiz foi o que boa parte dos utilizadores das redes sociais fazem: processei a micro-mensagem e, com base em meia-dúzia de caracteres, tomei uma posição [e a ideia de "tomada de posição", neste contexto, é relevante] sobre Wilson e sobre sua aparente falta de vergonha. Quando o fiz violei uma regra que defini para mim há alguns anos e que, com raras excepções, tenho conseguido passar à prática: depois de ler um texto que me irrita profundamente devo respeirar fundo, resistir à tentação de "tomar posição", esperar meia hora [no mínimo] e depois avaliar racionalmente se a coisa merece mesmo o meu contributo para a barulheira virtual. Quer isto dizer que, no que me diz respeito, o sumo da "polémica" relativa à provocação de Steven Wilson a Roger Waters não diz respeito a nenhum dos dois, mas à minha própria pessoa. E quem perdeu, se perdedor houve, fui eu. Como na canção da Adelaide Ferreira. Nada disto retira legitimidade à questão que então coloquei, e que não é nova, longe disso: quais é o limite para a separação entre criação e criador, entre obra e artista, entre artista e homem/mulher para lá da vida artística? Não tenho resposta, mas cheguei a uma conclusão: a minha regra - a tal que quebrei - faz mesmo sentido.
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18/04/2019
Gasoil
A mini-crise dos combustíveis veio e foi com a rapidez característica da "modernidade líquida" a que se referia Zygmunt Bauman. No reino do efémero, em 48 horas o assunto do momento passará a ser outro porque na verdade nenhum tema se mantém na agenda mediática para lá da capacidade de foco do consumidor de informação. Já poucos se recordam que há 72 horas era o pináculo de Notre-Dame que dominava as atenções do país, comovendo mesmo aqueles que desconheciam a existência da Catedral. O tema do gasóleo [do "gasoil", como ouvi vezes sem conta na televisão e na rádio] deixará de ser tema em menos de nada e o que verdadeiramente fica para a posterioridade são três linhas autónomas - ainda que correlacionadas - de reflexão: a primeira relativa à gestão técnica de cenários como aquele vivido nos últimos dois dias; a segunda relativamente à questão "sindical", se aceitarmos como boa a pertença da estrutura que convocou a greve ao chamado movimento sindical [em sentido amplo]; a terceira, que é a que mais me interessa, relativamente à psicologia da multidão quando confrontada com a perspectiva teórica de um esgotamento temporário de um recurso que encara como essencial. A tese foi empiricamente confirmada: o receio do esgotamento leva ele mesmo ao próprio esgotamento, como uma profecia que se auto-concretiza, reforçando naqueles que lhe deram crédito a ideia de que na verdade agiram com razoabilidade e bom senso. Acredito que estivemos a 48 horas - no máximo - da corrida aos supermercados. E isso sim, seria verdadeiramente dramático. Aprender com o que se passou entre 16 e 18 de Abril de 2019 será fundamental para a gestão futura de crises [reais ou que se tornam reais a partir de suposições erradas], mas não sei se teremos - todos, colectivamente - essa capacidade.
17/04/2019
O mistério das Catedrais
Creio que fui a Paris duas vezes, mas não tenho a certeza. Uma pelo menos fui, e nessa primeira - que se calhar foi a única - viajei de comboio até Chartres, muito provavelmente o lugar mais esmagador que visitei fora de Portugal, talvez a par de Compostela e do Vaticano. Eu, que nem baptizado sou, vejam bem. Em Paris visitei a Notre-Dame, claro está, e de lá passei ao Quartier Latin, onde quase à vista da Catedral existe uma outra igrejinha gótica erigida em homenagem a Severin de Paris, um homem que de acordo com a lenda ali se havia dedicado à oração e à contemplação das coisas do mundo dos outros e do seu mundo também. Foi um tempo de grande aplicação no estudo dos aspectos simbólicos das pedras falantes, anos saltitando de Igreja em Igreja, fotografando, lendo, contemplando e procurando interpretar o que para mim foi quase sempre "chinês". Em Notre-Dame senti-me todavia em casa. E em Saint-Severin, claro. E depois disso na Santa Maria Maggiore, na cidade eterna, homónima do meu lugar preferido na cidade de Lisboa, Santa Maria Maior, que é o outro nome da Sé Patriarcal da capital portuguesa. Quando fui a Notre-Dame, em visita turística arrumado em dia de descanso durante uma deslocação em trabalho, trazia na ponta da língua os textos de Fulcanelli - o alquimista francês de identidade desconhecida - escritos para "O mistério das Catedrais". E se a memória não me falha, Fulcanelli apresenta nessa sua obra magna a imagem colorida de uma Notre-Dame cheia de pinturas murais entretanto desaparecidas. Lembro-me pois de, em frente ao pórtico principal da Catedral, tentar imaginá-la com menos meio século, esforço inglório que todavia não dei por mal empregue. Na Île de la Cité deixei duas pedrinhas que trazia no bolso, e que havia recolhido dias antes no Parque da Pena, no coração da Serra de Sintra. Outra ainda deixei-a num dos pórticos laterais de Chartres, bem escondida e protegida, para ali ficar tanto tempo quanto possível. O mistério das Catedrais dava-me que pensar, horas e horas de dias e dias a fio, nesse tempo. Nunca pensei que voltasse a Fulcanelli pela mais triste das razões, no que à "sua" catedral diz respeito.
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Imbecis
Eu sei que o tema do dia é gasóleo mas o que este cavalheiro diz é de facto relevante. E embora este vídeo não perca actualidade daqui por um dia, uma semana, um mês ou uma década [temo eu..] se calhar era de o ver já hoje. Sou um neo-ludita apanhado nas malhas mais viscosas da tecnologia. Para quem como eu preza de facto a coerência, que é a correspondência entre a forma como se pensa e a forma como se age, isto é um murro no estômago. Saramago escreveu sobre a cegueira e, indirectamente, sobre a imbecilidade. Em certo sentido era já sobre este cenário que escrevia. Todos nos estamos tornando imbecis, agarrados ao ecrã - aos ecrãs - que vão mediando a nossa relação com o mundo. Todos. Se calhar é tempo de o admitirmos.
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