29/04/2019

Bielsa, ou o primado dos valores

"Não demos um golo, devolvemos um golo"
Marcelo Bielsa

Do futebol profissional se diz muita coisa, com e sem razão. Diz-se que é um meio apodrecido pelo negócio, e eu concordo. Diz-se que é um tabuleiro por onde circulam trapaceiros da pior espécie, e é impossível negá-lo. Diz-se que o jogo do povo se encontra moribundo, que os valores [do amor à camisola à honestidade acima dos resultados] morreu, e eu tenho que dizer "olhe que não, olhe que não...". É certo que o futebol se encontra hoje minado e dominado pela filha-da-putice mais abjecta, mas quem se der ao trabalho de desligar a televisão e de dedicar um mínimo de atenção ao jogo para lá da barulheira vai dar-se conta de que valores antagónicos àqueles que dominam "a indústria" não apenas existem como se afirmam junto de um universo de adeptos cada vez mais alargado e desperto para a necessidade de regenerar o jogo - em sentido lato - num regresso às origens que lateraliza a componente económica [salvaguardando a sustentabilidade dos clubes e do jogo, mas rasgando de alto a baixo a especulação, a mercantilização de emblemas, jogadores e treinadores, e o negócio das apostas] e se foca naquilo que é verdadeiramente a alma do futebol. O exemplo que este fim-de-semana chegou de Inglaterra será um dos mais importantes contributos de um treinador e da sua equipa - do seu Clube também, partindo do princípio que o Leeds não punirá a decisão tomada... - para a afirmação do primado dos valores sobre o resultadismo e as receitas que a este se encontram directamente ligadas. Marcelo Bielsa mostrou uma vez mais que há princípios, valores e posturas que não se trocam nem vendem por dinheiro nem resultado nenhum. Fê-lo num contexto de milhões, numa "2ª liga" que compara sem dificuldade com os melhores campeonatos da Europa continental. Fê-lo em defesa do jogo e da preservação da sua pureza original. Sai um agradecimento, sincero e profundo, de Lisboa para Leeds. Que a promoção seja alcançada pela via da honra e dos valores.

26/04/2019

Triste ironia

É lugar comum dizer-se que a comparação entre a repressão em democracia e a repressão em ditadura resulta geralmente num género de legitimação da ditadura, quando não na desvalorização da sua natureza brutal. Eu estou de acordo com esta perspectiva e por isso não farei comparações entre contextos sem comparação. É em todo o caso legítimo sublinhar a ironia patente na forma como os protestos ambientalistas dos últimos dias foram reprimidos, precisamente em cima das comemorações dos 50 anos da chamada Crise Académica de 1969, que teve no dia 17 de Abril de 1969 um dos seus pontos mais recordados e regularmente mencionados, quando Alberto Martins - então presidente da Associação Académica de Coimbra - tentou tomar a palavra numa cerimónia pública, sem sucesso. Hoje, 45 anos após a Revolução de Abril, não vivemos em ditadura, mas na minha perspectiva é muito discutível que ao fascismo salazarista se tenha seguido, após 1976 e depois de derrotado no seu essencial o programa do MFA, a democracia enquanto o exercício do poder do povo. Existirá liberdade de expressão, sendo todavia certo que não existe comparação entre a liberdade de discursar à porta da estação de metropolitano e a possibilidade de debitar cartilha de forma regular e não raras vezes sem contraditório nos grandes meios de comunicação de massa. O que se passou no evento em que participou o Ministro do Ambiente, ou no evento do partido do governo, não foi apenas a reposição da ordem pública tal como a concebemos hoje, num mundo em que a diversidade é muito mais aparente do que real; pelo contrário, a repressão destes protestos é bem a ilustração da forma como o acessório se vai sobrepondo ao essencial e de como esta sobreposição é protegida pelas forças repressivas do Estado, sendo que este não é - ao contrário do que muitos dizem, incluindo quem tem obrigação de saber que não é assim... - "todos nós", mas antes "o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes" manifestando-se "onde e na medida em que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser conciliados". A contradição é uma das mais salientes constantes na complexa matemática das sociedades actuais. A [triste] ironia também.



[imagem: Lusa]

A prática da vida selvagem [i]*

Dou por mim com um carrinho de compras digital cheio de livros [que não existem fisicamente no carrinho, ele mesmo uma inexistência real] que racionalizam e explicam o desejo que já existe em muitos - sobretudo naqueles que viveram o mundo pré-Internet - de ter o seu cérebro desprogramado de volta. A oferta é farta e, naturalmente, inclui um pouco de tudo: ciência, auto-ajuda, testemunhos de desintoxicação, receitas para a libertação, manifestos e panfletos propagandistas. Não creio que nenhum dos títulos venha a chegar à minha caixa do correio [real]. Já não está em causa se existe um problema, de que sou parte, de verdadeira dependência da internet. Quase todos sofremos dela, uns mais, outros menos. Acontece que a generalização dessa dependência, que é um problema real, na medida em que condiciona e modifica - poucas vezes para melhor... - as nossas vidas, passou a ser a norma e não, como acontece com a dependência de drogas ilegais ou do álcool, um comportamento minoritário e desviante. Esta normalização do absurdo que é a dependência "digital" transformou a autonomia e a independência face à digitalização da vida em forma de vida estranha e objectivamente ostracizante. A coisa é tão evidente que não são precisos livros, TED Talks e expertos na televisão alertando para os malefícios da crescente digitalização da vida; quem não os sente? Os cérebros pré-internet rareiam. O meu foi-se e eu sinto a falta do tempo em que o telefone portátil - o chamado "telemóvel" - só fazia chamadas e enviava sms. Creio que regressarei a esse registo logo que o meu smartphone entregue a alma ao criador. Até lá a tendência será para a desinstalação. A questão todavia mantém-se: será esse o caminho para a recuperação da minha autonomia?


[imagem]

* "A prática da vida selvagem" é o título de uma obra, colecção de textos, de Gary Snyder, poeta e ensaísta norte-americano. O livro encontra-se traduzido para português e disponível nas livrarias, sendo uma edição da Antígona.

23/04/2019

Há um trol em todos nós...

As redes sociais não são apenas o meio, são também a motivação e, de certa forma, o contorno que molda da mensagem. Por isso, quando reagi nas redes sociais - no Facebook - à fotografia e ao texto que Steven Wilson publicou no Instagram relativamente à Páscoa, a Israel e a Roger Waters - tudo em meia dúzia de caracteres - o que fiz foi o que boa parte dos utilizadores das redes sociais fazem: processei a micro-mensagem e, com base em meia-dúzia de caracteres, tomei uma posição [e a ideia de "tomada de posição", neste contexto, é relevante] sobre Wilson e sobre sua aparente falta de vergonha. Quando o fiz violei uma regra que defini para mim há alguns anos e que, com raras excepções, tenho conseguido passar à prática: depois de ler um texto que me irrita profundamente devo respeirar fundo, resistir à tentação de "tomar posição", esperar meia hora [no mínimo] e depois avaliar racionalmente se a coisa merece mesmo o meu contributo para a barulheira virtual. Quer isto dizer que, no que me diz respeito, o sumo da "polémica" relativa à provocação de Steven Wilson a Roger Waters não diz respeito a nenhum dos dois, mas à minha própria pessoa. E quem perdeu, se perdedor houve, fui eu. Como na canção da Adelaide Ferreira. Nada disto retira legitimidade à questão que então coloquei, e que não é nova, longe disso: quais é o limite para a separação entre criação e criador, entre obra e artista, entre artista e homem/mulher para lá da vida artística? Não tenho resposta, mas cheguei a uma conclusão: a minha regra - a tal que quebrei - faz mesmo sentido.

18/04/2019

Gasoil

A mini-crise dos combustíveis veio e foi com a rapidez característica da "modernidade líquida" a que se referia Zygmunt Bauman. No reino do efémero, em 48 horas o assunto do momento passará a ser outro porque na verdade nenhum tema se mantém na agenda mediática para lá da capacidade de foco do consumidor de informação. Já poucos se recordam que há 72 horas era o pináculo de Notre-Dame que dominava as atenções do país, comovendo mesmo aqueles que desconheciam a existência da Catedral. O tema do gasóleo [do "gasoil", como ouvi vezes sem conta na televisão e na rádio] deixará de ser tema em menos de nada e o que verdadeiramente fica para a posterioridade são três linhas autónomas - ainda que correlacionadas - de reflexão: a primeira relativa à gestão técnica de cenários como aquele vivido nos últimos dois dias; a segunda relativamente à questão "sindical", se aceitarmos como boa a pertença da estrutura que convocou a greve ao chamado movimento sindical [em sentido amplo]; a terceira, que é a que mais me interessa, relativamente à psicologia da multidão quando confrontada com a perspectiva teórica de um esgotamento temporário de um recurso que encara como essencial. A tese foi empiricamente confirmada: o receio do esgotamento leva ele mesmo ao próprio esgotamento, como uma profecia que se auto-concretiza, reforçando naqueles que lhe deram crédito a ideia de que na verdade agiram com razoabilidade e bom senso. Acredito que estivemos a 48 horas - no máximo - da corrida aos supermercados. E isso sim, seria verdadeiramente dramático. Aprender com o que se passou entre 16 e 18 de Abril de 2019 será fundamental para a gestão futura de crises [reais ou que se tornam reais a partir de suposições erradas], mas não sei se teremos - todos, colectivamente - essa capacidade.

17/04/2019

O mistério das Catedrais

Creio que fui a Paris duas vezes, mas não tenho a certeza. Uma pelo menos fui, e nessa primeira - que se calhar foi a única - viajei de comboio até Chartres, muito provavelmente o lugar mais esmagador que visitei fora de Portugal, talvez a par de Compostela e do Vaticano. Eu, que nem baptizado sou, vejam bem. Em Paris visitei a Notre-Dame, claro está, e de lá passei ao Quartier Latin, onde quase à vista da Catedral existe uma outra igrejinha gótica erigida em homenagem a Severin de Paris, um homem que de acordo com a lenda ali se havia dedicado à oração e à contemplação das coisas do mundo dos outros e do seu mundo também. Foi um tempo de grande aplicação no estudo dos aspectos simbólicos das pedras falantes, anos saltitando de Igreja em Igreja, fotografando, lendo, contemplando e procurando interpretar o que para mim foi quase sempre "chinês". Em Notre-Dame senti-me todavia em casa. E em Saint-Severin, claro. E depois disso na Santa Maria Maggiore, na cidade eterna, homónima do meu lugar preferido na cidade de Lisboa, Santa Maria Maior, que é o outro nome da Sé Patriarcal da capital portuguesa. Quando fui a Notre-Dame, em visita turística arrumado em dia de descanso durante uma deslocação em trabalho, trazia na ponta da língua os textos de Fulcanelli - o alquimista francês de identidade desconhecida - escritos para "O mistério das Catedrais". E se a memória não me falha, Fulcanelli apresenta nessa sua obra magna a imagem colorida de uma Notre-Dame cheia de pinturas murais entretanto desaparecidas. Lembro-me pois de, em frente ao pórtico principal da Catedral, tentar imaginá-la com menos meio século, esforço inglório que todavia não dei por mal empregue. Na Île de la Cité deixei duas pedrinhas que trazia no bolso, e que havia recolhido dias antes no Parque da Pena, no coração da Serra de Sintra. Outra ainda deixei-a num dos pórticos laterais de Chartres, bem escondida e protegida, para ali ficar tanto tempo quanto possível. O mistério das Catedrais dava-me que pensar, horas e horas de dias e dias a fio, nesse tempo. Nunca pensei que voltasse a Fulcanelli pela mais triste das razões, no que à "sua" catedral diz respeito.



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Imbecis

Eu sei que o tema do dia é gasóleo mas o que este cavalheiro diz é de facto relevante. E embora este vídeo não perca actualidade daqui por um dia, uma semana, um mês ou uma década [temo eu..] se calhar era de o ver já hoje. Sou um neo-ludita apanhado nas malhas mais viscosas da tecnologia. Para quem como eu preza de facto a coerência, que é a correspondência entre a forma como se pensa e a forma como se age, isto é um murro no estômago. Saramago escreveu sobre a cegueira e, indirectamente, sobre a imbecilidade. Em certo sentido era já sobre este cenário que escrevia. Todos nos estamos tornando imbecis, agarrados ao ecrã - aos ecrãs - que vão mediando a nossa relação com o mundo. Todos. Se calhar é tempo de o admitirmos.

16/04/2019

Bill e a curvatura da Terra



Às vezes penso que será mérito do escritor (da escritora), outras vezes acho que é maldição minha. Acontece-me, com assinalável frequência, abrir o livro na página em que me encontro, ler meia-dúzia de parágrafos e encalhar num deles, sem conseguir prosseguir, saltar para o próximo período e continuar história fora, como âncoras que forçam paragens e obrigam a uma reflexão um pouco mais profunda sobre as palavras lidas. Destaco três livrinhos que me demoraram muitíssimo mais tempo do que justificava o seu tamanho: "O ano da morte de Ricardo Reis", de José Saramago; "O leitor", de Bernhard Schlink; e "Stoner", de Jonh Williams. Este último, lido já durante 2019, a conquistar o estatuto de leitura preferida nos 41 anos de vida que vou levando. E quase todos os livros de Afonso Cruz, naturalmente. O fenómeno tem-se repetido à medida que avanço em "A coisa - Livro I", de Stephen King, e esta manhã - dez minutos a pé entre o estacionamento e o escritório, livro em frente aos olhos e fé na divina providência para me escapar de buracos, cacos e merda que abundam na calçada portuguesa - encalhei no momento em que William "Bill" Denbrough, viajando de avião entre a Europa e o seu Maine natal, observa a curvatura da terra a partir o seu lugar no avião. Li o parágrafo e parei; voltei a lê-lo e não tive vontade de prosseguir; à terceira fechei o livro e conclui que aquele ponto final seria muito provavelmente um sinal com função, força e significado superior ao convencionado. Não sei se os estudiosos da escrita têm nome para parágrafos assim; para momentos da narrativa que, apesar de serem apenas parte desta, são ao mesmo tempo toda a narrativa condensada em cento e cinquenta caracteres.

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15/04/2019

Pular a cerca

Sou um confesso fã da escrita do jornalista Paulo Moura. Leio-o sempre que posso e agora ouço-o também semanalmente, à segunda-feira ou quando calha, na sua crónica semanal na Antena1. Acontece frequentemente olharmos o mesmo assunto de prismas diferentes, o que funciona quase sempre como um elemento mais de dúvida que acrescento às minhas certezas, e isso só pode ser saudável, digo eu. Hoje porém não fui capaz de encontrar na sua crónica sobre a detenção de Julian Assange nenhum elemento novo, a perspectiva é gasta e o argumento baseado no mais repetido lugar comum. De resto parece-me absurda a ideia de que o jornalismo é um género de fiscal do status quo, que funciona simultaneamente como válvula de escape, torneira de segurança, do "sistema". Ou se calhar é mas não deveria ser, sobretudo porque a ordem instituída é alicerçada na mentira e o jornalismo digno desse nome será sempre, a par de outros nobres aspectos caracterizadores, um género de caça à mentira. Ao ouvir esta manhã Paulo Moura lembrei-me de uma sessão sobre "o digital" em que participei na passada semana, e durante a qual uma assistência silenciosa e em plateia levou durante longos minutos com um discurso vestido de novo mas todo ele velho como os trapos sobre as vantagens da "digitalização" - da transferência para "o digital" - dos manuais escolares. E eu ouvia e perguntava-me em silêncio se naquela multidão haveriam mais do que meia-dúzia de pessoas percebendo que a discussão que interessa não é sobre o suporte em que usamos os manuais na escola - se em papel ou projectados no quadro interactivo - mas antes sobre a própria utilização do manual escolar. Quase nada liga a crónica de Paulo Moura e o debate sobre "o digital". E no entanto uma coisa e a outra são expressões de uma mesma lógica que impera nas aparentemente "livres" sociedades modernas deste final de década, em pleno século XXI: a incapacidade de problematizar fora das fronteiras da situação. O status quo é verdadeiramente a pátria mental da Humanidade. Resistir é preciso. Pular a cerca é fundamental.

Créditos: ROB PINNEY/LNP/REX/SHUTTERSTOCK.

04/04/2019

"Ainda..."

"Ainda" é um advérbio que remete para uma ideia de tempo - de situação no tempo -, e cujo sentido apenas se compreendo num determinado contexto. O contexto do "ainda..." que dá título a este "post" é o episódio de hoje, 4 de Abril de 2019, do programa de rádio "O amor é", pequenas conversas radiofónicas de Inês Maria Meneses [IMM] e Júlio Machado Vaz [JMV] sobre assunto da vida, uns mais genéricos, outros mais concretos. No programa de hoje falou-se sobre as mulheres birmanesas traficadas, violadas e depois cuspidas para as suas vidas anteriores depois de engravidarem e parirem filhos de homens chineses. O programa merece ser ouvido e para isso basta clicar aqui. O que despertou em mim a vontade de escrever sobre a edição de hoje de "O amor é" foi aquele "ainda..." com que IMM responde ao desabafo meio conclusivo com que JMV termina a sua intervenção sobre o tema. Ao "triste mundo" com que JMV conclui o seu raciocínio responde IMM com aquele natural "ainda...", como que sugerindo a tristeza que lhe causa [que nos causa] existir em pleno final da segunda década do século XXI mulheres cuja vida é trucidada nos termos expostos pela desumanidade de terceiros. O "ainda..." de IMM enquadra-se todavia numa linha de pensamento largamente dominante que olha o tempo e o progresso como aspectos linearmente correlacionados. O tempo passa, o mundo progride [nas suas várias dimensões, incluindo no que se refere a valores e perspectivas sobre a dignidade humana] e aquilo que "ainda..." não acompanhou o progresso será um género de triste anacronismo no tempo presente. Sobre o assunto tenho lido e reflectido - também com a ajuda do livrinho "Progresso: realidade ou ilusão?" -, e nessa reflexão não consigo deixar de considerar - pelo menos considerar - a perspectiva não linear, antes cíclica, relativa à ideia de "progresso". E neste, o "ainda..." de IMM perde em larga medida o seu sentido.


02/04/2019

Pensamentos nocturnos

O capítulo 7 do romance "The Shining" [1977], do autor norte-americano Stephen King, chama-se "Pensamentos nocturnos" e começa com Wendy deitada na sua cama, sentindo ainda o sémen de Jack a escorrer-lhe pelas coxas, enquanto se lembra de um verso de Billie Hollyday que canta assim: "Lovin' you baby, is just like rollin' off a log, But if I can't be your woman, I sure ain't gonna be your dog.". O capítulo é basicamente uma revisitação do passado de Wendy e Jack, a partir de um momento de grandes decisões relativas à sua vida em comum; um exercício de visualização de memórias - e de formas de elaboração das mesmas - que ajuda Wendy a tomar a decisão de acompanhar Jack no famoso inverno no Hotel Overlook, nas inacessíveis montanhas do Colorado. Meia dúzia de páginas que começam e terminam com referência explícita ao sémen de Jack e ao estado de aparente letargia de Wendy, que sonha acordada. Já li muitas páginas de ficção, já li textos que trabalham com mestria o delicado assunto da relação sexual [esse incompreensível tabu pós-moderno], mas nunca tinha lido nenhum que o fizesse com a crua e delicada sensibilidade de Stephen King em "The Shining". Poucos autores nesta vida me prendem a um texto como o senhor King. "The Shining" está a ser na verdade uma leitura absolutamente singular.


15/03/2019

5 notas sobre a "greve" dos estudantes em defesa do ambiente

#1. o principal mérito da iniciativa será o facto de mobilizar para lutas da vida real, fora do ambiente controlado e não raras vezes estéril das redes sociais, uma geração que cresce em casa, escolas e grupos marcadamente cépticos relativamente à eficácia e à legitimidade dos movimentos de massas. Miúdos nas ruas gritando palavras de ordem em torno de uma ideia - de várias ideias - em que verdadeiramente acreditam tem um valor pedagógico muitíssimo superior a uma manhã de aulas chatas, repetitivas e em torno de currículos absurdos, que lhes dão muito mais sono do que entusiasmo.

#2. a escola tradicional tem aliás desempenhado um papel chave na domesticação do ser humano, por via da separação entre aprendizagem e vida - tão bem ilustrada pelas cercas levantadas à volta dos pavilhões de cimento onde "se aprende" aquilo que comissões de sábios decidiram que crianças de 6, 10 ou 15 anos deverão "aprender" - e também por via de programas escolares que reforçam verdadeiramente a percepção de separação entre "civilização" e mundo natural.

#3. a religião do crescimento económico, nomeadamente na sua definição capitalista associada a métricas de produção de riqueza, é aliás parte integrante da "pedagogia" escolar e mediática todos os dias debitada - e apreendida sem espírito crítico - perante as multidões fascinadas pelos grandes temas [cuja compreensão lhes escapa totalmente] mas desligadas da soma de pequenos-grandes problemas que são as causas reais do sintoma em que concentram a sua atenção.

#4. a reboque da "greve" de hoje já vi e li o habitual discurso da dissolução das responsabilidades, muito comum quando se pretende criar a percepção de que na verdade a culpa é simultaneamente de todos e de ninguém em particular.

#5. assim, para os mais interessados noutras perspectivas sobre o assunto deixo uma sugestão: o documentário "the fuck-it point". Sem mais.

02/03/2019

A vida de Samara no grande ecrã

Há momentos em que uma obra de arte deixa de ser "apenas" arte e passa à categoria de produto de consumo. Nos casos de maior sucesso comercial, a obra torna-se num género de marca e a marca pode dar origem a licenças de utilização da ideia original, sob a forma de "franchise".

O "franchise" é uma invenção do mercado para fazer render o peixe. No fundo todos parecem ganhar com esta extensão da ideia original a cópias de menor valor. O criador ganha ao vender direitos. O franchisado ganha ao utilizar uma ideia/marca de sucesso que não criou. E o consumidor prolonga - multiplica - a hipótese de continuar a desfrutar do conceito original por via de derivações mais ou menos parecidas da ideia que o atraiu e fidelizou num primeiro momento. Só que nem sempre é assim.

Tomemos como exemplo a saga "The ring", série de filmes baseados na ideia original do romancista japonês Koji Suzuki. "The Ring", o primeiro filme da série norte-americana, baseado em "O aviso", fez justiça ao livro. Daí para a frente a coisa foi caindo e o último filme ["Rings"] é confrangedor na sua superficialidade, assumindo uma ambição muito mais próxima de uma saga de fantasia dirigida a adolescentes à procura de sustos.

Koji Suzuki enriqueceu com os filmes, mas a sua obra foi envolvida por um cenário cada vez menos verosímil e cada vez mais risível, com "Rings" a constituir-se como um apelo desesperado a um ponto final na vida cinematográfica de Samara Morgan. Dito isto, é bem possível que "Rings 2" venha a caminho, não sei. Espero sinceramente que não.

01/03/2019

A coisificação dos atletas

A coisificação dos atletas é um dos preços a pagar pela mercantilização do desporto. No desporto negócio os atletas são, muito mais do que assalariados dependentes da prática eficaz e reconhecida, bem transaccionáveis e mercadorias com valor de mercado precário e mais ou menos efémero. Esta circunstância condiciona fortemente a percepção que os adeptos - os fãs - têm sobre a sua dimensão atlética e, para além desta, sobre a sua realidade de homem/mulher para lá da prática desportiva mediaticamente enquadrada.

O atleta de alta-competição é hoje um género de personagem numa narrativa construída em torno de si e que não raras vezes tem pouca relação directa com a verdade da sua vida quotidiana; esta contradição é explorada com sucesso no documentário "The hurt business" [2016] de Vlad Yudin, uma reflexão sobre a realidade do "MMA" antes de Connor McGregor [o filme não o refere de todo...] e do negócio de milhares de milhões construído em torno dos novos gladiadores do século XXI.

O adepto do MMA raramente parece concentrar a sua atenção e interesse na dimensão técnica e atlética dos combates e o negócio percebe e explora esta fragilidade da relação desporto-fã com grande sucesso. É precisamente o surgimento em massa de um fã fundamentalmente ignorante relativamente à dimensão técnica da modalidade que força o negócio - os promotores - a introduzirem no contexto específico do MMA todo o conjunto de eventos paralelos aos combates que conduzem à desumanização e desqualificação do atleta perante os olhos do mundo. Refiro-me por exemplo às conferências de imprensa simultâneas de adversários, marcadas quase sempre por um nível de desrespeito [efectivo ou simulado] e provocação sem paralelo noutros contextos desportivos.

O filme é interessante, vale bem a pena procurá-lo.


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13/09/2016

Do significado das palavras

Resgate.

Resgate é a palavra do momento. Centeno disse-a sem a dizer, afirmam alguns. Não se pode dizer o que não se disse, respondem outros. Pelo meio, aqueles que afirmam lamentar que a palavra tenha voltado à liça dizem-na vezes sem conta, à espera que a profecia se concretize, e que seja novamente tempo de ir ao pote. Resgate, resgatem, resgate.

Oiço resgate e penso em rapto. E no entanto, se resultado houve do "resgate" de 2011 foi a perpetuação e o rapto do povo português pela burocracia de Bruxelas. Aquela que, mais esperta do que Barroso, não foi de lá para o Goldman Sachs, mas que pelo contrário saiu do Goldman Sachs para se ir meter lá. Para ir resgatar países, claro está. Uns altruístas.

Por outro lado, de acordo com o dicionário online Priberam, "resgatar" significa "remir a troca de dinheiro ou presentes". O Estado Português terá sido então "libertado" (de quem?) a troco de quantias de dinheiro que a maior parte de nós não consegue visualizar, mas que se habituou a ouvir e dizer como se fossem trocos. A nova unidade monetária mediática é o milhar de milhão.

O rapto está consumado. E os raptores não são só os burocratas que a banca colocou em lugares chave, nem os burocratas que ambicionam ir para os bancos que não os contrataram quando eram "apenas" políticos. Também não são só os jornais que, sem leitores pagantes, sobrevivem de cliques e patrocínios que transformam "perdócios" [*] em investimentos que, independentemente do custo, representam sempre lucro. Os raptores também somos nós, povo, simultaneamente raptado por um medo que explica - pelo menos um pouco - este estúpido síndrome de Estocolmo em que nos deixámos cair. Até quando?


[*] "perdócio" (negócio deficitário, com perda de dinheiro) foi como chamou Belmiro de Azevedo ao seu jornal, o Público.

"... Alone In The Wilderness"

[galeria selvagem de Danila Tkachenko]

09/09/2016

Sobre o "Manifesto do Unabomber", intitulado "O futuro da sociedade industrial" [parte 2]

A releitura de "O futuro da sociedade industrial", documento mais conhecido como o "Manifesto do Unabomber", constituiu para mim uma profunda desilusão. Não sendo adepto do tipo de acção levada a cabo por Theodore Kaczynski julgava por outro lado poder vir a encontrar no seu manifesto uma abordagem científica-filosófica profunda sobre o tema da tecnologia e do seu impacto na vida dos Homens e das comunidades humanas. Vários anos depois da primeira leitura do documento encontrei no "Manifesto" formulações generalistas, generalizações desprovidas de sentido, conclusões empíricas sem fundamentação e, por várias vezes, a confissão por parte do próprio autor de que tal ou tal ideia são na verdade simplificações grosseiras de uma realidade bem mais complexa do que a visão esquemática que "O futuro da sociedade industrial" acaba por utilizar.

Em boa verdade "O futuro da sociedade industrial" não é um documento sobre tecnologia. A questão fundamental, que o autor efectivamente relaciona de forma directa à tecnologia e à civilização tecnológica-industrial, é a da Liberdade individual e a ligação desta com o chamado "processo de aquisição de poder".

No seu manifesto, Kaczynski apresenta-nos a sua visão de uma liberdade amputada das suas mais relevantes e fundamentais características, com destaque para a autonomia, profundamente afectada pela tecnologia e por uma civilização industrial que transforma seres humanos em autómatos "socializados" (domesticados e rendidos às suas convenções essenciais). O autor refere, nalguns casos com desconcertante acerto e perspicácia, a forma como a tecnologia agride a relação do homem com a natureza, com os espaços, com os outros seres humanos e, principalmente, consigo mesmo.

Para Kaczynskia tecnologia não é neutra nem reformável. Em "O futuro da sociedade industrial" é aliás abordado o tema das reformas e as dificuldades - não raras vezes irresolúveis - ligadas ao gradualismo reformista. Este será, temo bem, a parte mais interessante do livro.

De resto não creio que o autor apresente argumentos originais nem de peso suficiente para justificar a sua ânsia pela publicação do seu "Manifesto". A obra é relevante no âmbito da história de uma certa linhagem particular de ludismo. Mas não fosse dar-se o caso de ter sido o seu autor um dos mais procurados assassinos das últimas duas décadas do século XX, nos Estados Unidos da América, "O futuro da sociedade industrial" não passaria de mais um longo artigo escrito por um outro universitário radicalizado, a passar ao lado da esmagadora maioria dos seres humanos à superfície do planeta.

The Veil

Divulgada ontem, e hoje disponível nas principais plataformas de streaming, The Veil é a canção criada por Peter Gabriel para o filme "Snowden", de Oliver Stone [trailer].

08/09/2016

Truman Show, ou o conforto cognitivo que se alapou à "civilização" que temos.

É curioso que, sendo eu profundamente interessado por todo o fundo psicológico e filosófico associado ao "Truman Show", nunca lhe tenha dedicado neste blogue a atenção devida. Como o tempo nesta fase é um bem escasso no meu dia-a-dia, aproveito este belíssimo post do Daniel Carrapa (no muito aconselhado "A barriga de um arquitecto"), cuja ligação faz parte da lista de blogues e afins disponível nesta tasca) para aconselhar um filme e uma reflexão que fez luz sobre uma realidade pouco clara no momento da sua estreia. "Truman Show" foi uma candeia demasiado à frente, num tempo em que dois, três anos parecem uma eternidade.

Aos mais interessados deixo uma dica adicional: a leitura do conto "What's It Like Out There?", de Edmond Hamilton, publicado na colectânea "Mensagens do futuro", organizada por Isaac Asimov, e publicada em português no âmbito da colecção Argonauta (n.º320).