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10/05/2019

Transumanismo

Na primeira página de "Last child in the Woods" [Richard Louv] o autor escreve que a natureza, ao contrário da televisão, não rouba tempo, amplifica-o. Li a referência à televisão e procurei a ficha editorial do livro, confirmando que nunca poderia ser uma obra com menos de 10 anos; "Last child in the wood" é de 2005, já bem dentro da era da internet mas ainda fora do tempo dos smartphones e da internet 4G. Em 2005 muitos poderiam já antever mas quase ninguém teria visto ainda crianças pequenas - e por vezes muito pequenas - agarradas a ecrãs de dimensões inferiores a um palmo e fazendo a televisão parecer o mais inofensivo dos "pré-gadget" arcaícos. Não me interpretem mal; eu sou um neoludita que despreza a televisão [o objecto e a programação a que dá acesso] mas não me lembro de alguma vez ter olhado para um televisor como extensão do corpo - ou da consciência - de alguém. Sim, a televisão roubou e rouba tempo na medida em que milhões e milhões de pessoas continuam a despender boa parte do seu pouco "tempo-livre" olhando para ela; sim, a programação televisiva [em particular a informação, transformada em entretenimento-informativo] continua a influenciar de forma decisiva a percepção de uma parte relevante das comunidades sobre temas chave do debate público [desde logo seleccionando o que é ou não passível de debate, e em que termos...]. Em todo o caso creio que serão raras as pessoas que confundem a televisão objecto - e a televisão-conteúdo - com o seu próprio "eu". Esta suposição muda radicalmente de sentido se em vez da televisão considerarmos os nossos "smartphones". Em 2016, num artigo publicado no The Guardian, Michael Lynch reflectiu sobre o telefone como extensão da identidade dos seus utilizadores. Em certo sentido, esta confusão entre o nosso eu-físico e esse apêndice tecnológico com usamos não menos de 18 horas por dia é já o início de um transumanismo efectivo ["whether or not we actually are our phones, we increasingly identify with them. We increasingly see them and the digital life we lead on them as partly constituting who we psychologically are"]. O assunto parece-me suficientemente sério para não ser ignorado. De resto, é precisamente à luz desta constatação mais ou menos evidente que percebemos que não existe de facto grande relação entre a relação entre a forma como nos relacionávamos [e relacionamos] com a televisão e, por outro lado, a forma como vivemos - intensa e sofregamente - o smartphone como parte de nós. A crescente percepção desta relação doentia entre o ser humano e o seu telefone tem motivado um movimento involutivo no plano meramente tecnológico, e que consiste na opção por dispositivos que regressam às funções básicas do antigo telefone móvel - fazer e receber chamadas, enviar e receber "sms". Não sei se este "movimento" terá a expressão suficiente para se transformar em moda e, por essa via, em "tendência de consumo". O futuro o dirá.

06/05/2019

5G



Eu não ando a fazer marcação ao jornalista Paulo Moura. Leio-o e ouço-o com a atenção que só se dispensa a quem julgamos merecê-la, num mundo fundamentalmente desatento. E foi precisamente a minha atenção à sua crónica radiofónica desta manhã que me motivou esta prosa. Paulo Moura dedicou a sua crónica à questão - relevante! - da falta de escrutínio sobre grandes corporações que hoje controlam, sobretudo no que se refere a "informação", mais dados que muitos estados [juntos]. O tema é sensível e pertinente, sobretudo quando a chamada tecnologia "5G" parece estar já ali, com todas as imensas transformações que promete. O problema que identifico na crónica de Paulo Moura não diz respeito ao tema nem às suas considerações sobre os problemas que resultarão, inevitavelmente, do salto para o vazio absoluto da digitalização descontrolada; o problema diz respeito à ideia, na minha perspectiva míope ou então pouco séria, de que mau mesmo é a tecnologia 5G nas mãos dos chineses [por eventual oposição ao carácter benigno da mesma tecnologia nas mãos do chamado "ocidente"]. À crónica de Paulo Moura não faltou sequer um momento CMTV, quando se referiu à possibilidade de carros comandados à distância, a partir da China, poderem mediante um clique mal intencionado desatarem a atropelar indefesos cidadãos nas cidades do ocidente. O problema do 5G é, antes de mais, o próprio 5G. Não é o 5G nas mãos erradas, até porque o 5G seguir-se-á um 6G e esse salto ninguém sabe [ainda] quem o dará; é o 5G. O problema do 5G é ser esta tecnologia o momento em que a humanidade mete em definitivo o cano da arma tecnológica na têmpera do seu corpo colectivo. E a arma disparará e a "bala" será letal, independentemente da nacionalidade do fabricante. Paulo Moura identifica na sua crónica uma série de problemas reais que não serão do mundo de amanhã, são de ontem e de hoje. Vale bem a pena ouvi-la. Mas com sentido crítico e sem preconceitos etnocentricos.

26/04/2019

Triste ironia

É lugar comum dizer-se que a comparação entre a repressão em democracia e a repressão em ditadura resulta geralmente num género de legitimação da ditadura, quando não na desvalorização da sua natureza brutal. Eu estou de acordo com esta perspectiva e por isso não farei comparações entre contextos sem comparação. É em todo o caso legítimo sublinhar a ironia patente na forma como os protestos ambientalistas dos últimos dias foram reprimidos, precisamente em cima das comemorações dos 50 anos da chamada Crise Académica de 1969, que teve no dia 17 de Abril de 1969 um dos seus pontos mais recordados e regularmente mencionados, quando Alberto Martins - então presidente da Associação Académica de Coimbra - tentou tomar a palavra numa cerimónia pública, sem sucesso. Hoje, 45 anos após a Revolução de Abril, não vivemos em ditadura, mas na minha perspectiva é muito discutível que ao fascismo salazarista se tenha seguido, após 1976 e depois de derrotado no seu essencial o programa do MFA, a democracia enquanto o exercício do poder do povo. Existirá liberdade de expressão, sendo todavia certo que não existe comparação entre a liberdade de discursar à porta da estação de metropolitano e a possibilidade de debitar cartilha de forma regular e não raras vezes sem contraditório nos grandes meios de comunicação de massa. O que se passou no evento em que participou o Ministro do Ambiente, ou no evento do partido do governo, não foi apenas a reposição da ordem pública tal como a concebemos hoje, num mundo em que a diversidade é muito mais aparente do que real; pelo contrário, a repressão destes protestos é bem a ilustração da forma como o acessório se vai sobrepondo ao essencial e de como esta sobreposição é protegida pelas forças repressivas do Estado, sendo que este não é - ao contrário do que muitos dizem, incluindo quem tem obrigação de saber que não é assim... - "todos nós", mas antes "o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes" manifestando-se "onde e na medida em que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser conciliados". A contradição é uma das mais salientes constantes na complexa matemática das sociedades actuais. A [triste] ironia também.



[imagem: Lusa]

A prática da vida selvagem [i]*

Dou por mim com um carrinho de compras digital cheio de livros [que não existem fisicamente no carrinho, ele mesmo uma inexistência real] que racionalizam e explicam o desejo que já existe em muitos - sobretudo naqueles que viveram o mundo pré-Internet - de ter o seu cérebro desprogramado de volta. A oferta é farta e, naturalmente, inclui um pouco de tudo: ciência, auto-ajuda, testemunhos de desintoxicação, receitas para a libertação, manifestos e panfletos propagandistas. Não creio que nenhum dos títulos venha a chegar à minha caixa do correio [real]. Já não está em causa se existe um problema, de que sou parte, de verdadeira dependência da internet. Quase todos sofremos dela, uns mais, outros menos. Acontece que a generalização dessa dependência, que é um problema real, na medida em que condiciona e modifica - poucas vezes para melhor... - as nossas vidas, passou a ser a norma e não, como acontece com a dependência de drogas ilegais ou do álcool, um comportamento minoritário e desviante. Esta normalização do absurdo que é a dependência "digital" transformou a autonomia e a independência face à digitalização da vida em forma de vida estranha e objectivamente ostracizante. A coisa é tão evidente que não são precisos livros, TED Talks e expertos na televisão alertando para os malefícios da crescente digitalização da vida; quem não os sente? Os cérebros pré-internet rareiam. O meu foi-se e eu sinto a falta do tempo em que o telefone portátil - o chamado "telemóvel" - só fazia chamadas e enviava sms. Creio que regressarei a esse registo logo que o meu smartphone entregue a alma ao criador. Até lá a tendência será para a desinstalação. A questão todavia mantém-se: será esse o caminho para a recuperação da minha autonomia?


[imagem]

* "A prática da vida selvagem" é o título de uma obra, colecção de textos, de Gary Snyder, poeta e ensaísta norte-americano. O livro encontra-se traduzido para português e disponível nas livrarias, sendo uma edição da Antígona.

23/04/2019

Há um trol em todos nós...

As redes sociais não são apenas o meio, são também a motivação e, de certa forma, o contorno que molda da mensagem. Por isso, quando reagi nas redes sociais - no Facebook - à fotografia e ao texto que Steven Wilson publicou no Instagram relativamente à Páscoa, a Israel e a Roger Waters - tudo em meia dúzia de caracteres - o que fiz foi o que boa parte dos utilizadores das redes sociais fazem: processei a micro-mensagem e, com base em meia-dúzia de caracteres, tomei uma posição [e a ideia de "tomada de posição", neste contexto, é relevante] sobre Wilson e sobre sua aparente falta de vergonha. Quando o fiz violei uma regra que defini para mim há alguns anos e que, com raras excepções, tenho conseguido passar à prática: depois de ler um texto que me irrita profundamente devo respeirar fundo, resistir à tentação de "tomar posição", esperar meia hora [no mínimo] e depois avaliar racionalmente se a coisa merece mesmo o meu contributo para a barulheira virtual. Quer isto dizer que, no que me diz respeito, o sumo da "polémica" relativa à provocação de Steven Wilson a Roger Waters não diz respeito a nenhum dos dois, mas à minha própria pessoa. E quem perdeu, se perdedor houve, fui eu. Como na canção da Adelaide Ferreira. Nada disto retira legitimidade à questão que então coloquei, e que não é nova, longe disso: quais é o limite para a separação entre criação e criador, entre obra e artista, entre artista e homem/mulher para lá da vida artística? Não tenho resposta, mas cheguei a uma conclusão: a minha regra - a tal que quebrei - faz mesmo sentido.

17/04/2019

Imbecis

Eu sei que o tema do dia é gasóleo mas o que este cavalheiro diz é de facto relevante. E embora este vídeo não perca actualidade daqui por um dia, uma semana, um mês ou uma década [temo eu..] se calhar era de o ver já hoje. Sou um neo-ludita apanhado nas malhas mais viscosas da tecnologia. Para quem como eu preza de facto a coerência, que é a correspondência entre a forma como se pensa e a forma como se age, isto é um murro no estômago. Saramago escreveu sobre a cegueira e, indirectamente, sobre a imbecilidade. Em certo sentido era já sobre este cenário que escrevia. Todos nos estamos tornando imbecis, agarrados ao ecrã - aos ecrãs - que vão mediando a nossa relação com o mundo. Todos. Se calhar é tempo de o admitirmos.

15/04/2019

Pular a cerca

Sou um confesso fã da escrita do jornalista Paulo Moura. Leio-o sempre que posso e agora ouço-o também semanalmente, à segunda-feira ou quando calha, na sua crónica semanal na Antena1. Acontece frequentemente olharmos o mesmo assunto de prismas diferentes, o que funciona quase sempre como um elemento mais de dúvida que acrescento às minhas certezas, e isso só pode ser saudável, digo eu. Hoje porém não fui capaz de encontrar na sua crónica sobre a detenção de Julian Assange nenhum elemento novo, a perspectiva é gasta e o argumento baseado no mais repetido lugar comum. De resto parece-me absurda a ideia de que o jornalismo é um género de fiscal do status quo, que funciona simultaneamente como válvula de escape, torneira de segurança, do "sistema". Ou se calhar é mas não deveria ser, sobretudo porque a ordem instituída é alicerçada na mentira e o jornalismo digno desse nome será sempre, a par de outros nobres aspectos caracterizadores, um género de caça à mentira. Ao ouvir esta manhã Paulo Moura lembrei-me de uma sessão sobre "o digital" em que participei na passada semana, e durante a qual uma assistência silenciosa e em plateia levou durante longos minutos com um discurso vestido de novo mas todo ele velho como os trapos sobre as vantagens da "digitalização" - da transferência para "o digital" - dos manuais escolares. E eu ouvia e perguntava-me em silêncio se naquela multidão haveriam mais do que meia-dúzia de pessoas percebendo que a discussão que interessa não é sobre o suporte em que usamos os manuais na escola - se em papel ou projectados no quadro interactivo - mas antes sobre a própria utilização do manual escolar. Quase nada liga a crónica de Paulo Moura e o debate sobre "o digital". E no entanto uma coisa e a outra são expressões de uma mesma lógica que impera nas aparentemente "livres" sociedades modernas deste final de década, em pleno século XXI: a incapacidade de problematizar fora das fronteiras da situação. O status quo é verdadeiramente a pátria mental da Humanidade. Resistir é preciso. Pular a cerca é fundamental.

Créditos: ROB PINNEY/LNP/REX/SHUTTERSTOCK.

09/09/2016

Sobre o "Manifesto do Unabomber", intitulado "O futuro da sociedade industrial" [parte 2]

A releitura de "O futuro da sociedade industrial", documento mais conhecido como o "Manifesto do Unabomber", constituiu para mim uma profunda desilusão. Não sendo adepto do tipo de acção levada a cabo por Theodore Kaczynski julgava por outro lado poder vir a encontrar no seu manifesto uma abordagem científica-filosófica profunda sobre o tema da tecnologia e do seu impacto na vida dos Homens e das comunidades humanas. Vários anos depois da primeira leitura do documento encontrei no "Manifesto" formulações generalistas, generalizações desprovidas de sentido, conclusões empíricas sem fundamentação e, por várias vezes, a confissão por parte do próprio autor de que tal ou tal ideia são na verdade simplificações grosseiras de uma realidade bem mais complexa do que a visão esquemática que "O futuro da sociedade industrial" acaba por utilizar.

Em boa verdade "O futuro da sociedade industrial" não é um documento sobre tecnologia. A questão fundamental, que o autor efectivamente relaciona de forma directa à tecnologia e à civilização tecnológica-industrial, é a da Liberdade individual e a ligação desta com o chamado "processo de aquisição de poder".

No seu manifesto, Kaczynski apresenta-nos a sua visão de uma liberdade amputada das suas mais relevantes e fundamentais características, com destaque para a autonomia, profundamente afectada pela tecnologia e por uma civilização industrial que transforma seres humanos em autómatos "socializados" (domesticados e rendidos às suas convenções essenciais). O autor refere, nalguns casos com desconcertante acerto e perspicácia, a forma como a tecnologia agride a relação do homem com a natureza, com os espaços, com os outros seres humanos e, principalmente, consigo mesmo.

Para Kaczynskia tecnologia não é neutra nem reformável. Em "O futuro da sociedade industrial" é aliás abordado o tema das reformas e as dificuldades - não raras vezes irresolúveis - ligadas ao gradualismo reformista. Este será, temo bem, a parte mais interessante do livro.

De resto não creio que o autor apresente argumentos originais nem de peso suficiente para justificar a sua ânsia pela publicação do seu "Manifesto". A obra é relevante no âmbito da história de uma certa linhagem particular de ludismo. Mas não fosse dar-se o caso de ter sido o seu autor um dos mais procurados assassinos das últimas duas décadas do século XX, nos Estados Unidos da América, "O futuro da sociedade industrial" não passaria de mais um longo artigo escrito por um outro universitário radicalizado, a passar ao lado da esmagadora maioria dos seres humanos à superfície do planeta.

03/09/2016

Festa do Avante! [dia 1]

Passei a noite de ontem no recinto da Festa do Avante!, que até 2015 era "apenas" a Quinta da Atalaia, e que em 2016 tem também a Quinta do Cabo. De todo o muito que haveria para contar opto por aquilo que mais me impressionou: durante toda a noite observei a muita gente sentada nas esplanadas; não me lembro de mais de meia-dúzia de pessoas agarradas ao telefone. Não vi "selfies", embora esteja certo de que foram registadas muitas. Não me lembro sequer da habitual deposição dos telefones em cima das mesas, lugar comum das esplanadas de cidade e praia, nos tempos que correm. Quer isto dizer que são os comunistas e os visitantes da Festa gente superiormente esclarecida relativamente aos malefícios da utilização desvairada das tecnologias digitais? Não creio. A resposta está num ambiente que convida à presença, à conversa, ao convívio, à atenção mútua.


01/09/2016

Sobre o "Manifesto do Unabomber", intitulado "O futuro da sociedade industrial" [parte 1]

A releitura do "Manifesto do Unabomber" tem-se revelado muito proveitosa relativamente o estudo que venho realizando sobre as várias perspectivas e facções (não raras vezes fortemente sectárias) do movimento ludita e neoludita moderno.

O texto, que conheceu em meados dos anos 90 enorme projecção e debate - sobretudo e compreensivelmente nos Estados Unidos da América - caiu no esquecimento e poucos serão aqueles que, tendo atingido a idade adulto após a detenção de Theodore John "Ted" Kaczynski, em 1996, saberão quem foi, o que fez e aquilo que escreveu um dos mais conhecidos opositores da sociedade industrial actual. Curiosamente, parte das teses de Theodore Kaczynski são hoje mais actuais e pertinentes do que era quando conheceram divulgação pública.

A divulgação do Manifesto

A primeira acção violenta do homem que viria a ficar conhecido como "Unabomber" teve lugar em 1978, o ano do meu nascimento, e teve como alvo o professor Buckley Crist, da Northwestern University. A bomba destinada a Crist acabou por rebentar quando um polícia a observava, causando-lhe ferimentos ligeiros.

A acção de "Ted" Kaczynski assumiria então, daí em diante, uma crescente radicalização, e uma maior procura de eficácia e impacto. Quando em 1996 foi finalmente capturado, após quase 20 anos de vida clandestina, o "Unabomber" havia já provocado 3 vítimas mortais e vários feridos.


Theodore Kaczynski em 1967, quando ensinava matemática em Berkeley.
 
É relativamente difícil compreender as razões objectivas que  motivaram Kaczynski para a via que escolheu para a afirmação do seu ideário. As suas vítimas são de uma forma geral gente mais ou menos insignificante dentro da hierarquia do poder político, económico, financeiro e industrial dos Estados Unidos (talvez com a excepção de Percy Wood, presidente da American Airlines, ferido em Junho de 1980), pelo que para além da dimensão de terror associada à arbitrariedade da escolha dos alvos não seria expectável que a acção violenta de Kaczynski alcançasse outros resultados que não fossem uma vida de isolamento e fuga constante à perseguição policial.

Por outro lado parece relativamente claro que o objectivo central da ameaça violenta do "Unabomber" passou a ser, em determinado momento, a reivindicação de atenção mediática para o seu pensamento sobre o complexo industrial e respectivos efeitos na vida das comunidades humanas. A publicação do seu "Manifesto", em 1995, resulta precisamente do compromisso que assumiu com jornais de grande tiragem nos EUA, segundo o qual a publicação integral de "O futuro da sociedade industrial" significaria o fim das suas acções contra violentas contra indivíduos cuja acção associava à progressão da ameaça tecnológico-industrial [mensagem enviada no início de 1995 ao The New York Times: "This is a message from FC…we are getting tired of making bombs. It’s no fun having to spend all your evenings and weekends preparing dangerous mixtures, filing trigger mechanisms out of scraps of metal or searching the sierras for a place isolated enough to test a bomb. So we offer a bargain."].

A última vítima (que neste caso foi mortal) das suas acções foi Gilbert Brent Murray, lobbista do sector madeireiro, assassinado em Abril de 1995 em Sacramento, Califórnia. A 19 de Setembro do mesmo ano, o The New York Times e o The Washington Post publicam finalmente o texto de Theodore Kaczynski, alcançando nesse dia recordes de vendas. O Unabomber via finalmente a expressão sistematizada do seu pensamento ganhar divulgação universal; simultaneamente, daria o passo decisivo para a sua detenção, já que ao ler "O futuro da sociedade industrial", o seu irmão David associaria o tipo de escrita e as temáticas nele contidas a outros escritos anteriores de Kaczynski. David seria o elemento chave para a identificação de "Ted" Kaczynski como o "Unabomber", bem como para a sua posterior detenção na zona de Lincoln, Montana.


Cabana do "Unabomber", perto de Lincoln, Montana.

A captura de "Ted" Kaczynski permitiu à polícia confirmar que o autor dos atentados assinados pelo FC ["Freedom Club"] era na verdade um único homem.

30/08/2016

Maniqueísmos modernos

1. A crítica à tecnologia é admissível, mas apenas se profundamente minimizada face à afirmação das suas vantagens.

2. As desvantagens da tecnologia são sempre em quantidade e qualidade inferior às vantagens da tecnologia;

3. A tecnologia está a "alterar o mundo", e quando o afirmamos não nos referimos ao efeito dos processos de produção, alimentação energética e degradação pós-obsolescência que lhe está subjacente;

4. Qualquer crítica à tecnologia que viole os pressupostos anterior é considerada "delirante".

5. A resistência à contínua e acelerada "evolução" tecnológica só pode fundamentar-se numa visão ludita e primitivista que quer fazer retroceder a "civilização" ao tempo das cavernas habitadas por caçadores-recolectores [esses seres violentos, primitivos e primários que são na verdade os nossos avós];

28/07/2016

As dores da necessidade de coerência enquanto postura ética perante a Vida [1]

A incoerência doí-me. E no entanto ela é, praticamente do princípio ao fim, a consequência da vida que levo. Viver de forma coerente implicaria assumir na prática quotidiana uma série de comportamentos e atitudes que chocariam de forma frontal e violenta com o paradigma social dominante. Ora, a necessidade de coerência mantém-se permanentemente abafada pela comodidade da conformação, o que significa viver quase sempre em contradição com o que penso. Acção desconforme com o pensamento é incoerência no seu sentido superior. E se a prática é de facto o critério da verdade, então é muito provável que a minha incoerência seja na realidade uma outra forma de coerência.

Leio "Ecologia Profunda: dar prioridade à natureza na nossa vida", de Bill Devall e George Sessions, e observo a minha própria incapacidade de viver de acordo com aquilo em que afirmo acreditar desvelar-se como as pedras deixadas ao ar pelo recuo do mar a caminho da baixa-mar. E no entanto sinto-me incapaz de tomar uma atitude - constituída por uma imensidão de pequenas atitudes - que resolva este conflito aparentemente simples.

Por outro lado não veja uma possibilidade objectiva de devolver coerência verdadeira - ou seja, correspondência entre pensamento e acção - ao meu dia-a-dia. O mundo parece formatado para nos conduzir de regresso ao carreiro e as alternativas que me parecem exequíveis estão, elas próprias, pejadas de incoerência. Como o ser que resolve abster-se de consumir carne (por razões éticas e ambientais) passando a comer milho geneticamente modificado, soja plantada em solo anteriormente ocupado por floresta virgem ou produtos biológicos vindos do lado de lá do mundo, carregados de "pegada", exploração ou ambas.

Em "Ecologia Profunda" atrai-me a ideia de biorregião como unidade territorial identitária no seio da qual projectos de autonomia e democracia mais próxima do real (e literal) sentido do conceito poderão desenvolver-se em harmonia com outras formas de viver em absoluta contradição com aquela que defendo. Atrai-me o conceito de acção directa que resolva o muito cómodo argumento da ineficácia da acção isolado do ser humano face à indiferença do mundo em seu torno. O movimento da Ecologia Profunda parece-me um passo em frente no sentido de uma maior coerência pacificadora.

Como dar o passo mantendo pontes com a vida anterior, ou com aqueles que se mantêm apegados ao paradigma social dominante?
Como manter essas pontes sem que estas minem a ideia - e mais do que esta, a prática - de coerência que queremos transpor para a nossa vida?
A reflexão mantém-se e as perplexidades somam-se.
As certezas perdem densidade e a dúvida como método ganha terreno.
Estarei mais próximo da coerência que procuro? Ou será que a própria ideia de coerência (e incoerência) não passa de uma quimera e de um grilhão demasiado pesado para ser transportado a toda a hora, fixando-me repetidamente no mesmo ponto de partida, como Sísifo e a famosa pedra que transportada montanha a cima rolava logo depois até ao sopé do grande monte?

11/06/2016

a revolução não será televisionada (com o patrocínio de uma marca qualquer...) [eu quero que o Euro2016 ça foda...]

É mais ou menos possível passar ao lado do europeu de futebol. na verdade basta desligar a droga - a televisão, leia-se. sem televisão o mundo aparece-nos de novo a cores, ou pelo menos com as cores que tem e não com as cores que o ecrã nos "oferece". sem televisão, aquilo que nos dizem ser o assunto que faz girar o mundo deixa de o fazer girar, ainda que o dito cujo gire na mesma.

21/05/2016

... [3]

Olhar o concerto através do estreito ecrã de um smartphone.

[Bruce Springsteen no "Rock in Rio Lisboa 2016"]