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31/05/2019

Gary Snyder



[Ecologia profunda, ecologia que vem de dentro, da íntima relação com o espaço, com a realidade material e com a dimensão imaterial que é parte da consciência de cada lugar, ecossistema, bioregião]

24/05/2019

Árvores apressadas

Não sou fã da correlação de factores mais ou menos aleatórios na tentativa de comprovar relações de causalidade que sirvam a uma determinada narrativa sobre um assunto. Em todo o caso, quando um tema nos interessa e quando sobre ele andamos a fazer leituras cruzadas é bem possível que num espaço relativamente curto de tempo nos cruzemos com textos que, escritos por pessoas, em lugares e em tempos absolutamente distintos, se relacionem -directa ou indirectamente - de forma mais ou menos evidente. O "El Pais" publicava no passado dia 20 um pequeno texto sobre um estudo que sugere que em algumas partes do mundo, e devido à subida das temperaturas, as árvores estão a crescer mais rápido e a morrer mais depressa, o que entre outras implicações influencia a capacidade das massas florestais para reterem [para "armazenarem"] carbono. O estudo, relativo às espécies Pinus unicinata e Lariz sibirica, sugere igualmente que plantar árvores é uma boa prática, mas que melhor será gerir correctamente as massas florestais já existentes, evitando a desflorestação. Poucas horas depois de ler esta peça sobre árvores apressadas, árvores demasiado ansiosas por crescer e morrer, cruzei-me com um parágrafo de "A prática da natureza selvagem", de Gary Snider, que se refere à atenção e ao tempo [dois elementos da vida natural em acelerada extinção], e que não consegui deixar de relacionar com a imagem de pinheiros negros crescendo mais depressa para morrerem ainda jovens: "com tempo e atenção, voltaremos a ser capazes de os sentir e descobrir de novo" [refere-se aos lugares sagrados dos povos indígenas e "primitivos"]. E aqui o ponto chave parece ser o tempo imposto pela vida moderna - e pelas alterações climáticas - que vai entrando em contradição cada vez mais evidente com variáveis aparentemente imutáveis da vida para lá de nós, humanos.

14/05/2019

As vozes do mundo

Em "Trás-os-Montes, o Nordeste" escreve J. Rentes de Carvalho que um alentejano lhe havia contado que o seu avô "ia ouvir a água correr como quem vai ouvir a banda filarmónica a tocar no coreto", desabafo comovente que me trouxe à memória a canção "As vozes do mundo", dos Romanças, que diz assim: "Na sombra dos tempos os velhos diziam / Tudo no mundo vivia a falar / Os homens, as pedras, o sol, o luar / Os bichos da terra e os peixes do mar". Tem tudo a ver com "Last child in the woods", o livrinho de Richard Louv que trago na sacola e que conta a história da forma como o ser humano se foi separando da natureza de que fazia parte, separação artificial que também remete para aquela lenga-lenga da velha que corria perseguindo-a uma lata: "Era uma velha que andava a varrer. Com uma lata no cu a bater. Quanto mais a velha varria. Mais a lata no cu lhe batia". O vento fala-nos [""Oiço-vos por instinto, sussurrantes pinhais ! Não entendo as palavras, mas pressinto que são poemas que me recitais", Miguel Torga, Diário VI], os animais falam-nos, a água fala-nos e nós estamos surdos, cegos e mudos. Talvez este seja o tempo para se ler as vozes que ainda transpõe para a escrita um telurismo perdido entre as multidões das grandes cidades. Porque quando formos em definitivo incapazes de ouvir as vozes do mundo estaremos bem mais próximos do fim.



[imagem]

09/09/2016

Sobre o "Manifesto do Unabomber", intitulado "O futuro da sociedade industrial" [parte 2]

A releitura de "O futuro da sociedade industrial", documento mais conhecido como o "Manifesto do Unabomber", constituiu para mim uma profunda desilusão. Não sendo adepto do tipo de acção levada a cabo por Theodore Kaczynski julgava por outro lado poder vir a encontrar no seu manifesto uma abordagem científica-filosófica profunda sobre o tema da tecnologia e do seu impacto na vida dos Homens e das comunidades humanas. Vários anos depois da primeira leitura do documento encontrei no "Manifesto" formulações generalistas, generalizações desprovidas de sentido, conclusões empíricas sem fundamentação e, por várias vezes, a confissão por parte do próprio autor de que tal ou tal ideia são na verdade simplificações grosseiras de uma realidade bem mais complexa do que a visão esquemática que "O futuro da sociedade industrial" acaba por utilizar.

Em boa verdade "O futuro da sociedade industrial" não é um documento sobre tecnologia. A questão fundamental, que o autor efectivamente relaciona de forma directa à tecnologia e à civilização tecnológica-industrial, é a da Liberdade individual e a ligação desta com o chamado "processo de aquisição de poder".

No seu manifesto, Kaczynski apresenta-nos a sua visão de uma liberdade amputada das suas mais relevantes e fundamentais características, com destaque para a autonomia, profundamente afectada pela tecnologia e por uma civilização industrial que transforma seres humanos em autómatos "socializados" (domesticados e rendidos às suas convenções essenciais). O autor refere, nalguns casos com desconcertante acerto e perspicácia, a forma como a tecnologia agride a relação do homem com a natureza, com os espaços, com os outros seres humanos e, principalmente, consigo mesmo.

Para Kaczynskia tecnologia não é neutra nem reformável. Em "O futuro da sociedade industrial" é aliás abordado o tema das reformas e as dificuldades - não raras vezes irresolúveis - ligadas ao gradualismo reformista. Este será, temo bem, a parte mais interessante do livro.

De resto não creio que o autor apresente argumentos originais nem de peso suficiente para justificar a sua ânsia pela publicação do seu "Manifesto". A obra é relevante no âmbito da história de uma certa linhagem particular de ludismo. Mas não fosse dar-se o caso de ter sido o seu autor um dos mais procurados assassinos das últimas duas décadas do século XX, nos Estados Unidos da América, "O futuro da sociedade industrial" não passaria de mais um longo artigo escrito por um outro universitário radicalizado, a passar ao lado da esmagadora maioria dos seres humanos à superfície do planeta.

01/09/2016

Feral Children, 2015 [por Julia Fullerton-Batten]

Oxana Malaya, Ucrânia, 1991.

[colecção completa]
[enquadramento]

Sobre o "Manifesto do Unabomber", intitulado "O futuro da sociedade industrial" [parte 1]

A releitura do "Manifesto do Unabomber" tem-se revelado muito proveitosa relativamente o estudo que venho realizando sobre as várias perspectivas e facções (não raras vezes fortemente sectárias) do movimento ludita e neoludita moderno.

O texto, que conheceu em meados dos anos 90 enorme projecção e debate - sobretudo e compreensivelmente nos Estados Unidos da América - caiu no esquecimento e poucos serão aqueles que, tendo atingido a idade adulto após a detenção de Theodore John "Ted" Kaczynski, em 1996, saberão quem foi, o que fez e aquilo que escreveu um dos mais conhecidos opositores da sociedade industrial actual. Curiosamente, parte das teses de Theodore Kaczynski são hoje mais actuais e pertinentes do que era quando conheceram divulgação pública.

A divulgação do Manifesto

A primeira acção violenta do homem que viria a ficar conhecido como "Unabomber" teve lugar em 1978, o ano do meu nascimento, e teve como alvo o professor Buckley Crist, da Northwestern University. A bomba destinada a Crist acabou por rebentar quando um polícia a observava, causando-lhe ferimentos ligeiros.

A acção de "Ted" Kaczynski assumiria então, daí em diante, uma crescente radicalização, e uma maior procura de eficácia e impacto. Quando em 1996 foi finalmente capturado, após quase 20 anos de vida clandestina, o "Unabomber" havia já provocado 3 vítimas mortais e vários feridos.


Theodore Kaczynski em 1967, quando ensinava matemática em Berkeley.
 
É relativamente difícil compreender as razões objectivas que  motivaram Kaczynski para a via que escolheu para a afirmação do seu ideário. As suas vítimas são de uma forma geral gente mais ou menos insignificante dentro da hierarquia do poder político, económico, financeiro e industrial dos Estados Unidos (talvez com a excepção de Percy Wood, presidente da American Airlines, ferido em Junho de 1980), pelo que para além da dimensão de terror associada à arbitrariedade da escolha dos alvos não seria expectável que a acção violenta de Kaczynski alcançasse outros resultados que não fossem uma vida de isolamento e fuga constante à perseguição policial.

Por outro lado parece relativamente claro que o objectivo central da ameaça violenta do "Unabomber" passou a ser, em determinado momento, a reivindicação de atenção mediática para o seu pensamento sobre o complexo industrial e respectivos efeitos na vida das comunidades humanas. A publicação do seu "Manifesto", em 1995, resulta precisamente do compromisso que assumiu com jornais de grande tiragem nos EUA, segundo o qual a publicação integral de "O futuro da sociedade industrial" significaria o fim das suas acções contra violentas contra indivíduos cuja acção associava à progressão da ameaça tecnológico-industrial [mensagem enviada no início de 1995 ao The New York Times: "This is a message from FC…we are getting tired of making bombs. It’s no fun having to spend all your evenings and weekends preparing dangerous mixtures, filing trigger mechanisms out of scraps of metal or searching the sierras for a place isolated enough to test a bomb. So we offer a bargain."].

A última vítima (que neste caso foi mortal) das suas acções foi Gilbert Brent Murray, lobbista do sector madeireiro, assassinado em Abril de 1995 em Sacramento, Califórnia. A 19 de Setembro do mesmo ano, o The New York Times e o The Washington Post publicam finalmente o texto de Theodore Kaczynski, alcançando nesse dia recordes de vendas. O Unabomber via finalmente a expressão sistematizada do seu pensamento ganhar divulgação universal; simultaneamente, daria o passo decisivo para a sua detenção, já que ao ler "O futuro da sociedade industrial", o seu irmão David associaria o tipo de escrita e as temáticas nele contidas a outros escritos anteriores de Kaczynski. David seria o elemento chave para a identificação de "Ted" Kaczynski como o "Unabomber", bem como para a sua posterior detenção na zona de Lincoln, Montana.


Cabana do "Unabomber", perto de Lincoln, Montana.

A captura de "Ted" Kaczynski permitiu à polícia confirmar que o autor dos atentados assinados pelo FC ["Freedom Club"] era na verdade um único homem.

28/07/2016

As dores da necessidade de coerência enquanto postura ética perante a Vida [1]

A incoerência doí-me. E no entanto ela é, praticamente do princípio ao fim, a consequência da vida que levo. Viver de forma coerente implicaria assumir na prática quotidiana uma série de comportamentos e atitudes que chocariam de forma frontal e violenta com o paradigma social dominante. Ora, a necessidade de coerência mantém-se permanentemente abafada pela comodidade da conformação, o que significa viver quase sempre em contradição com o que penso. Acção desconforme com o pensamento é incoerência no seu sentido superior. E se a prática é de facto o critério da verdade, então é muito provável que a minha incoerência seja na realidade uma outra forma de coerência.

Leio "Ecologia Profunda: dar prioridade à natureza na nossa vida", de Bill Devall e George Sessions, e observo a minha própria incapacidade de viver de acordo com aquilo em que afirmo acreditar desvelar-se como as pedras deixadas ao ar pelo recuo do mar a caminho da baixa-mar. E no entanto sinto-me incapaz de tomar uma atitude - constituída por uma imensidão de pequenas atitudes - que resolva este conflito aparentemente simples.

Por outro lado não veja uma possibilidade objectiva de devolver coerência verdadeira - ou seja, correspondência entre pensamento e acção - ao meu dia-a-dia. O mundo parece formatado para nos conduzir de regresso ao carreiro e as alternativas que me parecem exequíveis estão, elas próprias, pejadas de incoerência. Como o ser que resolve abster-se de consumir carne (por razões éticas e ambientais) passando a comer milho geneticamente modificado, soja plantada em solo anteriormente ocupado por floresta virgem ou produtos biológicos vindos do lado de lá do mundo, carregados de "pegada", exploração ou ambas.

Em "Ecologia Profunda" atrai-me a ideia de biorregião como unidade territorial identitária no seio da qual projectos de autonomia e democracia mais próxima do real (e literal) sentido do conceito poderão desenvolver-se em harmonia com outras formas de viver em absoluta contradição com aquela que defendo. Atrai-me o conceito de acção directa que resolva o muito cómodo argumento da ineficácia da acção isolado do ser humano face à indiferença do mundo em seu torno. O movimento da Ecologia Profunda parece-me um passo em frente no sentido de uma maior coerência pacificadora.

Como dar o passo mantendo pontes com a vida anterior, ou com aqueles que se mantêm apegados ao paradigma social dominante?
Como manter essas pontes sem que estas minem a ideia - e mais do que esta, a prática - de coerência que queremos transpor para a nossa vida?
A reflexão mantém-se e as perplexidades somam-se.
As certezas perdem densidade e a dúvida como método ganha terreno.
Estarei mais próximo da coerência que procuro? Ou será que a própria ideia de coerência (e incoerência) não passa de uma quimera e de um grilhão demasiado pesado para ser transportado a toda a hora, fixando-me repetidamente no mesmo ponto de partida, como Sísifo e a famosa pedra que transportada montanha a cima rolava logo depois até ao sopé do grande monte?

19/02/2016

Livros de 2016 [1]: "Butcher's Crossing", de John Williams.

Entrei em 2015 com "Butcher's Crossing" na mochila e apesar de o ter iniciado entre o Natal e o ano novo acabei por terminá-lo já em Fevereiro, com outras leituras iniciadas (mas não terminadas) pelo meio. Não consegui levar "Butcher's Crossing" do princípio ao fim sem momentos de pausa, semanas sem o abrir. O livro é pesado, sensorial, mórbido até. Tem páginas inteiras que nos transportam para cenários gelados e fétidos, onde predomina o cheiro da pólvora, da putrefacção da carne de milhares de búfalos chacinados e dos homens sujeitos às circunstâncias de uma natureza que por vezes não controlam de forma alguma.

20/01/2016

As nações indígenas e o tempo que vivemos

No seu muito recente discurso de agradecimento pelo prémio de melhor actor, durante a cerimónia de entrega dos "Globos de Ouro", Leonardo DiCaprio referiu-se aos povos indígenas de todo o mundo, à sua dignidade e à necessidade de proteger as suas terras dos interesses corporativos que desde há séculos as colocam em risco. Trata-se de uma referência importante e actual, que encontra expressão por exemplo no estilo "anti-Western" de que "The Revenant" parece ser um dos mais recentes representantes no cinema.

Os povos indígenas - aqueles originários de territórios progressivamente ocupados e explorados por povos invasores e colonizadores - foram sempre ao longo da história caricaturados como gentes bárbaras, preguiçosas e pouco inteligentes, incapazes de explorar os recursos naturais em que as suas terras são ricas. Há dias li uma passagem de um livro de Wenceslau de Moraes sobre a história do Japão em que o autor refere a má fama de que gozavam os Ainu do Japão pré-colonização junto da população de origem continental que hoje é esmagadoramente maioritária nas ilhas nipónicas. Discursos semelhantes podem ser lidos e ouvidos relativamente aos povos originais da Austrália, do Hawaii, das Américas (do Norte, Central e do Sul) e da chamada "África negra".

04/01/2016

"A montanha era um pinhal cerrado..."

"Fizeram a pausa do meio-dia no ponto onde tinham alcançado o rio. Enquanto o gado pastava, Miller montou o cavalo e afastou-se para nordeste, seguindo o curso da água, Andrews apartou-se de Charley Hoge e Schneider, que estavam a descansar ao lado da carroça, e sentou-se na margem. A montanha era um pinhal cerrado. Na margem oposta, os maciços troncos castanhos atingiam cerca de nove a dez metros de altura até aos ramos cheios de agulhas verde-escuras. Nos espaços entre os enormes troncos havia apenas outros troncos, e outros ainda, sem interrupção, até as poucas árvores que consegui ver se fundirem numa imagem de densidade, impenetrável e escura, composta por árvores, sombra e terra sem luz, jamais pisada pelo homem. Ergueu os olhos e seguiu a face da montanha que irrompia num declive abrupto. A imagem dos pinheiros perdia-se, bem como a imagem da densidade e até a imagem da própria montanha. A única coisa que via era um tapete verde-escuro de agulhas e galhos, que aos seus olhos perdia identidade e dimensão, como um mar imobilizado num momento de calmaria, de ondas regulares e eternamente detidas, no qual poderia caminhar por momentos, para logo se afundar ao progredir sobre ele, afundar-se lentamente na sua imensidão verde, até alcançar o âmago da floresta sem ar, ser parte dela, soturnamente sozinho. Permameceu sentado na margem do rio durante muito tempo, com os olhos e a mente presos na visão que o assaltara."

John Williams
em "Butcher's Crossing" (pág. 121)

"... e embora tenha de regressar, mesmo esse regresso é apenas outro meio que tenho de a abandonar, cada vez mais"

"Sentia que, onde quer que vivesse, estava a abandonar cada vez mais a cidade, a afastar-se rumo à terra bravia. Sentia que era esse o sentido fulcral que podia encontrar na vida, e afigurava-se-lhe que todos os acontecimentos da infância e da juventude o tinham conduzido inconscientemente a este momento no qual se achava poisado, como se fosse antes de levantar voo. Tornou a olhar o rio. Deste lado fica a cidade, pensou, e do outro a terra bravia; e embora tenha de regressar, mesmo esse regresso é apenas outro meio que tenho de a abandonar, cada vez mais".

John Williams
em "Butcher's Crossing" (pág. 55-56)