Mostrar mensagens com a etiqueta livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta livros. Mostrar todas as mensagens

16/04/2016

Livros de 2016 [7]: "Geronimo (por ele próprio)".

"Geronimo (por ele próprio)", é uma obra interessante, que revela as memórias fundamentais do mais célebre líder apache do final do período de liberdade para os índios norte-americanos na costa este do país, entre os actuais Estados do sul dos EUA e o norte do México.

A edição da Antígona inclui uma muito interessante introdução, por Frederick W. Turner III, um texto que enquadra as palavras de Geronimo num contexto mais abrangente marcado pelo embate violento entre culturas naquela segunda metade do segundo milénio d.C., quando os brancos europeus - de várias nacionalidades - reivindicaram como direito seu expulsar das suas terras ancestrais (e explorar em benefício próprio as respectivas riquezas naturais, não raras vezes até ao seu esgotamento total) os aborígenes do continente americano. Creio que o prefácio tem interesse superior à própria narrativa de Geronimo.

07/04/2016

Livros de 2016 [6]: "Uma agulha no palheiro", de J.D. Salinger.

Despachemos o óbvio: Holden Caulfield, o personagem central de "The catcher in the rey" (traduzido para português como "Uma agulha no palheiro"), não apenas é um mentiroso compulsivo - o que de resto admite - como apresenta níveis insuportáveis de insolência, pedantismo e arrogância. Ora aturar um personagem com estas características deu-me uma permanente vontade de fechar o livro e voltar a arrumá-lo na estante, coisa que Daniel Pennac defende como direito do leitor no obrigatório "Como um romance".

Acontece que J.D. Salinger é um enorme escritor e, apesar de Holden, "Uma agulha no palheiro" é um grande livro. Assim, agora que o terminei dou-me por satisfeito de me ter mantido firme na decisão de contornar Holden, levando até ao fim a determinação de perceber porque razão "The catcher in the rey" é uma das mais populares obras da literatura norte-americana do século XX.

31/03/2016

Livros de 2016 [5]: "Requiem - by the photographers who died in Vietnam and Indochina"

Confesso, com satisfação, que foram muitos os livros que me provocaram os mais tremendos sentimentos, diversos na sua natureza, uniformes num nível de intensidade absolutamente arrebatador. Sentir o que se lê é, muito provavelmente, a mais incrível sensação que as letras, as frases, os textos e as imagens - desenhadas ou registadas em fotografia - podem oferecer a quem ama a literatura, os livros e as histórias que imortalizam. Acontece porém que apenas cinco obras de entre as muitas que li em 38 anos de vida me fizeram chorar. Este "Requiem - by the photographers who died in Vietnam and Indochina" foi uma delas.

Livros de 2016 [4]: "Clube de combate", de Chuck Palahniuk.

Imaginem que enfrentam o mais azedo período da vossa vida. Um momento em que as circunstâncias a que o sistema vos conduziu cria dentro de vós uma tempestade perfeita de criatividade, repulsa pela cultura dominante e necessidade de a despir aos olhos dos outros. "Fight club", de Chuck Palahniuk, será o produto de um desses momentos na vida do autor.

Sátira ao absurdo do capitalismo triunfante, "Clube de combate" é um grito de revolta abafado pelas circunstâncias clandestinas a que esta se circunscreve, dentro e fora do narrador, a quem Chuck Palahniuk nunca atribui uma identidade definida.

29/03/2016

O despertar de Raymond K. Hessel

Li há pouco a passagem do livro de Chuck Palahniuk que inspirou esta cena.
O despertar de Raymond K. Hessel.

11/03/2016

Livros de 2016 [3]: "Viagens Ijon Tichy", de Stanislaw Lem.

Sobre o que li nesta maravilhosa obra de ficção especulativa escrevi no Bitaites. O livro é esplendoroso, perturbador, hilariante por vezes, aterrador noutros casos. Altamente aconselhado, naturalmente.

02/03/2016

Livros de 2016 [2]: "Número zero", de Umberto Eco.

"Número zero" foi o último romance de Umberto Eco publicado antes da morte do autor. Não sei se outros haverão na gaveta, mas posso assegurar que se este for o último, Eco terá deixado à Humanidade um bom contributo para um debate necessário em torno da inutilidade da verdade no actual momento da história.

Em "Número zero" Eco conta a história de uma equipa de redacção constituída para a produção de um jornal que nunca chega a ser editado. As peripécias em torno do número zero do jornal "Amanhã" dão corpo a uma autêntica sátira relativamente ao jornalismo servil que vai fazendo escola em muitas redacções por esse mundo fora, e que hoje se assume como uma das principais ameaças à liberdade de imprensa.

25/02/2016

O "olho do furacão"

A notícia é do Público e tem data de ontem, 24.02.2016 [1]. No título a metáfora do "olho do furacão", normalmente associada a grande agitação. De forma errada, como sabe qualquer leitor com conhecimentos básicos sobre a realidade dos "furacões"; é que o "olho do furacão", a zona central da tempestade, é em regra caracterizado por condições amenas, contrastantes com aquelas que se verificam na chamada "parede do olho", onde imperam condições severas.

24/02/2016

A erudição é mau negócio.

"Os perdedores, como os autodidactas, têm sempre conhecimentos mais vastos do que os vencedores: se queres vencer tens de saber uma coisa só e não perder tempo a sabê-las todas, o prazer da erudição está reservado aos perdedores."

Umberto Eco
em "Número Zero"

21/02/2016

"Penitenziagite!" | Umberto Eco [1932-2016]

Sem Umberto Eco muito provavelmente desconheceria Fra Dolcino e a sua heresia comunista. Este facto, considerado isoladamente de todos os outros que poderia acrescentar, seria bastante para chorar a sua morte.


[imagem]

19/02/2016

Livros de 2016 [1]: "Butcher's Crossing", de John Williams.

Entrei em 2015 com "Butcher's Crossing" na mochila e apesar de o ter iniciado entre o Natal e o ano novo acabei por terminá-lo já em Fevereiro, com outras leituras iniciadas (mas não terminadas) pelo meio. Não consegui levar "Butcher's Crossing" do princípio ao fim sem momentos de pausa, semanas sem o abrir. O livro é pesado, sensorial, mórbido até. Tem páginas inteiras que nos transportam para cenários gelados e fétidos, onde predomina o cheiro da pólvora, da putrefacção da carne de milhares de búfalos chacinados e dos homens sujeitos às circunstâncias de uma natureza que por vezes não controlam de forma alguma.

04/01/2016

"A montanha era um pinhal cerrado..."

"Fizeram a pausa do meio-dia no ponto onde tinham alcançado o rio. Enquanto o gado pastava, Miller montou o cavalo e afastou-se para nordeste, seguindo o curso da água, Andrews apartou-se de Charley Hoge e Schneider, que estavam a descansar ao lado da carroça, e sentou-se na margem. A montanha era um pinhal cerrado. Na margem oposta, os maciços troncos castanhos atingiam cerca de nove a dez metros de altura até aos ramos cheios de agulhas verde-escuras. Nos espaços entre os enormes troncos havia apenas outros troncos, e outros ainda, sem interrupção, até as poucas árvores que consegui ver se fundirem numa imagem de densidade, impenetrável e escura, composta por árvores, sombra e terra sem luz, jamais pisada pelo homem. Ergueu os olhos e seguiu a face da montanha que irrompia num declive abrupto. A imagem dos pinheiros perdia-se, bem como a imagem da densidade e até a imagem da própria montanha. A única coisa que via era um tapete verde-escuro de agulhas e galhos, que aos seus olhos perdia identidade e dimensão, como um mar imobilizado num momento de calmaria, de ondas regulares e eternamente detidas, no qual poderia caminhar por momentos, para logo se afundar ao progredir sobre ele, afundar-se lentamente na sua imensidão verde, até alcançar o âmago da floresta sem ar, ser parte dela, soturnamente sozinho. Permameceu sentado na margem do rio durante muito tempo, com os olhos e a mente presos na visão que o assaltara."

John Williams
em "Butcher's Crossing" (pág. 121)

"... e embora tenha de regressar, mesmo esse regresso é apenas outro meio que tenho de a abandonar, cada vez mais"

"Sentia que, onde quer que vivesse, estava a abandonar cada vez mais a cidade, a afastar-se rumo à terra bravia. Sentia que era esse o sentido fulcral que podia encontrar na vida, e afigurava-se-lhe que todos os acontecimentos da infância e da juventude o tinham conduzido inconscientemente a este momento no qual se achava poisado, como se fosse antes de levantar voo. Tornou a olhar o rio. Deste lado fica a cidade, pensou, e do outro a terra bravia; e embora tenha de regressar, mesmo esse regresso é apenas outro meio que tenho de a abandonar, cada vez mais".

John Williams
em "Butcher's Crossing" (pág. 55-56)

30/12/2015

"I want to see mountains again [...]"

"I want to see mountains again, Gandalf, mountains, and then find somewhere where I can rest. In peace and quiet, without a lot of relatives prying around, and a string of confounded visitors hanging on the bell. I might find somewhere where I can finish my book. I have thought of a nice ending for it: and he lived happily ever after to the end of his days."

Bilbo Baggins,
em "The Fellowship of the Ring", JRR Tolkien

28/12/2015

Sobre as Terras e os Lugares lendários

Em "História das Terras e dos Lugares lendários", Umberto Eco propõe-se abordar a realidade dos lugares irreais, ou seja, a forma como a nossa vivência da perspectiva da eventual realidade de lugares como a Ilha de Utopia, a Atlântida, a Ilha de São Brandão, o Reino do Prestes João, o Paraíso bíblico ou Shambala mudaram e mudam a vida individual e colectiva dos Homens ao longo da história.

Segundo Umberto Eco - numa conclusão que não me parece particularmente surpreendente, pelo que creio que todos estaremos mais ou menos de acordo com ela - é o carácter não raras vezes insuportável do "mundo real" que gerou nos Homens a necessidade de perspectivar mundos ideais, imaginários, onde o caos dá lugar à harmonia. Noto que Eco se refere a lugares lendários embora alguns sejam na verdade imaginários (embora não fantasiosos).

É curioso que os lugares lendários de Eco têm em regra - e toda a regra parece apresentar excepções - uma natureza diferente daqueles imaginários que a obra não refere (pelo menos até onde li) - como a Terra Média ("Middle-Earth") de J.R.R.Tolkien, por estes dias popular nas televisões, através dos filmes que Peter Jackson produziu e realizou a partir dos três volumes da magistral obra "O senhor dos anéis" -, terras que longe de se assumirem como espaços de fraternidade se apresentam antes como cenários propícios à demanda redentora. Neles, o herói é colocado à prova e através das sucessivas vitórias face às adversidades, aos obstáculos e às muitas armadilhas terrenas propõe-se alcançar não um lugar de Paz mas antes um Estado de Paz que naturalmente o transportará aos lugares lendários referidos na obra de Umberto Eco, todos representações imaginárias daquele que - comumente - lhes deu origem.

21/12/2015

"Walking"

"The Road goes ever on and on 
Down from the door where it began. 
Now far ahead the Road has gone, 
And I must follow, if I can, 
Pursuing it with eager feet, 
Until it joins some larger way 
Where many paths and errands meet. 
And whither then? I cannot say" 
― J.R.R. Tolkien, The Fellowship of the Ring 



Aproveitando o sossego - sempre relativo - que os fins-de-semana fora de Lisboa me proporcionam comecei e terminei a leitura da brochura "Caminhada" ("Walking", no original em inglês), de Henry David Thoreau. O texto, de 1862, apresenta-se claramente datado em alguns pontos. A Nova Inglaterra daquela segunda metade do século XIX já pouco ou nada tem a ver com aquela que hoje se apresenta aos olhos de um habitante de Concord e seus arrabaldes. Por outro lado, a essência da aventura pelo lado selvagem do mundo - e da vida - permanece mais ou menos intacta. É precisamente essa dimensão do texto de Thoreau que se revela imprescindível.

11/12/2015

O sr. Ulme e eu.

A minha memória é um lugar estranho. Como a remexo muito tende a desarrumar-se o que me cria não raras vezes problemas no dia-a-dia. Bem sei que a memória não é um registo de acontecimentos, uma cronologia de factos. Pelo contrário, trata-se de um registo de experiências, de sentimentos e de percepções que podem ser interpretados pelo próprio de forma diversa ao longo do tempo. Nós mudamos, e a nossa memória muda connosco.

Tenho algumas memórias de infância, embora não me lembre de coisas que a maior parte das pessoas recorda com facilidade. Por exemplo: não me lembro dos nomes dos meus amigos da escola primária (com meia-dúzia de excepções) e recordo mal episódios supostamente marcantes. Por outro lado guardo com total clareza a minha visão de alguns acontecimentos ou experiências, sociais ou familiares (sobretudo estes últimos). Assim, é com base em poucas mas muito marcantes memórias que estruturo a minha identidade.

21/11/2015

O estranhíssimo colosso: biografia de Agostinho da Silva [parte 1]


Ainda muito no início da leitura d'O Estranhíssimo Colosso recordo algo que antes havia lido mas que a memória não tinha retido: Agostinho da Silva, que tinha George como primeiro nome, era neto de Algarvios do sotavento e Alentejanos. Pelo menos um dos seus avós seria de descendência maometana, o que em Portugal - e no Algarve em particular - não deve nem pode espantar.

É pois coisa muito irónica, uma delícia que não deixará de provocar contida irritação em muito nacionalista de trazer por casa, que um dos maiores pensadores do século XX português - com boa parte da obra dedicada precisamente à história e à cultura portuguesa e lusófona - tenha tido (muito mais do que apenas a sensação) firme certeza de que nas veias lhe corria sangue daqueles que por aqui habitaram longos séculos, e que aqui permaneceram depois do fim da dominação muçulmana na Península, muitas vezes tolerados, outras vezes perseguidos.