
Em certo sentido nenhum verdadeiro movimento - e aqui movimento tem duplo sentido, referindo-se como imagem a uma dinâmica e, em sentido literal, a uma modificação da posição física de algo no espaço-tempo - é reproduzível fora do seu contexto. O metal de 2019 relaciona-se com o metal de 1980, tem elementos artísticos, musicais, estéticos e até ideológicos que se intercepção e asseguram alguma continuidade. Mas o metal de 2019 não é o metal de 1980. A mesma conclusão aplica-se a uma série de outras "etiquetas" musicais mais antigas e/ou mais recentes, com a excepção do "grunge", que é um movimento sem definição composto por bandas e projectos musicais que sempre desprezaram a expressão e o seu significado comercial. E na verdade, se praticamente 30 anos depois dos acontecimentos de Seattle é genuinamente impossível atirar para dentro de uma gaveta bandas claramente identificadas com uma definição comum do que foi o "grunge", parece-me ainda mais evidente que o que quer que seja que se passou no início dos anos 90 naquela pedaço de costa oeste dos Estados Unidos da América ficou naquela espaço e naquele tempo, sem continuidade nem continuadores, incluindo por parte daqueles que sobreviveram aos terríveis anos da fama desproporcionada. O "grunge", se de facto existiu, é filho de um tempo verdadeiramente singular e irrepetível, marcado pelo fim da chamada "Guerra Fria", pelo advento do cinismo unipolar e pelos últimos segundos de um mundo sem internet massificada. Felizes daqueles que viveram - e viver não é apenas "experimentar" - com 14 ou 15 anos aquela mensagem híbrida de niilismo-punk em resposta ao triunfalismo bacoco da "fim da história" de Francis Fukuyama. O "grunge" não volta porque o contexto do "grunge" não existe, os miúdos do "grunge" cresceram e o que resta do "grunge" está embalado e disponível em prateleiras semelhantes àquelas que nas livrarias têm a meia-dúzia de títulos de ficção-científica que alguns desenraizados ainda procuram. Douglas Coupland explica num dos últimos romances pré-internet que merece a pena ser lido. Não fiquem à espera do filme, porque na história não idealizada dos jovens adultos dos anos 90 nem o Cameron Crowe vai pegar.
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