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06/06/2019
Interrogação [na ressaca do Portugal x Suiça]
Existe uma dimensão religiosa na vivência do fenómeno desportivo que se expressa na prática de diversas formas, incluindo na higienização dos ídolos, face reversa da outra mais comercial, que passa pela sua transformação primeiro em marca e depois em mercadoria destinada ao ciclo de promoção, compra, venda e/ou troca. Para as grandes massas, os ídolos são seres relativamente aos quais não se imaginam pecados, ou cujos pecados - quando conhecidos - são grosseiramente ignorados, por se considerem de valor inferior ao ganho - material e imaterial - que o ídolo em acção proporciona à comunidade como um todo e a cada um dos seus membros em particular. Ronaldo, por exemplo, é hoje tema de conversa um pouco por todo o país e, claro está, pelo mundo fora. Os três golos com que despachou a Suiça na meia-final da presente edição da Liga das Nações são bem a prova da qualidade do jogador, depois catapultada pela já referida dimensão religiosa na vivência do fenómeno desportivo para uma dimensão supra-desportiva que é, quanto a mim, inteiramente questionável. Nem sempre um jogador de excelência é uma pessoa cuja conduta fora de campo merece semelhante admiração. Na verdade - e isto não se aplica apenas a jogadores de futebol - o ser humano é por natureza um poço de contradições e conflitos que se agudizam quando a vida lhe proporciona os meios para lhes dar maior dimensão. Como aconteceu a Ronaldo. É que o homem que ontem subiu - uma vez mais - aos píncaros do mérito desportivo, para gáudio - natural e justificado - daqueles que vibram com a selecção portuguesa de futebol sénior masculina é o mesmo ser que se encontra desde o início de 2019 condenado a 23 meses de cadeia [depois substituídos por uma multa de 360.000,00€] mais uma multa de 18.800.000,00€ [perto de 19 milhões de euros] por fraude fiscal. E isto não sou capaz de ignorar, quer na minha visão sobre quem é Cristiano Ronaldo no quadro da psicologia colectiva deste povo, quer na forma como interpreto a absolvição colectiva que lhe atribuímos enquanto condenamos - moralmente - qualquer pobre apanhado em delito cujo grau de gravidade é infinitamente menor. Pode um povo sem paciência para os miseráveis que acusa de "viverem do Estado" curvar-se perante quem, independentemente de méritos desportivos, pratica contra o Estado e os seus recursos "fraude fiscal" envolvendo valores astronómicos para o bolso da esmagadora maioria?
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29/05/2019
"Beds Are Burning"
Ouvia esta manhã a muito aconselhada crónica radiofónica de Rui Cardoso Martins, todas as quartas-feiras pelas 8h35 na Antena1, durante a qual citava a adolescente da moda, Greta Thunberg, que em tirada de antologia terá dito que enquanto tudo à volta arde "os nossos pais debatem o final da Guerra dos Tronos". Eu ouvi e lembrei-me de uma canção antiga, de 1987, à qual os australianos Mignight Oil chamaram "Beds are burning". A canção tem o mesmíssimo sentido da observação de Greta, chamando a atenção à a imensa degradação ambiental a par da ainda maior indiferença que em 1987 - como de resto hoje... - se sentia [1]. De resto os Midnight Oil não foram os primeiros a dizê-lo nem depois de 1987 houve um hiato de quase 30 anos sem que ninguém viesse a terreiro avisar que a banda do Titanic continua a tocar enquanto todos os anos desaparecem milhares de espécies animais e vegetais, milhões de hectares de floresta são destruídos, centenas de rios são dizimados, milhões de seres humanos são ameaçados pelos efeitos directos e indirectos da devastação que o sistema de engorda de poucos impõe a uma imensa maioria apática. E eu, que até sou fã de Greta, fico a pensar se independentemente das suas intenções e do valor do seu exemplo e mensagem, a jovem Thunberg não foi já transformada em santa de altar do ecologismo da moda, colorido e new-age, fundamentalmente inconsequente e indolor para os detentores dos comandos do mundo; aquela ecologia que recusa sacos de plástico no supermercado mas não está disposta a lutar por alterações profundas e radicais [no sentido em que atacam a raiz dos problemas] que passam inevitavelmente pela superação [revolucionária] do capitalismo.
[1] "How can we dance when our earth is turning? / How do we sleep while our beds are burning?".
[1] "How can we dance when our earth is turning? / How do we sleep while our beds are burning?".
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24/05/2019
23/05/2019
"Anthropocene"
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Rebellion
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21/05/2019
"Surplus"
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10/05/2019
Transumanismo
Na primeira página de "Last child in the Woods" [Richard Louv] o autor escreve que a natureza, ao contrário da televisão, não rouba tempo, amplifica-o. Li a referência à televisão e procurei a ficha editorial do livro, confirmando que nunca poderia ser uma obra com menos de 10 anos; "Last child in the wood" é de 2005, já bem dentro da era da internet mas ainda fora do tempo dos smartphones e da internet 4G. Em 2005 muitos poderiam já antever mas quase ninguém teria visto ainda crianças pequenas - e por vezes muito pequenas - agarradas a ecrãs de dimensões inferiores a um palmo e fazendo a televisão parecer o mais inofensivo dos "pré-gadget" arcaícos. Não me interpretem mal; eu sou um neoludita que despreza a televisão [o objecto e a programação a que dá acesso] mas não me lembro de alguma vez ter olhado para um televisor como extensão do corpo - ou da consciência - de alguém. Sim, a televisão roubou e rouba tempo na medida em que milhões e milhões de pessoas continuam a despender boa parte do seu pouco "tempo-livre" olhando para ela; sim, a programação televisiva [em particular a informação, transformada em entretenimento-informativo] continua a influenciar de forma decisiva a percepção de uma parte relevante das comunidades sobre temas chave do debate público [desde logo seleccionando o que é ou não passível de debate, e em que termos...]. Em todo o caso creio que serão raras as pessoas que confundem a televisão objecto - e a televisão-conteúdo - com o seu próprio "eu". Esta suposição muda radicalmente de sentido se em vez da televisão considerarmos os nossos "smartphones". Em 2016, num artigo publicado no The Guardian, Michael Lynch reflectiu sobre o telefone como extensão da identidade dos seus utilizadores. Em certo sentido, esta confusão entre o nosso eu-físico e esse apêndice tecnológico com usamos não menos de 18 horas por dia é já o início de um transumanismo efectivo ["whether or not we actually are our phones, we increasingly identify with them. We increasingly see them and the digital life we lead on them as partly constituting who we psychologically are"]. O assunto parece-me suficientemente sério para não ser ignorado. De resto, é precisamente à luz desta constatação mais ou menos evidente que percebemos que não existe de facto grande relação entre a relação entre a forma como nos relacionávamos [e relacionamos] com a televisão e, por outro lado, a forma como vivemos - intensa e sofregamente - o smartphone como parte de nós. A crescente percepção desta relação doentia entre o ser humano e o seu telefone tem motivado um movimento involutivo no plano meramente tecnológico, e que consiste na opção por dispositivos que regressam às funções básicas do antigo telefone móvel - fazer e receber chamadas, enviar e receber "sms". Não sei se este "movimento" terá a expressão suficiente para se transformar em moda e, por essa via, em "tendência de consumo". O futuro o dirá.
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06/05/2019
5G

Eu não ando a fazer marcação ao jornalista Paulo Moura. Leio-o e ouço-o com a atenção que só se dispensa a quem julgamos merecê-la, num mundo fundamentalmente desatento. E foi precisamente a minha atenção à sua crónica radiofónica desta manhã que me motivou esta prosa. Paulo Moura dedicou a sua crónica à questão - relevante! - da falta de escrutínio sobre grandes corporações que hoje controlam, sobretudo no que se refere a "informação", mais dados que muitos estados [juntos]. O tema é sensível e pertinente, sobretudo quando a chamada tecnologia "5G" parece estar já ali, com todas as imensas transformações que promete. O problema que identifico na crónica de Paulo Moura não diz respeito ao tema nem às suas considerações sobre os problemas que resultarão, inevitavelmente, do salto para o vazio absoluto da digitalização descontrolada; o problema diz respeito à ideia, na minha perspectiva míope ou então pouco séria, de que mau mesmo é a tecnologia 5G nas mãos dos chineses [por eventual oposição ao carácter benigno da mesma tecnologia nas mãos do chamado "ocidente"]. À crónica de Paulo Moura não faltou sequer um momento CMTV, quando se referiu à possibilidade de carros comandados à distância, a partir da China, poderem mediante um clique mal intencionado desatarem a atropelar indefesos cidadãos nas cidades do ocidente. O problema do 5G é, antes de mais, o próprio 5G. Não é o 5G nas mãos erradas, até porque o 5G seguir-se-á um 6G e esse salto ninguém sabe [ainda] quem o dará; é o 5G. O problema do 5G é ser esta tecnologia o momento em que a humanidade mete em definitivo o cano da arma tecnológica na têmpera do seu corpo colectivo. E a arma disparará e a "bala" será letal, independentemente da nacionalidade do fabricante. Paulo Moura identifica na sua crónica uma série de problemas reais que não serão do mundo de amanhã, são de ontem e de hoje. Vale bem a pena ouvi-la. Mas com sentido crítico e sem preconceitos etnocentricos.
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03/05/2019
José
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26/04/2019
Triste ironia
É lugar comum dizer-se que a comparação entre a repressão em democracia e a repressão em ditadura resulta geralmente num género de legitimação da ditadura, quando não na desvalorização da sua natureza brutal. Eu estou de acordo com esta perspectiva e por isso não farei comparações entre contextos sem comparação. É em todo o caso legítimo sublinhar a ironia patente na forma como os protestos ambientalistas dos últimos dias foram reprimidos, precisamente em cima das comemorações dos 50 anos da chamada Crise Académica de 1969, que teve no dia 17 de Abril de 1969 um dos seus pontos mais recordados e regularmente mencionados, quando Alberto Martins - então presidente da Associação Académica de Coimbra - tentou tomar a palavra numa cerimónia pública, sem sucesso. Hoje, 45 anos após a Revolução de Abril, não vivemos em ditadura, mas na minha perspectiva é muito discutível que ao fascismo salazarista se tenha seguido, após 1976 e depois de derrotado no seu essencial o programa do MFA, a democracia enquanto o exercício do poder do povo. Existirá liberdade de expressão, sendo todavia certo que não existe comparação entre a liberdade de discursar à porta da estação de metropolitano e a possibilidade de debitar cartilha de forma regular e não raras vezes sem contraditório nos grandes meios de comunicação de massa. O que se passou no evento em que participou o Ministro do Ambiente, ou no evento do partido do governo, não foi apenas a reposição da ordem pública tal como a concebemos hoje, num mundo em que a diversidade é muito mais aparente do que real; pelo contrário, a repressão destes protestos é bem a ilustração da forma como o acessório se vai sobrepondo ao essencial e de como esta sobreposição é protegida pelas forças repressivas do Estado, sendo que este não é - ao contrário do que muitos dizem, incluindo quem tem obrigação de saber que não é assim... - "todos nós", mas antes "o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes" manifestando-se "onde e na medida em que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser conciliados". A contradição é uma das mais salientes constantes na complexa matemática das sociedades actuais. A [triste] ironia também.
[imagem: Lusa]
[imagem: Lusa]
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A prática da vida selvagem [i]*
Dou por mim com um carrinho de compras digital cheio de livros [que não existem fisicamente no carrinho, ele mesmo uma inexistência real] que racionalizam e explicam o desejo que já existe em muitos - sobretudo naqueles que viveram o mundo pré-Internet - de ter o seu cérebro desprogramado de volta. A oferta é farta e, naturalmente, inclui um pouco de tudo: ciência, auto-ajuda, testemunhos de desintoxicação, receitas para a libertação, manifestos e panfletos propagandistas. Não creio que nenhum dos títulos venha a chegar à minha caixa do correio [real]. Já não está em causa se existe um problema, de que sou parte, de verdadeira dependência da internet. Quase todos sofremos dela, uns mais, outros menos. Acontece que a generalização dessa dependência, que é um problema real, na medida em que condiciona e modifica - poucas vezes para melhor... - as nossas vidas, passou a ser a norma e não, como acontece com a dependência de drogas ilegais ou do álcool, um comportamento minoritário e desviante. Esta normalização do absurdo que é a dependência "digital" transformou a autonomia e a independência face à digitalização da vida em forma de vida estranha e objectivamente ostracizante. A coisa é tão evidente que não são precisos livros, TED Talks e expertos na televisão alertando para os malefícios da crescente digitalização da vida; quem não os sente? Os cérebros pré-internet rareiam. O meu foi-se e eu sinto a falta do tempo em que o telefone portátil - o chamado "telemóvel" - só fazia chamadas e enviava sms. Creio que regressarei a esse registo logo que o meu smartphone entregue a alma ao criador. Até lá a tendência será para a desinstalação. A questão todavia mantém-se: será esse o caminho para a recuperação da minha autonomia?
[imagem]
* "A prática da vida selvagem" é o título de uma obra, colecção de textos, de Gary Snyder, poeta e ensaísta norte-americano. O livro encontra-se traduzido para português e disponível nas livrarias, sendo uma edição da Antígona.
[imagem]
* "A prática da vida selvagem" é o título de uma obra, colecção de textos, de Gary Snyder, poeta e ensaísta norte-americano. O livro encontra-se traduzido para português e disponível nas livrarias, sendo uma edição da Antígona.
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23/04/2019
Há um trol em todos nós...
As redes sociais não são apenas o meio, são também a motivação e, de certa forma, o contorno que molda da mensagem. Por isso, quando reagi nas redes sociais - no Facebook - à fotografia e ao texto que Steven Wilson publicou no Instagram relativamente à Páscoa, a Israel e a Roger Waters - tudo em meia dúzia de caracteres - o que fiz foi o que boa parte dos utilizadores das redes sociais fazem: processei a micro-mensagem e, com base em meia-dúzia de caracteres, tomei uma posição [e a ideia de "tomada de posição", neste contexto, é relevante] sobre Wilson e sobre sua aparente falta de vergonha. Quando o fiz violei uma regra que defini para mim há alguns anos e que, com raras excepções, tenho conseguido passar à prática: depois de ler um texto que me irrita profundamente devo respeirar fundo, resistir à tentação de "tomar posição", esperar meia hora [no mínimo] e depois avaliar racionalmente se a coisa merece mesmo o meu contributo para a barulheira virtual. Quer isto dizer que, no que me diz respeito, o sumo da "polémica" relativa à provocação de Steven Wilson a Roger Waters não diz respeito a nenhum dos dois, mas à minha própria pessoa. E quem perdeu, se perdedor houve, fui eu. Como na canção da Adelaide Ferreira. Nada disto retira legitimidade à questão que então coloquei, e que não é nova, longe disso: quais é o limite para a separação entre criação e criador, entre obra e artista, entre artista e homem/mulher para lá da vida artística? Não tenho resposta, mas cheguei a uma conclusão: a minha regra - a tal que quebrei - faz mesmo sentido.
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18/04/2019
Gasoil
A mini-crise dos combustíveis veio e foi com a rapidez característica da "modernidade líquida" a que se referia Zygmunt Bauman. No reino do efémero, em 48 horas o assunto do momento passará a ser outro porque na verdade nenhum tema se mantém na agenda mediática para lá da capacidade de foco do consumidor de informação. Já poucos se recordam que há 72 horas era o pináculo de Notre-Dame que dominava as atenções do país, comovendo mesmo aqueles que desconheciam a existência da Catedral. O tema do gasóleo [do "gasoil", como ouvi vezes sem conta na televisão e na rádio] deixará de ser tema em menos de nada e o que verdadeiramente fica para a posterioridade são três linhas autónomas - ainda que correlacionadas - de reflexão: a primeira relativa à gestão técnica de cenários como aquele vivido nos últimos dois dias; a segunda relativamente à questão "sindical", se aceitarmos como boa a pertença da estrutura que convocou a greve ao chamado movimento sindical [em sentido amplo]; a terceira, que é a que mais me interessa, relativamente à psicologia da multidão quando confrontada com a perspectiva teórica de um esgotamento temporário de um recurso que encara como essencial. A tese foi empiricamente confirmada: o receio do esgotamento leva ele mesmo ao próprio esgotamento, como uma profecia que se auto-concretiza, reforçando naqueles que lhe deram crédito a ideia de que na verdade agiram com razoabilidade e bom senso. Acredito que estivemos a 48 horas - no máximo - da corrida aos supermercados. E isso sim, seria verdadeiramente dramático. Aprender com o que se passou entre 16 e 18 de Abril de 2019 será fundamental para a gestão futura de crises [reais ou que se tornam reais a partir de suposições erradas], mas não sei se teremos - todos, colectivamente - essa capacidade.
15/04/2019
Pular a cerca
Sou um confesso fã da escrita do jornalista Paulo Moura. Leio-o sempre que posso e agora ouço-o também semanalmente, à segunda-feira ou quando calha, na sua crónica semanal na Antena1. Acontece frequentemente olharmos o mesmo assunto de prismas diferentes, o que funciona quase sempre como um elemento mais de dúvida que acrescento às minhas certezas, e isso só pode ser saudável, digo eu. Hoje porém não fui capaz de encontrar na sua crónica sobre a detenção de Julian Assange nenhum elemento novo, a perspectiva é gasta e o argumento baseado no mais repetido lugar comum. De resto parece-me absurda a ideia de que o jornalismo é um género de fiscal do status quo, que funciona simultaneamente como válvula de escape, torneira de segurança, do "sistema". Ou se calhar é mas não deveria ser, sobretudo porque a ordem instituída é alicerçada na mentira e o jornalismo digno desse nome será sempre, a par de outros nobres aspectos caracterizadores, um género de caça à mentira. Ao ouvir esta manhã Paulo Moura lembrei-me de uma sessão sobre "o digital" em que participei na passada semana, e durante a qual uma assistência silenciosa e em plateia levou durante longos minutos com um discurso vestido de novo mas todo ele velho como os trapos sobre as vantagens da "digitalização" - da transferência para "o digital" - dos manuais escolares. E eu ouvia e perguntava-me em silêncio se naquela multidão haveriam mais do que meia-dúzia de pessoas percebendo que a discussão que interessa não é sobre o suporte em que usamos os manuais na escola - se em papel ou projectados no quadro interactivo - mas antes sobre a própria utilização do manual escolar. Quase nada liga a crónica de Paulo Moura e o debate sobre "o digital". E no entanto uma coisa e a outra são expressões de uma mesma lógica que impera nas aparentemente "livres" sociedades modernas deste final de década, em pleno século XXI: a incapacidade de problematizar fora das fronteiras da situação. O status quo é verdadeiramente a pátria mental da Humanidade. Resistir é preciso. Pular a cerca é fundamental.
Créditos: ROB PINNEY/LNP/REX/SHUTTERSTOCK.
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15/03/2019
5 notas sobre a "greve" dos estudantes em defesa do ambiente
#1. o principal mérito da iniciativa será o facto de mobilizar para lutas da vida real, fora do ambiente controlado e não raras vezes estéril das redes sociais, uma geração que cresce em casa, escolas e grupos marcadamente cépticos relativamente à eficácia e à legitimidade dos movimentos de massas. Miúdos nas ruas gritando palavras de ordem em torno de uma ideia - de várias ideias - em que verdadeiramente acreditam tem um valor pedagógico muitíssimo superior a uma manhã de aulas chatas, repetitivas e em torno de currículos absurdos, que lhes dão muito mais sono do que entusiasmo.
#2. a escola tradicional tem aliás desempenhado um papel chave na domesticação do ser humano, por via da separação entre aprendizagem e vida - tão bem ilustrada pelas cercas levantadas à volta dos pavilhões de cimento onde "se aprende" aquilo que comissões de sábios decidiram que crianças de 6, 10 ou 15 anos deverão "aprender" - e também por via de programas escolares que reforçam verdadeiramente a percepção de separação entre "civilização" e mundo natural.
#3. a religião do crescimento económico, nomeadamente na sua definição capitalista associada a métricas de produção de riqueza, é aliás parte integrante da "pedagogia" escolar e mediática todos os dias debitada - e apreendida sem espírito crítico - perante as multidões fascinadas pelos grandes temas [cuja compreensão lhes escapa totalmente] mas desligadas da soma de pequenos-grandes problemas que são as causas reais do sintoma em que concentram a sua atenção.
#4. a reboque da "greve" de hoje já vi e li o habitual discurso da dissolução das responsabilidades, muito comum quando se pretende criar a percepção de que na verdade a culpa é simultaneamente de todos e de ninguém em particular.
#5. assim, para os mais interessados noutras perspectivas sobre o assunto deixo uma sugestão: o documentário "the fuck-it point". Sem mais.
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08/09/2016
Truman Show, ou o conforto cognitivo que se alapou à "civilização" que temos.
É curioso que, sendo eu profundamente interessado por todo o fundo psicológico e filosófico associado ao "Truman Show", nunca lhe tenha dedicado neste blogue a atenção devida. Como o tempo nesta fase é um bem escasso no meu dia-a-dia, aproveito este belíssimo post do Daniel Carrapa (no muito aconselhado "A barriga de um arquitecto"), cuja ligação faz parte da lista de blogues e afins disponível nesta tasca) para aconselhar um filme e uma reflexão que fez luz sobre uma realidade pouco clara no momento da sua estreia. "Truman Show" foi uma candeia demasiado à frente, num tempo em que dois, três anos parecem uma eternidade.
Aos mais interessados deixo uma dica adicional: a leitura do conto "What's It Like Out There?", de Edmond Hamilton, publicado na colectânea "Mensagens do futuro", organizada por Isaac Asimov, e publicada em português no âmbito da colecção Argonauta (n.º320).
Aos mais interessados deixo uma dica adicional: a leitura do conto "What's It Like Out There?", de Edmond Hamilton, publicado na colectânea "Mensagens do futuro", organizada por Isaac Asimov, e publicada em português no âmbito da colecção Argonauta (n.º320).
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30/08/2016
O muro de Doonbeg
O muro que Trump afirma querer erguer na fronteira entre os EUA e o México é o mais conhecido dos muros do debate político actual, mas não é o único. O mundo encontra-se cheio de muros, apesar de parecer que todos caíram em 1989.
Doonbeg é uma pequena povoação do sudoeste irlandês, não muito longe de Limerick e Shannon, locais que me habituei a reverenciar muito por força do Rugby que ali tem não apenas força mas verdadeira implantação popular. Limerick é também célebre por ali ter existido durante breve período uma comuna soviética, a fazer lembrar a 1871. Acontece que o que em 2016 está a colocar Doonbeg no mapa mediático não são nem o Rugby nem a luta dos trabalhadores irlandeses, mas o senhor Trump.
É bom começar por recordar que Trump, o Partido Republicano e a sua facção mais fundamentalista, conhecida por Tea Party, são partidários da tese segundo a qual as alterações climáticas (às quais insistem em chamar "aquecimento global") não passam de um embuste. O programa político e económico de Trump para os EUA tem nesta tese um dos seus alicerces fundamentais, propondo-se assim reverter as tímidas medidas da administração cessante em matéria ambiental, e lançar-se novamente numa disputa pela primeira posição da economia mundial com a China, sem qualquer preocupação relativamente às consequências ambientais resultantes dessa sua bélica estratégia económica.
Ora, a principal demonstração de que Trump conhece - e reconhece - a contradição do seu discurso encontra-se em Doonbeg, onde detém um empreendimento turístico que inclui um campo de golfe bem junto ao mar, e que por se encontrar ameaçado pelo efeito da erosão da costa e pelas tempestades motivou um pedido de Trump junto das autoridades irlandesas para ali ser construído um muro de quase 3 quilómetros, com o objectivo único de proteger o seu investimento dos efeitos das alterações climáticas - e da degradação ambiental evidente - que nos EUA afirma não passarem de embustes com o objectivo de beneficiar a economia chinesa face à americana.
Existem várias semelhantes, vários pontos de intercepção, entre os muros que Trump projecta para um futuro próximo, o mexicano e o irlandês: ambos se fundamentam em visões hipócritas, desinformadas e irresponsáveis face ao futuro. Trump afirma que quem pagará o muro mexicano é precisamente o México, e na Irlanda não será diferente, já que o campo de golfe pode ser seu mas a destruição ambiental com que pretende brindar Doonbeg ficará - a concretizar-se - para os irlandeses, como memória da passagem pela face de terra de um ser não menos populista e perigoso do que criaturas como Benito Mussolini ou Francisco Franco.
É hoje para todos uma evidência que é fundamental derrotar Trump nas eleições norte-americanas de Novembro. O que urge igualmente compreender é que Trump é acima de tudo um símbolo de uma mundivisão dominante, que domina os media, molda consciências, desinforma, mesmo quando maldiz Trump. Ele é a expressão de um sistema económico, social, político, cultural e ambiental que se impõe sobretudo através da inacção das pessoas comuns, esmagadas pelas dificuldades da vida, por horários de trabalho intermináveis, pela pressão do complexo tecnológico-industrial e pela afirmação asfixiante da ideia de consumo - sobretudo tecnológico - como atalho fácil para uma vida mais feliz.
Doonbeg é uma pequena povoação do sudoeste irlandês, não muito longe de Limerick e Shannon, locais que me habituei a reverenciar muito por força do Rugby que ali tem não apenas força mas verdadeira implantação popular. Limerick é também célebre por ali ter existido durante breve período uma comuna soviética, a fazer lembrar a 1871. Acontece que o que em 2016 está a colocar Doonbeg no mapa mediático não são nem o Rugby nem a luta dos trabalhadores irlandeses, mas o senhor Trump.
É bom começar por recordar que Trump, o Partido Republicano e a sua facção mais fundamentalista, conhecida por Tea Party, são partidários da tese segundo a qual as alterações climáticas (às quais insistem em chamar "aquecimento global") não passam de um embuste. O programa político e económico de Trump para os EUA tem nesta tese um dos seus alicerces fundamentais, propondo-se assim reverter as tímidas medidas da administração cessante em matéria ambiental, e lançar-se novamente numa disputa pela primeira posição da economia mundial com a China, sem qualquer preocupação relativamente às consequências ambientais resultantes dessa sua bélica estratégia económica.
Ora, a principal demonstração de que Trump conhece - e reconhece - a contradição do seu discurso encontra-se em Doonbeg, onde detém um empreendimento turístico que inclui um campo de golfe bem junto ao mar, e que por se encontrar ameaçado pelo efeito da erosão da costa e pelas tempestades motivou um pedido de Trump junto das autoridades irlandesas para ali ser construído um muro de quase 3 quilómetros, com o objectivo único de proteger o seu investimento dos efeitos das alterações climáticas - e da degradação ambiental evidente - que nos EUA afirma não passarem de embustes com o objectivo de beneficiar a economia chinesa face à americana.
Existem várias semelhantes, vários pontos de intercepção, entre os muros que Trump projecta para um futuro próximo, o mexicano e o irlandês: ambos se fundamentam em visões hipócritas, desinformadas e irresponsáveis face ao futuro. Trump afirma que quem pagará o muro mexicano é precisamente o México, e na Irlanda não será diferente, já que o campo de golfe pode ser seu mas a destruição ambiental com que pretende brindar Doonbeg ficará - a concretizar-se - para os irlandeses, como memória da passagem pela face de terra de um ser não menos populista e perigoso do que criaturas como Benito Mussolini ou Francisco Franco.
É hoje para todos uma evidência que é fundamental derrotar Trump nas eleições norte-americanas de Novembro. O que urge igualmente compreender é que Trump é acima de tudo um símbolo de uma mundivisão dominante, que domina os media, molda consciências, desinforma, mesmo quando maldiz Trump. Ele é a expressão de um sistema económico, social, político, cultural e ambiental que se impõe sobretudo através da inacção das pessoas comuns, esmagadas pelas dificuldades da vida, por horários de trabalho intermináveis, pela pressão do complexo tecnológico-industrial e pela afirmação asfixiante da ideia de consumo - sobretudo tecnológico - como atalho fácil para uma vida mais feliz.
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29/08/2016
Affluenza, o livro de auto-ajuda que recusa ser de auto-ajuda.
O livro divide-se em duas partes fundamentais: uma primeira que procura caracterizar a situação da "Affluenza" nos países economicamente mais pujantes e uma segunda na qual o autor sugere-se "vacinas" (respostas) para a epidemia.
Não posso afirmar que ler "Affluenza" tenha sido uma perda de tempo (porque na verdade não foi), mas creio que existem na obra três problemas fundamentais, que não pude ignorar:
1. O autor faz o retrato da "Affluenza" através do exemplo de seres humanos que vivem num contexto económico e social atípico, caracterizado por conforto económico muito acima da média dos seus países; ora, a fundamentação do problema à luz da experiência de vida dos ricos ou dos super-ricos pode criar no leitor a impressão de que a relação entre capitalismo e doença mental, consumo e esvaziamento da vida, são elementos específicos da condição das pessoas do topo da pirâmide económica das sociedades. Como bem sabemos, não é assim.
2. O livro, que aborda o interessante conceito da "Personagem de Marketing", de Erich Fromm, ainda deixa de fora da reflexão que propõe o espectacular - e triste - efeito das chamadas redes sociais na criação de auto-imagens e de imagens promovidas pelos próprios junto dos outros que são na verdade desfasadas face à realidade das vidas fora da "rede".
3. Sendo um livro que parece recusar a sua pertença ao domínio dos livros de auto-ajuda, "Affluenza" não deixa de cair na tentação de sugerir mais respostas do que motivar perguntas. E é uma pena. A obra coloca em cima da mesa um conjunto de preocupações centrais do nosso tempo, relacionando o modelo económico, político, social, cultural e ambiental em que nos encontramos imersos com a espectacular explosão das mais diversas formas de perturbação mental; porém, não parece resistir à disponibilização de receitas, quando essa lógica de "pronta a consumir" é precisamente uma das características mais negativas e nocivas do capitalismo.
Em suma, "Affluenza" é interessante e merece a pena ser lido. A leitura deverá ser crítica e distanciada, naturalmente. Em todo o caso, crítica e distância é postura que se deve aplicar a qualquer leitura.
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12/08/2016
A natureza mercantil da solidariedade de circunstância.
É assim todos os Verões: o país arde, os bombeiros socorrem as populações, o povo apercebe-se da desproporção entre a violência dos incêndios e a falta de meios existentes para o seu combate, e as grandes e médias empresas lançam o arpão da solidariedade de circunstância, segmento da política de marketing que faz chegar o seu nome a todos os lares e cantos de Portugal sem os custos pornográficos de uns quantos segundos comprados antes de uma transmissão televisiva de um jogo de futebol internacional. Trata-se de solidariedade interesseira, e por isso mesmo pouco ou nada solidária.
Acontece que o capitalismo tem isto no seu "adn": a tendência para tudo coisificar, mercantilizar, quantificar sob a forma de custos e proveitos. E numa sociedade em que a semiótica do capital se parece ter imposto de forma dominante, colocando as pessoas comuns a falar a mesma novilíngua que é a sua, o povo encara com inocência e respeito aquilo que não lhe deveria merecer senão sentido crítico e questionamento.
Querem as grandes corporações nacionais ajudar na prevenção e combate aos incêndios? Transfiram as suas sedes fiscais para território nacional. Tudo o resto é folclore que não se distingue no essencial de "piquenicões" e afins.
Acontece que o capitalismo tem isto no seu "adn": a tendência para tudo coisificar, mercantilizar, quantificar sob a forma de custos e proveitos. E numa sociedade em que a semiótica do capital se parece ter imposto de forma dominante, colocando as pessoas comuns a falar a mesma novilíngua que é a sua, o povo encara com inocência e respeito aquilo que não lhe deveria merecer senão sentido crítico e questionamento.
Querem as grandes corporações nacionais ajudar na prevenção e combate aos incêndios? Transfiram as suas sedes fiscais para território nacional. Tudo o resto é folclore que não se distingue no essencial de "piquenicões" e afins.
10/08/2016
Ruínas Olímpicas
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