16/05/2019

"Fidelidade"

Os meus avós - a minha avó materna, o meu avô materno e depois o homem que casou com a minha avô materna, depois da separação dos pais da minha mãe - foram trabalhadores da Companhia de Seguros Império. Todos foram trabalhadores profundamente dedicados à Companhia, que foi muito mais do que uma "segunda casa" um objecto da sua dedicação mais profunda. A minha avó foi a primeira mulher responsável pela rede comercial da Império; o meu avô era um auditor absolutamente viciado em trabalho, que antes de morrer - e já sem grande lucidez no seu discurso - continuava a falar da Império quando a Império já só era um nome do passado; e o padrasto da minha mãe, a quem sempre chamei avô e pelo qual sempre fui tratado como neto, foi administrador da Império quando a Revolução nacionalizou a empresa, ou seja, quando Império deixou de ser um negócio de uns para passar a ser património de todos. Estou certo de que todos eles - já desaparecidos - ficariam profundamente envergonhados ao ver a reportagem hoje divulgada pelo canal de televisão SIC a propósito da venda de património imobiliário da Fidelidade - que é a empresa que resulta da fusão de quatro seguradoras nacionais, entre as quais a Império - a um fundo financeiro norte-americano que entrou em força no mercado nacional das actividades especulativas. De resto a intolerável vergonha que hoje foi explicada pela SIC não seria possível no contexto de uma Fidelidade pública [e muitíssimo rentável...] e, antes disso, de uma Império pública e ao serviço do país. Também não seria possível no contexto de uma lei que protegesse as partes objectivamente mais fracas no contexto do mercado de arrendamento, tão pouco se o Presidente da República tivesse usado o "afecto" que não lhe falta para a fotografia ao serviço daqueles que o negócio "Fidelidade"/Apolo meteu, mete e meterá no olho da rua. Tudo isto é um nojo, tudo isto repugna e choca, dá razão a quem defende que o sector financeiro deve estar na esfera pública e nunca nas mãos dos oligarcas e plutocratas de todas as nacionalidades e cores de gravata. O cão da "Fidelidade" está cheio de sarna. Não é de confiança.

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