Em artigo de opinião publicado no diário online de direita "Observador", José Milhazes lança uma pergunta mil vezes repetida por todos aqueles que acham que o mundo só anda tendo à frente um capataz: "Onde estão as elites políticas?".
A interrogação é um lugar comum das análises reaccionários ao momento do mundo, da "Europa" (leia-se União Europeia) e de Portugal. Perante os problemas colectivos com que nos deparamos não falta quem clame por "estadistas" como Delors, Helmut Kohl, Mitterrand ou, no plano nacional, Mário Soares. Para a direita o problema da política situa-se nas elites (ou na falta delas), sendo que a parcela sempre ausente da sua equação é o Povo.
Quem se define como "de esquerda" não pode, na minha opinião, deixar-se levar pela conversa mole das elites (ou da falta delas) como causa fundamental dos males do mundo. As "elites" são circunstanciais e os problemas do mundo mais ou menos estruturais. É por isso que as "elites", também conhecidas por moscas, mudam... mas a trampa mantém-se por aí, alimentando-as.
Milhazes não pergunta "Onde está o povo?" porque não lhe ocorre que possa pertencer ao Povo a iniciativa e a acção política e social decisiva na resolução dos seus próprios problemas. A nostalgia das elites desaparecidas é um lugar comum de formas nativas ou estrangeiras de uma certa forma de sebastianismo corrompido; ela é também uma certa forma de condenação do povo ao estatuto de órfão de referências, abandonado por aqueles a quem cabe dirigir a coisa colectiva e, por isso mesmo, sujeito ao fado da desgraça até que novos protagonistas "com dimensão e sentido de Estado" assumam o penoso encargo, a sacrifical missão, de o salvar.
Quanta paciência têm despendido os pobres aturando semelhante visão do mundo.
Pela minha parte confirmo e reafirmo a minha convicção de que apenas o povo poderá libertar-se as amarras que ainda o fixam como primeira barreira de defesa daqueles que o exploram. Se esse evidente potencial se concretizará ou não é coisa que veremos.

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